COMIDA
17/03/2019 07:55 -03

Especialistas revelam o que desencadeia a gula emocional e como controlá-la

Você pode curtir aquele biscoito, mas não como terapia ou conforto.

Epoxydude via Getty Images

Para Ernest Hemingway, eram ostras. Para Nora Ephron, purê de batata. Para incontáveis personagens de TV e filmes que tomaram um pé na bunda, é sorvete. 

Os humanos usam a comida para lidar com as emoções desde sempre. Mas isso não quer dizer que seja uma boa ideia. Existe ciência por trás dessa gula emocional – os fatores que provocam desejos de comida e por que eles nos afetam.

 

Os três grandes hormônios: cortisol, dopamina e serotonina

O cortisol é o principal hormônio relacionado ao estresse, disparando o instinto de luta ou fuga. Ele também regula como nosso organismo usa carboidratos, gorduras e proteínas. Quando estamos estressados ou ansiosos, o desejo pode ser por uma dose de carboidratos. 

“Quando estamos estressados, nosso organismo está inundado em cortisol”, diz a psicóloga Susan Albers. “Isso significa desejo por comidas doces, gordurosas e salgadas.”

Também temos a dopamina, um neurotransmissor associado com as recompensas. Ela entra em ação quando surge a promessa de uma sensação boa, como comer uma das suas comidas prediletas. Essa comida de conforto gera um aumento súbito da dopamina em circulação no organismo, diz Albers, e sempre queremos repetir essa experiência.

“Existem pesquisas que mostram que a expectativa relacionada a certas comidas pode liberar dopamina”, diz Karen R. Koenig, especialista em psicologia alimentar. Isso explica por que os cientistas a chamam de “molécula da expectativa” – ela é liberada quando sabemos que vamos passar por uma experiência prazerosa. “Você nem sequer precisa comer [para gerar dopamina]”, disse Koenig ao HuffPost.

E não vamos nos esquecer da serotonina, também conhecida como “o químico da felicidade”. Em níveis baixos, ela está associada à depressão. A serotonina é hormônio e neurotransmissor e não está presente nos alimentos – mas o triptofano, aminoácido necessário para sua produção, está. Associado ao peru, o triptofano também pode ser encontrado no queijo. Carboidratos e chocolate também podem aumentar os níveis de serotonina, o que se traduz em melhora do humor.

 

Comer pode ser uma distração conveniente das emoções.

Sarah Allen, psicóloga especializada em transtornos alimentares, lista estresse e tédio como dois dos principais motivadores da gula emocional.

“Comer representa algo a fazer. Ocupa nosso tempo, é uma maneira de procrastinar”, diz Albers ao HuffPost.

Usamos as refeições para marcar o tempo – o almoço, por exemplo, é uma pausa no dia de trabalho. Associamos a comida a um alívio temporário ou até mesmo a algo empolgante. Então é natural que busquemos essas sensações quando estamos tristes ou preocupados.

“Alguns eventos que não têm significado, então nos encarregamos disso”, diz Koenig. “Comer significa: ‘Vou ficar feliz. Não vou sentir desconforto emocional. Vou passar por essa experiência maravilhosa’.”

Essa conexão também é relevante quando se trata de celebrações com comida. Conquistas profissionais, aniversários, datas importantes: tudo é motivo para comer.

 

Preferimos o desconforto conhecido da comida ao desconforto desconhecido dos sentimentos

“Existe desconforto emocional consciente e inconsciente”, diz Koenig. “Às vezes, sabemos [o que estamos sentindo], às vezes, não. Estamos inquietos ou infelizes, mas não queremos lidar com aquilo. Então vamos comer. Aí os sentimentos são conhecidos: vergonha, remorso, arrependimento. Trocamos aquele primeiro desconforto, que talvez seja pouco familiar e algo que nos dê medo, pelos sentimentos mais familiares associados à gula.” 

Comidas de conforto tendem a não ser saudáveis. Queremos bolo, pizza ou sorvete. Existem algumas explicações, diz Albers: certos alimentos trazem consigo memórias emocionais, que provavelmente têm mais a ver com a lasanha da sua avó que com um prato de salada. Além disso, nossa cultura associa certas comidas à ideia de algo especial, e é isso o que queremos para ter conforto ou nos presentear. E, é claro, uma fatia de bolo faz disparar o conteúdo de açúcar no sangue, o que traz uma sensação imediata de bem estar.

