MULHERES
30/06/2019 08:19 -03 | Atualizado 30/06/2019 09:22 -03

Ainda falta oportunidade para o futebol feminino no Brasil, diz diretora da Federação Paulista

Ex-capitã da seleção e diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, Aline Pellegrino é um dos nomes que lutam pela renovação da modalidade no País.

Lars Baron via Getty Images
Aline Pellegrino, quando ainda era zagueira, abraça a goleira Bárbara durante amistoso contra a Alemanha, em 2009.

Poucas podem dizer que vivenciaram a evolução do futebol feminino no Brasil, tanto em campo como fora dele. A ex-zagueira Aline Pellegrino, que hoje atua como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol (FPF), vestiu a camisa da seleção em duas Copas ― na China, em 2007, quando foi capitã, e na Alemanha, em 2011. Em 2013, ela aposentou as chuteiras, mas não a vontade de fazer a modalidade evoluir.

“O que falta é oportunidade. O meu trabalho é gerar essas oportunidades. Criando os campeonatos de base, você vai ter mulheres e meninas competindo cada vez mais”, disse Pellegrino, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Desde 2017, Pellegrino trabalha para impulsionar o esporte desde as categorias de base, e garantir que o legado e a renovação dos times na modalidade aconteça, assim como pediu Marta, maior artilheira de todas as Copas, após derrota para França, por 2 a 1, que eliminou o Brasil do Mundial de 2019.

“Valorize! A gente pede tanto, pede apoio, mas a gente também precisa valorizar”, disse a camisa 10, emocionada, em frente às câmeras. “Não vai ter uma Formiga para sempre, uma Marta, uma Cristiane. O futebol feminino depende de vocês para sobreviver”, completou a atacante. 

Essa entrega que a gente viu agora aconteceu outras vezes também. É que antes as pessoas não cobriam.
Lars Baron via Getty Images
Aline em campo durante amistoso entre Brasil e Alemanha, em 2011.

Logo na primeira fase do mundial, o time brasileiro bateu a Jamaica por 3 a 0. Em seguida, perdeu de virada para a Austrália por 3 a 2, mas ainda assim conseguiu garantir classificação ficando em terceiro lugar no Grupo C graças à vitória sobre a Itália por 1 a 0. Mesmo jogando com raça, o time foi eliminado do mundial pela seleção francesa no último domingo (23).

“A gente sempre teve um bom desempenho. Essa entrega que a gente viu agora aconteceu outras vezes também. É que antes as pessoas não cobriam”, diz Pellegrino, que já usou a braçadeira de capitã e ganhou medalha de prata pela seleção. “Mas que bom que a gente está mudando. Há dez anos ninguém estava preocupado com isso”, pontua Pellegrino, que está desde 2017 na FPF. 

Em entrevista ao HuffPost Brasil, ela falou sobre o desempenho do Brasil na Copa da França e por que esta edição foi diferente de todas as outras em termos de visibilidade. Disse ainda que, no Brasil, ainda é preciso discutir como criar uma modalidade sólida antes de discutir salários.

Leia a entrevista completa:

 

HuffPost Brasil: O Brasil entrou com 10 derrotas na Copa da França, sendo 9 delas consecutivas, mas ainda assim conseguiu chegar às oitavas de final e colecionou recordes com Marta em campo. Como você avalia o desempenho da seleção brasileira no campeonato?

Aline Pelegrino: Eu já joguei em duas Copas e a gente sempre teve um bom desempenho. Ficamos com o terceiro lugar em 1999, em segundo, em 2017. Essa entrega que a gente viu agora aconteceu outras vezes também. É que antes as pessoas não cobriam. E agora, como a gente vinha desse resultado negativo, gerou-se essa preocupação. Mas você perdeu 9 jogos que não foram na Copa do Mundo. O que ficou pra trás não adianta. Até porque quem ganhou 9 vezes saiu, que foi o caso da Austrália. E essa questão do desempenho, sempre foi assim. Vai ser sempre essa entrega. 

