08/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 08/02/2019 10:06 -02

Alice Pereira, a mulher que escreve a própria história em quadrinhos

A ilustradora começou a mostrar ao mundo seus escritos e desenhos que contam, em ordem cronológica, seu processo de transição de gênero.

HuffPost Brasil
Alice Pereira é a 338ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Há três anos, quando iniciou seu processo de transição de gênero, Alice Pereira, de 45 anos, não imaginava que iria encontrar na produção de histórias em quadrinhos um alento. Mas foi o que aconteceu. Apoiada por cerca de 5 mil leitores que acompanham as “Pequenas Felicidades Trans” que ela compartilha nas redes sociais, Alice viu suas histórias ganharem o mundo e se tornar motivo de suporte para outras mulheres como ela.  

Todos os quadrinhos do projeto são autobiográficos, e seguem uma ordem cronológica de como foi seu processo. Em poucas palavras e em desenhos delicados, a artista conta como foi escolher seu nome social, revelar sua identidade de gênero à sua família e observar a reação dos amigos mais próximos. Hoje, com desejo de levar seu trabalho ao mundo, ela mantém um financiamento coletivo online para bancar a impressão da HQ.

Acho que para as pessoas trans a arte é necessária, sim, mas também para todo mundo.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Fã de HQ’s desde a infância, ela relembra que foi um longo processo até compreender que, além de ler, ela também poderia desenhá-las.

“É muito caro imprimir um livro. E antes de tentar essa via, mandei e-mail para um monte de editora e nenhuma respondeu, todas ignoraram. Então eu resolvi fazer a campanha”. Segundo ela, a ideia não é só coletar dinheiro, mas fazer com que seu trabalho chegue a mais pessoas. “Dependendo da contribuição, o apoiador ganha um livro”, conta.

Fã de HQ’s desde a infância, Alice relembra que foi um longo processo até compreender que, além de ler, ela também poderia desenhá-las. “E quando você começa, vê que tudo é uma questão de aprendizado. Eu achava que não seria possível, mas é questão de praticar como qualquer outra coisa que a gente faz”.

Eu não imaginava o quanto as pessoas trans iriam se identificar, principalmente aquelas que ainda não estão ou estavam assumidas.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Alice ressalta que pessoas trans escrevendo sobre suas experiências, vivências, dores e alegrias é fundamental para fugir de estereótipos.

E assim, passaram-se 10 anos. Antes do “Pequenas Felicidades Trans”, Alice já tinnha publicado uma outra HQ. Mas a série autobiográfica, para ela, tem um peso diferente. “Eu não imaginava o quanto as pessoas transexuais iriam se identificar. É interessante ver que tem várias pessoas que se identificam com a minha história.”

Com a leveza perceptível no vocabulário de fácil acesso e nos desenhos que abordam situações cotidianas, Alice conseguiu atingir também pessoas cis interessadas em aprender mais sobre o universo trans para não cometer erros transfóbicos: “Eu sempre tive a ideia de falar com as pessoas cis, que vinham me perguntar várias coisas, geralmente repetidas. Então comecei a escrever por meio dos quadrinhos.”

A maioria das pessoas só conhecia pessoas trans da TV, e eempre de forma distante e desumanizada.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Antes de se jogar de vez nas artes, ela tinha uma profissão protocolar, em uma empresa de petróleo.

Alice ressalta que pessoas trans escrevendo sobre suas experiências, vivências, dores e alegrias é fundamental para fugir de estereótipos. Para ela, a arte foi uma forma de explicar a todos o que é identidade de gênero.

“As nossas histórias precisam ser contadas pela gente, senão acaba ficando uma visão externa sobre a nossa vida, carregada pelos mesmos estereótipos, que às vezes é até ofensiva, distante e desumanizada. Quando você coloca aquela realidade mais próxima e a apresenta com autenticidade, como nos quadrinhos, você também atrai quem não conhece pessoas trans.”

Nossas histórias precisam ser contadas pela gente.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, trabalhando como quadrinista e musicista, Alice se sente muito mais feliz.

O caminho de Alice pela não para só entre lápis e papeis. Antes de se jogar de vez nas artes, ela tinha uma profissão protocolar, em uma empresa de petróleo, onde trabalhava em horário comercial e com roupa social, mas definitivamente não era o que fazia seu coração bater mais forte.

Hoje, ela revela que se sente muito mais feliz.

“Todo mundo precisa de arte, que é uma forma de se expressar fora das coisas burocráticas, do dia a dia; é uma forma de você voltar para a infância. Acho que para as pessoas trans a arte é necessária, sim, mas também para todo mundo. A arteterapia existe.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.