Mas, depois desses episódios, em geral a sensação boa é substituída por uma ruim – sabemos que passamos da conta ou que comemos algo não saudável. Ou talvez nos sintamos bem – porque estamos comemorando uma promoção merecida com um pedaço de torta. De um jeito ou de outro, estamos trocando nossos sentimentos originais por emoções que vieram à tona por causa da comida – da vergonha à satisfação.

 

Associamos comida de conforto com boas lembranças

“As comidas de conforto estão muito associadas a padrões emocionais”, diz Jordan D. Troisi, professor associado de psicologia da Universidade Sewanee.

Troisi trabalhou em um estudo de 2015 da State University of Buffalo, publicado na revista Appetite. O estudo envolveu um grupo de universitários, alguns dos quais lembraram quando seus relacionamentos próximos foram ameaçados ou quando eles se sentiram alienados.

Depois, aqueles que lembraram desses sentimentos de isolamento ou solidão tinham maior propensão a consumir comidas de conforto, diz Troisi. Eles também afirmaram que as comidas eram mais gostosas que os participantes do estudo que não as consumiram em situações emocionalmente negativas.

“Acreditamos que os indivíduos consomem comidas de conforto quando se sentem isolados porque isso os lembra de relacionamentos importantes que têm ou tiveram, e isso pode aliviar esse isolamento”, disse Troisi.

Pense nas lembranças boas que você tem e que envolvem comida. Talvez sua família comemorasse ocasiões indo à sorveteria, ou então seus pais fizessem seu macarrão preferido quando você teve um dia difícil. Hoje, quando você se sente ansioso ou rejeitado, essas comidas representam uma conexão instantânea com aqueles tempos.

 

O que os especialistas sugerem para controlar a gula emocional

Todos os especialistas com quem conversamos afirmam que a gula emocional não é um problema, se acontecer de vez em quando. Mas, se ela virar um hábito, ela pode causar danos físicos e emocionais. No aspecto físico, impacto está relacionado ao consumo regular de comidas pouco saudáveis. Do lado emocional, observa Albers, recorrer à comida é o mesmo que colocar “um Band-aid num braço quebrado”. 

Como separar as emoções da comida, então? Para começar, o importante é lembrar o verdadeiro propósito da comida – nos alimentar. A própria expressão “comida de conforto” pode ser parte do problema, diz Koenig.

“Não deveríamos associar conforto à comida”, diz Koenig. “Queremos que ela seja arquivada nos nossos cérebros como alimentação e, ocasionalmente, prazer. Queremos ser confortados por amigos, fazendo coisas boas, praticando atividades saudáveis, que nos ajudem a sentir menos angústia.”

“Quando você for procurar comida, pare um segundo”, recomenda Allen. “Pense: ‘Estou com fome? Preciso de comida na minha barriga ou é algo externo desencadeando essa vontade? Do que eu realmente preciso agora?’”

Tanto Albers quando Koenig dizem que temos de nos perguntar se estamos de fato com fome ou se precisamos de alguma outra coisa para lidar com o que estamos sentindo. Allen sugere escrever um diário, mesmo que seja só anotando rapidamente o que você está comendo.

A ideia é observar padrões: o que você comeu, quando e o porquê. Koenig sugere fazer uma espécie de fluxograma: Estou com fome – sim ou não? O que quero comer? Não estou com fome? O que estou sentindo? Se estiver triste, pense em maneiras construtivas de lidar com a tristeza. Se estiver com raiva ou magoado com alguém, converse com a pessoa.

Albers e Koenig também apontam o conceito de comer de forma consciente. Comer deveria ser um atividade-fim. De que vale aquele doce especial se você está tão estressado ou angustiado, que mal consegue saboreá-lo? O objetivo é sentar-se, realmente curtir a refeição, seus sabores e texturas e ter a percepção de quando estamos satisfeitos.

Uma coisa importante a lembrar é que mudanças abruptas não funcionam. Melhor fazer mudanças graduais. Também não adianta se culpar caso você ceda à tentação. É normal.

“Se você diz para si mesmo que não pode comer alguma coisa, aí é que vai ter desejo”, diz Allen. “Se você disser que não pode comer chocolate, vai querer comer chocolate.” 

Ser exigente demais consigo mesmo só aumenta o estresse, a vergonha e a culpa – o que em si alimenta o ciclo vicioso da gula emocional. Você pode tomar sorvete de vez em quando, mas faça-o de maneira consciente: desfrutando do sabor, não como terapia.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.