COMIDA
05/07/2019 02:00 -03

Tudo que sabemos sobre os 'produtos químicos eternos' nos alimentos

Sabe a pipoca de microondas? É exatamente um desses alimentos com nível altíssimo desses “produtos químicos eternos”.

Karniewska via Getty Images

Talvez você não soubesse da existência das substâncias perfluoralquil e polifluoralquil antes do vazamento dos documentos da Food and Drug Administration (FDA – órgão governamental americano responsável pela regulamentação de alimentos e medicamentos) revelarem que elas foram detectadas em alimentos como carne, laticínios, aves e até bolo de chocolate pronto.

Conhecidas como PFAS, essas substâncias são encontradas em artigos como embalagens de comida, panelas e frigideiras antiaderentes e espuma anti-incêndio. A exposição a altas concentrações delas foi vinculada a câncer testicular e renal, doenças da tireóide e colesterol alto.

Os PFAS estão longe de serem novidade; há pelo menos duas décadas a Agência americana de Proteção Ambiental tem consciência do risco. Mas o que vem sendo comentado mais recentemente é a presença desses chamados “produtos químicos eternos” na água potável.

Essas substâncias químicas eternas infiltraram a água em 43 estados americanos, impactando a água consumida por 19 milhões de americanos.

Com a notícia de que também estão sendo encontradas em nossos alimentos, as coisas se complicam ainda mais. Mas até que ponto precisamos nos preocupar? E o que podemos fazer para limitar nossa ingestão de PFAS?

Até que ponto essas substâncias são realmente “eternas”?

Os PFAS não se decompõem no ambiente e levam um tempo incrível para sair de nosso corpo. David Andrews, doutor em toxicologia e cientista sênior do Grupo de Trabalho Ambiental, explicou como eles receberam o apelido de “produtos químicos eternos”, ou “forever chemicals”.

“A meia-vida dos PFAS é de quatro a cinco anos, em média”, ele disse. “Ou seja, se você ingeri-los hoje, daqui a quatro ou cinco anos apenas a metade do que você ingeriu terá saído de seu corpo. Os PFAS são conhecidos como produtos químicos eternos também porque não se decompõem no meio ambiente.”

“Quando a Agência de Proteção Ambiental (EPA) redigiu suas recomendações sobre PFAS para Nova Jersey e internacionalmente, previa que a maior fonte de exposição das pessoas a essas substâncias seriam os alimentos”, ele prosseguiu. “Agora, com a detecção deles na água potável, temos que perguntar: o que precisamos fazer para eliminar nossa exposição ou reduzi-la ao máximo?”

Como evitar a exposição aos PFAS nos alimentos?

Infelizmente, devido à natureza abrangente do problema e à falta de pesquisas que identifiquem exatamente como os PFAS estão infiltrando o sistema alimentar, não há muito que nós, consumidores, possamos fazer para minimizar nossa exposição.

“Com base no que sabemos sobre os alimentos, não há muito que um consumidor possa fazer para reduzir sua exposição”, disse Andrews. “Neste momento o foco está voltado à água e a pressionar a FDA e o governo a avaliar melhor o risco. Esse é um trabalho que transcende uma pessoa apenas, e mudanças simples de hábitos não poderão eliminar nossa exposição através dos alimentos. Devemos nos preocupar, mas entender que boa parte do problema não depende de nós. É em parte por isso que estamos focando especialmente os padrões federais, porque, neste caso, a julgar pelo pouco que sabemos, este problema não pode ser resolvido por cada pessoa individualmente.”

É uma análise desanimadora e que, diz Andrews, reflete tanto a nossa administração atual, que é contrária à regulamentação, quanto a regulamentação extremamente fraca das substâncias químicas de uso industrial. Mas nem tudo são más notícias. Andrews compartilhou pelo menos uma fonte de PFAS da qual podemos manter facilmente manter distância.

Existem alimentos com teor especialmente alto de PFAS?

“A pipoca de microondas é tradicionalmente uma fonte de exposição muito alta. Há pelo menos uma década recomendamos que ela não seja consumida, devido ao uso frequente de PFAS na embalagem e à facilidade com que as substâncias penetram na pipoca”, disse Andrews. “E três anos atrás participei de um estudo que testou embalagens de fast-food. Constatamos que 50% delas, de praticamente todas as redes de fast-food no país, incluindo embalagens de doces e bolinhos de cafés, são revestidas em PFAS.”

As substâncias são acrescentadas a alimentos para gerar resistência à gordura, mas, segundo Andrews, existem outras opções para cumprir o mesmo papel. “Sei que algumas redes de fast-food estão buscando maneiras de operar totalmente sem PFAS, mas não sei em que pé isso está”, disse ele.

Andrew disse também que embora não seja possível eliminar os PFAS completamente, há provas de que é possível reduzi-los significativamente.

“Podemos tomar medidas muito importantes que vão reduzir drasticamente os níveis das substâncias presentes nas pessoas”, ele disse. “Pelo lado positivo, nos últimos dez anos assistimos a uma redução na concentração de PFAS em nosso sangue, devido a um acordo voluntário de redução fechado entre a indústria e a EPA. Vimos que mudanças no mercado químico realmente levam a modificações na população geral e sua exposição a substâncias químicas. Descobrimos mais sobre como essas substâncias são potentes e descobrimos que é preciso fazer muito mais. Mas uma mudança pode ocorrer, sim, e pode ocorrer ainda durante nossas vidas.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.