Mas, obviamente, que cada vez está mais difícil. As Copas que eu joguei tinham menos seleções - eram 18 - e você não tinha as oitavas de final. Você saía da primeira fase e já ia para as quartas de final. Agora você tem as oitavas, que deixam tudo mais difícil para chegar até a final. E vai ser assim daqui para a frente. Então se você quiser resultados melhores, vai ter que se preparar muito mais ou muito antes. Existem outras seleções que estão fazendo tanto quanto nós fazemos aqui. Então, às vezes, a gente vai chegar ao nosso limite, mesmo achando que está 100%. Há mais de 10 seleções que estão no mesmo patamar e é dentro do campo que essa questão vai se resolver.

Neste ano, a TV Globo transmitiu os jogos da seleção feminina pela primeira vez ― o que trouxe mais visibilidade para a modalidade e para o campeonato, em si. Esta foi, de fato, a Copa de maior visibilidade para o Brasil?

Eu acho que a gente tem uma movimentação da sociedade em relação ao espaço da mulher nos últimos anos. No ano passado, já começou a ficar claro com a cobertura da Copa do Mundo masculina, no sentido de ver mulheres ocupando mais espaços como repórteres. E eu acho que todo esse movimento dos últimos anos, que mudou a forma como a sociedade enxerga as mulheres, ajudou muito nisso. 

Mas eu também acho que a FIFA teve um papel fundamental na divulgação e na comercialização dessa Copa. Eles vêm trabalhando nisso desde 2016, com uma estratégia global. E a hora que a grande mídia brasileira abraça e diz “caramba! é isso que eu tenho que cobrir!”, não tem como acontecer nada diferente do que ter uma visibilidade significativa para o nosso esporte, o que já acontece em outros países. Eu acredito muito que, no Brasil, esse movimento de sociedade sobre o espaço da mulher colaborou muito mesmo. Na Argentina foi igual, no Chile foi igual. A FIFA entendeu a importância que tem que dar à modalidade e em que patamar tem que colocar esse futebol. 

Eu acho que a gente está passando por essa transição. Isso está muito claro.
Rodrigo Corsi/FPF
Aline conversa com atletas que jogam em categorias de base, como a sub-17, em São Paulo.

Ainda existe uma disparidade grande do campeonato e da modalidade em relação ao masculino. Na sua opinião, por que existem jogadoras de destaque como a Marta, que já foi eleita melhor do mundo por 6 vezes, e que fica sem patrocínio e ganha menos do que jogadores homens?

De novo, a gente tem que falar de sociedade. Vamos olhar o lugar que a mulher ocupa. Quando a gente começou a conseguir os nossos espaços de volta? O futebol no Brasil foi proibido por 40 anos! E a gente sabe que isso que aconteceu com a Marta, agora, nessa situação, não acontece só no futebol. Isso reflete muito a nossa sociedade: em que hoje, mulheres e homens fazem a mesma coisa, exercem a mesma função, o mesmo cargo, e ainda recebem salários diferentes.

Acho que, no futebol, a gente não pode fazer essa comparação tão ao pé da letra ainda, mas daqui a pouco vai poder fazer, sim. O que acontece no futebol está diretamente relacionado a como a sociedade vê as mulheres e vice-versa.

Mas que bom que a gente está mudando. Há dez anos, ninguém estava preocupado com isso. E penso que mudanças também não vão acontecer do dia para a noite. Às vezes nem é bom que aconteça do dia para a noite, porque ela não será uma mudança sólida.

Eu acho que, na próxima Copa, se a Marta estiver jogando, ela vai ter um patrocínio esportivo, porque os caras vão pagar o que ela merece, e assim sucessivamente. Eu acho que a gente está passando por essa transição. Isso está muito claro. E não adianta também a gente correr mais do que precisa. Precisamos de muito mais, merecemos muito mais? Sim. Mas eu acho que, da forma como está sendo construído, aos poucos, é uma forma de criar algo sólido e importante.

