POLÍTICA
20/01/2019 16:10 -02 | Atualizado 20/01/2019 16:41 -02

Aliados defendem Flávio Bolsonaro após avanço de investigações

Deputados do PSL criticam Ministério Público e cobram investigações de parlamentares de outros partidos.

ASSOCIATED PRESS
Ministros tentam descolar governo de escândalo com senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro.

Com o avanço das investigações sobre o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), aliados partem para o contra-ataque e cobram apuração de suspeitas envolvendo partidos de oposição. Em um movimento paralelo, integrantes do Palácio do Planalto tentam descolar o episódio do governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

 Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificou depósitos suspeitos na conta do deputado estadual pelo Rio de Janeiro que somam R$ 96 mil, além de um pagamento de R$ 1 milhão de um título bancário da Caixa Econômica Federal, de acordo com o Jornal Nacional.

O novo relatório foi feito a pedido do Ministério Público do Rio, que investiga movimentação financeira atípica de assessores parlamentares da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio). Foram abertas 22 investigações contra funcionários e ex-funcionários da Alerj. A suspeita é de que eles devolviam parte dos salários.

Um dos investigados é Fabrício Queiroz, que trabalhou no gabinete de Flávio Bolsonaro. De acordo com o Coaf, ele  movimentou R$ 1,2 milhão de janeiro de 2016 a janeiro de 2017. A suspeita é de prática de lavagem de dinheiro ou “ocultação de bens, direitos e valores”. 

Deputada federal pelo PSL de São Paulo, Joice Hasselmann cobrou explicações do deputado estadual do Rio pelo PT, André Ceciliano, um dos investigados no esquema da Alerj. Segundo o Coaf, 4 funcionários do parlamentar movimentaram R$ 49,31 milhões de forma suspeita.

Apontar os parlamentares da oposição enrolados também foi a estratégia da deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP). Ela disse ter cobrado explicações de Flávio, mas criticou o silêncio de petistas sobre Ceciliano.

Irmão de Flávio, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), por sua vez, usou o Twitter para criticar o Ministério Público. Ele compartilhou vídeo em que o advogado Alexandre Pacheco diz que a investigação do esquema na Alerj têm como objetivo desgastar o governo do presidente Jair Bolsonaro.

Pacheco defende que o Supremo seja responsável pelo caso de Flávio e chama de “bárbara” a atuação do MP. “Se não há um processo judicial instaurado para requerer estas informações de quebra de sigilo bancário dele (de Flávio), esta investigação é completamente ilegal”, afirma.

O senador também acusou o MP de violar seu sigilo bancário ao solicitar informações ao Coaf. Esse foi um dos argumentos da reclamação apresentada por sua defesa no STF (Supremo Tribunal Federal) na última semana, ao pedir a suspensão das investigações.

O pedido foi aceito, em caráter liminar, pelo vice-presidente do STF, ministro Luiz Fux. O relator do caso, ministro Marco Aurélio Mello, contudo, deve reverter a decisão em fevereiro, após o fim do recesso do Judiciário.

Apesar da acusação de Flávio, a legislação brasileira permite esse tipo de troca de informação entre os órgãos. Questionamentos similares ao apresentado por ele no STF foram rejeitados pelo próprio tribunal e pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).

O MP do Rio afirmou que Flávio não consta como investigado na portaria que instaurou o procedimento de apuração criminal, mas que isso não impede que o senador eleito ainda possa se tornar alvo da investigação. O Ministério Público também nega que tenha havido quebra do sigilo e diz que as investigações das movimentações financeiras atípicas podem desdobrar-se em procedimentos para apurar a prática de atos de improbidade administrativa e procedimentos criminais.

Governo quer se descolar de Flávio Bolsonaro

Em outra frente, integrantes do Palácio do Planalto tentam descolar a imagem do governo do escândalo envolvendo o filho do presidente. O vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão, disse que é preciso aguardar o andamento das apurações. “É preciso dizer que o caso Flávio Bolsonaro não tem nada a ver com o governo”, afirmou à agência de notícias Reuters.

O militar assume interinamente a Presidência da República enquanto Jair Bolsonaro participa do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Na primeira viagem internacional do mandato presidencial, o foco será usar a reforma da Previdência como vitrine. A proposta, que ainda não foi finalizada, será enviada para o Congresso Nacional na segunda semana de fevereiro e sua aprovação é vista pelo mercado como essencial para aprovação do novo governo.

Em meio à agenda prioritária do Planalto, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, também minimizou o caso de Flávio. “O governo, do ponto de vista do presidente Bolsonaro, tem muita tranquilidade, porque isso não tem rigorosamente nada a ver com o que envolve o presidente. Ele é, mais uma vez, vítima desse processo”, disse na última sexta-feira (18).

Entre as movimentações suspeitas na conta de Queiroz, contudo, está um cheque de R$ 24 mil para Michelle Bolsonaro, primeira-dama. De acordo com o presidente Jair Bolsonaro, o valor refere-se ao pagamento de uma dívida.

Nem Fabrício Queiroz nem Flávio Bolsonaro deram explicações ao Ministério Público até o momento. O senador alegou não ser investigado no processo ao faltar a depoimento marcado no Rio no último dia 10. A defesa do ex-assessor, por sua vez, afirmou que ele não compareceu a dois depoimentos em dezembro por motivos de saúde.

Também investigadas, as filhas de Queiroz não prestaram depoimento ao MP porque acompanhavam o pai no hospital, de acordo com a defesa. Nathalia Queiroz, apesar de ser personal trainer no Rio, foi alocada no gabinete de Jair Bolsonaro, durante seu mandato como deputado federal.