Comida

'Não se destrói o patriarcado com fome': Por que precisamos mudar a visão sobre nossos corpos

Nutricionista que viralizou nas redes por bordão feminista defende alimentação intuitiva. “O corpo é um instrumento de vida, não ornamento", contesta.
Já pararam para pensar que o nosso corpo é um instrumento, e não o nosso “objetivo de vida”? 
Já pararam para pensar que o nosso corpo é um instrumento, e não o nosso “objetivo de vida”? 

Quantas vezes você já direcionou todos os seus esforços para a sua dieta ou para a busca por um corpo ideal? Quantas vezes você já tentou seguir uma dieta específica durante o dia e, à noite, se descontrolou e comeu literalmente tudo que viu pela frente ― e ainda foi dormir com um sentimento terrível de culpa?

Estes são sentimentos muito mais comuns do que você imagina ― e se você já passou ou está passando por isso, saiba que você não está sozinho.

A sociedade sempre teve um padrão de beleza e isso recai, sobretudo, em mulheres, que desde muito novas aprendem a seguir um turbilhão de regras relacionadas ao corpo, ao comportamento e à beleza.

E, com toda a certeza, no topo destas regras, está ter um corpo magro.

A partir daí, muitas mulheres e meninas, mas também homens e meninos, tentam de tudo: seguem dietas restritivas, ficam horas e horas sem comer, se alimentam de sucos, sopas ou shakes e machucam os seus corpos em tratamentos estéticos ou fazendo esportes muito além da conta.

Mas, já pararam para pensar que o nosso corpo é um instrumento, e não o nosso “objetivo de vida”?

Eu mesma, editora de Comida do Huff, já fiz diversas dietas malucas. Me lembro que aos 14 anos fiz minha primeira dieta restritiva e, olhando hoje em dia, por que eu precisava fazer isso, se eu já era uma adolescente saudável?

A questão é que, muitas vezes, buscamos tanto o imaginário em que somos expostos que nos esquecemos do que realmente somos: meros humanos, que temos um corpo para continuar vivendo bem e por muitos anos, e não para ser um troféu.

“As pessoas estão tão preocupadas em ter um corpo diferente, e fazem o que for necessário. Elas ficam estressas e pensam o tempo todo em comida, pensamento obsessivo mesmo. Elas não conseguem pensar em outras coisas importantes, nem têm tempo e energia para isso”, disse a nutricionista Fernanda Imamura, especialista na área de transtornos alimentares.

Imamura defende a tal da alimentação intuitiva, que é uma linha da nutrição moderna que combate a ditadura da dieta e quer resgatar a conexão entre a mente e o corpo.

“A alimentação intuitiva quer empoderar a pessoa sobre suas escolhas alimentares. A pessoa se tornar uma especialista em seu próprio corpo, em vez de seguir uma dieta externa. Ela confia na sua habilidade de reconhecer a fome, suas emoções e mantém uma sintonia com ela mesma”, disse ao HuffPost Brasil.

Muito além do peso: o que perdemos com as dietas

“Você se desconecta com o seu corpo, impondo um monte de regras", diz nutricionista.
“Você se desconecta com o seu corpo, impondo um monte de regras", diz nutricionista.

Todo o ser humano nasce com um “reloginho” interno que sabe exatamente quando é hora de comer e quanto está satisfeito. Um bebê, por exemplo, ele chora quando está com fome e deixa de mamar quando está saciado.

Porém, ao longo da vida, nos forçamos a seguir regras externas (“comer a cada 3 horas, ok?”) que bagunçam esse relógio interno. Quando fazemos dieta restritiva, então, a situação pode piorar porque uma das consequências dela é o pensamento obsessivo com a... Comida!

Se você já fez dieta, provavelmente já ficou arquitetando o que comeria a cada 3 horas, ou ficou sonhando com o mousse de chocolate que teve de recusar ou, ainda, ficou só esperando pelo aclamado “dia do lixo”. Estes são pensamentos saudáveis?

“Você se desconecta com o seu corpo, impondo um monte de regras. Elas geram ansiedade em relação à comida, além de culpa e privações que podem se desenvolver como compulsões alimentares. Eu oriento a não seguir dietas”, explica Fernanda Imamura.

Por outro lado, o comer de forma intuitiva tenta resgatar esta conexão perdida.

“Você mesmo entende os próprios sinais de fome e também quando está saciado. Quando praticamos isso, desenvolvemos a autonomia alimentar. Isso é um empoderamento que vem da pessoa e não pelos sinais externos.”

‘Não se destrói o patriarcado com fome’

Além de resgatar o reloginho interno, outro pilar da alimentação intuitiva é respeitar o próprio corpo. Como escrevi anteriormente, seguir dietas repetidamente não só estraga a sua relação com a comida, mas também com o próprio corpo.

“Tentamos mostrar que não é preciso ficar fazendo de tudo para buscar um corpo diferente. Existe toda uma cobrança de padrões estéticos que fazem com que você não enxergue o corpo atual, só os defeitos”, disse Fernanda, que ressalta que este movimento não é uma “permissão” para se comer tudo a todo o momento. “Não é sobre comer tudo, é sair da mentalidade de dieta, não ter o ‘proibido’ e o ‘permitido’. É respeitar os sinais de fome e se apoiar neles ao decidir quando e como comer.”

Fernanda Imamura viralizou nas redes sociais por lançar o bordão “Não se destrói o patriarcado com fome”.

Segundo a nutricionista, a ideia por trás da frase é fazer uma relação entre dietas restritivas e o patriarcado.

“Se você passa fome, não vai ter energia para fazer coisas importantes. As mulheres que fazem dieta, normalmente, passam o dia todo pensando em comida, pensando no corpo. Você não consegue sair do pensamento em torno da comida e isso aumenta a insatisfação com o próprio corpo.”

“Nossa sociedade patriarcal coloca a mulher como objeto. A gente não é mãe, não é profissional, não é estudante, é um corpo. Você tem que ser malhada, bonita, perfeita, sem nenhuma celulite. E, no final das contas, a alimentação não era pra ser algo central. A alimentação é a forma de nutrir o corpo.”

Segundo a nutricionista, é preciso mudar a visão que temos sobre o nosso corpo.

“O corpo é um instrumento de vida, não ornamento colocado em algum lugar parado. Nos alimentamos para continuar vivendo, trabalhando, dançando e fazendo coisas que nos motivam. Não é um problema querer mudar o corpo, mas não coloque isso como o centro da sua vida. Trate ele com mais respeito, como uma forma de instrumento.”

É claro que hoje em dia, ver um corpo como “só” um corpo não é fácil. Além da pressão de toda uma sociedade que marginaliza quem é “fora do padrão” (padrão para quem?), somos bombardeados a todo o momento por uma indústria que ganha muito com as nossas frustrações.

Não à toa, as grandes “influencers” de saúde e beleza ― que ajudam a ditar este tal “padrão” a ser alcançado ― têm suas próprias marcas, dietas e métodos de emagrecimento.

“Tem uma indústria de dietas que lucra muito com isso. Lucra com a insatisfação e desinformação. Mas aos pouquinhos, vejo que podemos mudar esse cenário. Muitas pessoas já estão se dando conta que dieta não funciona. Pacientes chegam ao meu consultório dizendo que já fizeram dietas e nada ajudou e nem emagreceu. É preciso trabalhar de uma maneira diferente, com uma nutrição mais gentil”, finaliza.