Quando você fala em “não dá pra fazer ao pé da letra”, seria colocar o futebol feminino no mesmo patamar do masculino?

Sim. Não dá pra colocar na mesma balança. Nós temos uma modalidade que foi proibida por 40 anos, que disputou sua primeira Copa só em 1991... A Marta fez esses 17 gols em uma só Copa? Não. Ela construiu isso ao longo de várias Copas. A Formiga, que está jogando sua sétima Copa, bateu outros recordes jogando a quinta e a sexta. Só que ninguém nunca deu atenção para isso.

Eu penso que a gente tem que construir a modalidade com calma, porque me preocupa que não se traga algo sólido, que se consolide. E eu também acho que os valores do futebol masculinos são “meio” irreais; acho que a gente tem muita coisa pra fazer no futebol feminino antes de comparar [com o masculino]. E acho que hoje existem muitas atletas que já merecem receber muito mais, não só a Marta em si ― e acho que ela luta por isso. Mas é um processo.

 

E o que é preciso para ter essa estrutura sólida e contínua na modalidade?

Campeonatos, por exemplo. Como a gente tem hoje aqui na Federação [Paulista de Futebol], que é um case de sucesso. Há três anos a gente não tinha um campeonato de base da modalidade, só tinha o campeonato adulto. E a gente não precisa de um campeonato, a gente precisa de 3, 4 campeonatos de base, sabe? Os clubes que estão chegando agora estão montando suas equipes de futebol feminino justamente por conta de licenciamento, por uma série de fatores.

Tem muita coisa no processo que a gente precisa estruturar, ter enraizado, como categorias de base e campeonatos. E aí a gente pode passar para outras discussões, pode falar da parte comercial, da parte salarial. Isso é algo que vai evoluindo.

Acho que a gente tem muita coisa pra fazer no futebol feminino antes de comparar com [o masculino].
Rodrigo Corsi/FPF
Desde 2017, Aline atua como diretora de futebol feminino na Federação Paulista de Futebol.

A Marta disse, após a eliminação do Brasil da Copa, que “nem sempre vocês terão uma Marta, uma Formiga e uma Cristiane”. Como você vê o futuro da seleção e da renovação das atletas?

Eu acho que a questão da renovação tem dois vieses. Se a gente olhar a nossa seleção sub-17 e sub-20, tem meninas que são talentosíssimas. Mas a renovação depende muito também do comando. E foi o caso dessa Copa.

A comissão técnica não quis abrir mão de Marta, Formiga e Cristiane. Existem outras atletas que poderiam estar ali? Existem. Vão existir outras Martas, Cristianes, e Formigas? Não. O Pelé é só um. O Neymar é só um. A Marta vai ser só uma, a Cris vai ser só uma, a Formiga vai ser só uma. No futuro, se a gente conseguir construir esse legado, vão ter outras meninas que vão se destacar tanto quanto elas, mas com características diferentes. 

Mas essa questão da renovação passa, também, por um processo de planejamento. Ao que tudo indica, agora ela vai acontecer depois das Olimpíadas, em 2020. É uma escolha. E para a seleção brasileira, se a gente olhar a sub-17, sub-20, existem muitas meninas que podem começar a entrar nesse processo de renovação. E aí, cada vez mais, quando a gente tiver o campeonato de base acontecendo e conseguir dar mais suporte pra essa renovação... Até que isso seja automático, né? Tem que ser algo automático. É um ciclo. Saiu uma jogadora na seleção adulta, entrou uma da 20, da 17 e isso é um ciclo que não para. É o que acontece no futebol masculino. 

 

E hoje a gente tem nomes como a Bia Zaneratto, a Ludmilla...

Sim, sim. E existem meninas da 17, como a Vivi, a Iaiá, a Cris... a Ana Vitória, da sub-20. Existem muitas meninas boas. Quem está mais inserido no meio sabe que elas estão aí. Mas é isso, me parece uma estratégia da confederação, dessa comissão técnica atual de “ah, não, essa renovação só vai acontecer de fato, de repente, depois de 2020”, porque acho que Cris, Marta e Formiga jogam a próxima Olimpíada. E aí também não é que são só essas três que tem que renovar, a gente está falando delas, porque são ícones, mas existem outras jogadoras, e a renovação é oportunidade.

Eu te pergunto: há 40 anos, se as mulheres eram proibidas de jogar por aqui, por que elas teriam vontade de ser técnicas, dirigentes, preparadoras físicas, árbitras?
Alex Grimm via Getty Images
Em abril de 2009, Aline jogava ao lado de Marta, Formiga, Cristiane e Bárbara -- que se destacaram na Copa da França, hoje, em 2019.

Hoje, a seleção brasileira está sob o comando de Vadão e Marco Aurélio Cunha. Na Copa, das 8 seleções que estão nas quartas de final, 5 são comandadas apenas por mulheres. Como você vê essa questão? Para que a modalidade evolua no Brasil, é preciso ter mais mulheres no comando?

Eu acho que se a gente olhar o contexto histórico dessas seleções e comparar com o Brasil, a gente vai ver diferenças brutais no processo. Muitas delas também tiveram proibições - às vezes menores, às vezes maiores -, mas aí tem uma questão da cultura diferente.

Muitos desses países já entendem de uma forma diferente o lugar da mulher. A gente está começando a caminhar agora nessa questão. Eu te pergunto: há 40 anos, se as mulheres eram proibidas de jogar por aqui, por que ela teriam vontade de ser técnicas, dirigentes, preparadoras físicas, árbitras? Era difícil estar dentro do campo e também fora dele.

E dentro do campo existem 11 jogadoras. Por que que eu quero ser essa que está do lado de fora? Então eu acho que a gente também sofre, nesse momento, de olhar e pensar: “por que não existem tantas mulheres?” É óbvio: porque não tem. É isso. Antes você não podia ser atleta. Só que a partir de agora vai ter cada vez mais. Mulheres preparadas, capacitadas. 

Tem que olhar lá na frente. Eu acredito muito na competência. A gente tem que ter um técnico ou uma técnica competente, gabaritado para estar ali. Até porque senão cai naquela de “mulher só pode trabalhar no futebol feminino” e homem “só no masculino”. Eu acho que tem que acontecer dos dois lados.

Tem muita mulher competente que tem, também, que estar no futebol masculino. Porque não é o masculino ou feminino: é o futebol. A técnica mulher entende de futebol, o técnico homem entende de futebol, e o que homens e mulheres fazem é futebol.

Óbvio: existem algumas coisas que são diferentes, que pode ter ali uma sinergia especial entre mulheres. Mas quem garante que essa sinergia é a fórmula do sucesso? Às vezes as diferenças também podem trazer sucesso. E acho que vai depender de cada grupo, de cada situação e eu acredito muito na competência. Eu gosto muito de ver as mulheres ocupando esses espaços, fazendo um bom trabalho, e isso mostra que mulheres e homens são competentes para o futebol, dentro e fora dele. 

 

E como a Federação atua para mudar esse cenário?

Eu acho que é dando oportunidade. É aumentar o foco de competições.  A primeira competição sub-17 da federação foi em 2017. Tinham 17 times, e eu te pergunto: “poxa, será que a Aline montou 17 times?” Impossível. A gente montou um campeonato. O que não tinha era campeonato. Então acho que dar essa oportunidade, essa estrutura, estimular, animar o time, fazer com que jogue o campeonato, montar peneiras. O que falta é oportunidade. Então o meu trabalho é gerar essas oportunidades. É isso. Criando as competições, você vai ter mulheres e meninas competindo cada vez mais.