MULHERES
19/01/2019 02:00 -02

Conservadores estão obcecados por Alexandria Ocasio-Cortez. A ciência explica o porquê

"Ela não desafia somente o patriarcado – ela desafia as hierarquias de raça, classe e gênero de uma só vez."

Win McNamee via Getty Images
Deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez é criticada por conservadores nos Estados Unidos.

A bizarra escalada de obsessão com Alexandria Ocasio-Cortez atingiu novos níveis quando o The Daily Caller, um tabloide norte-americano, publicou uma imagem de um falso “revenge porn” envolvendo a deputada democrata.

“Eis a foto que alguns descrevem como uma selfie pelada de Alexandria Ocasio-Cortez”, dizia a manchete original, que depois foi alterada e alvo de um pedido de desculpas do site no Twitter. Para que fique registrado, a imagem não é de Ocasio-Cortez, apesar do que “alguns” afirmaram.

Ocasio-Cortez é uma deputada de 29 anos, socialista, e derrotou o poderoso e branco Joe Crowley nas primárias do Partido Democrata, em junho de 2018. Desde então, especialmente homens republicanos fizeram dela uma fixação. O conservador Ed Scarry postou uma foto questionando se o terninho dela na imagem condizia com uma “mulher que passa por dificuldades”.

Sites conservadores descobriram que ela – como muitas outras pessoas de nome “Alexander”, “Alexandra” ou variações – tinha o apelido de “Sandy” nos tempos de escola. Um autoproclamado “pai cristão e orgulhoso” publicou no Twitter um vídeo de Cortez dançando na época da faculdade como se isso fosse uma revelação que fosse atrapalhar a carreira da deputada. Um estrategista do Partido Republicano se referiu a ela como “a menininha” na Fox News.

(Eis a comunista sabe-tudo favorita dos Estados Unidos se comportando como a idiota que é...

...Vídeo de “Sandy” Ocasio-Cortez dançando na escola)

A explicação óbvia é que os homens literalmente nunca viram uma mulher de menos de 30 anos nos corredores do Congresso. Ela é bonita, fotogênica e hábil nas redes sociais. Ela dança. Os homens conservadores ficam confusos com a atração exercida por essa estrela ascendente do Partido Democrata, e ao mesmo tempo odeiam tudo o que ela representa.

Mas isso não explica por completo o fervor que os conservadores dedicam a cada palavra que sai da boca da deputada, esperando um escorregão e revirando seu passado em busca de sinais de que ela é uma pessoa inautêntica. É um comportamento quase doentio – que poderíamos chamar de “Síndrome de Disfunção AOC”. Na realidade, alguns especialistas afirmam que os homens conservadores são obcecados por Ocasio-Cortez porque se sentem ameaçados por ela.

Os conservadores tendem a responder ao medo com mais intensidade que os políticos liberais, afirma Bobby Azarian, neurocientista que se especializa em ansiedade e estuda o comportamento dos políticos. As pesquisas de Azarian indicam que os cérebros dos conservadores tendem a mostrar os mesmos tipos de viés de atenção que os cérebros de quem sofre de ansiedade. 

“A principal diferença cognitiva é que os conservadores são mais sensíveis a ameaças”, afirma em entrevista ao HuffPost US. “Seus medos às vezes são exagerados. Acho que eles têm medo dela.”

O poder de Ocasio-Cortez é uma ameaça direta aos conservadores porque a própria existência dela como mulher jovem, latina e trabalhadora ameaça virar de cabeça para baixo a ordem social que mantém os homens brancos no controle há séculos (80% dos deputados republicanos são homens brancos com mais de 50 anos, e a maioria dos eleitores do partido é composta por homens brancos). Além disso, ela usa sua posição e sua plataforma para desafiar essa ordem – uma tentativa de separar o dinheiro da política, aumentar impostos para os super ricos e tornar as regras do jogo mais igualitárias.

“Ela não desafia somente o patriarcado – ela desafia as hierarquias de raça, classe e gênero de uma só vez, bem como o sistema capitalista, que exige que os deputados sejam ricos antes de chegar lá”, diz Caroline Heldman, professora de ciência política do Occidental College. “Isso é incrivelmente ameaçador.”

De certo modo, Ocasio-Cortez é a oponente mais formidável do Partido Democrata a se levantar contra Trump. Ela tem ainda mais talento para as redes sociais que o twitteiro-chefe do país; como ele, a deputada é anti-establishment; ela desrespeita todas as regras do comportamento político; e ela tem inegável apelo emocional. 

Ela não desafia somente o patriarcado – ela desafia as hierarquias de raça, classe e gênero de uma só vez.

“Ela chama atenção e desperta emoções em nível visceral”, diz Azarian. “Ela combina vários fatores que parecem fazer dela uma personagem viral. E acho que Trump também era assim.”

É por isso que os conservadores querem minar a influência dela. E a maneira mais garantida de minar o poder de uma mulher é sexualizá-la, transformá-la num objeto. Um estudo de 2013 do Women’s Media Center indica que meramente discutir a aparência de uma candidata tem efeito negativo sobre o apoio que ela recebe dos eleitores.

“Quando você transforma alguém num objeto sexual, você se coloca numa posição de autoridade sobre essa pessoa. É por isso que assédio sexual é considerado uma forma de discriminação de gênero no ambiente de trabalho”, diz Heldman. “Elas são um objeto que existe para você, e você valida o valor dessas pessoas.”

Ou, como diz Jess McIntosh, ex-integrante da campanha de Hillary Clinton: “Definir o valor de uma mulher com base no desejo de transar com ela é o truque mais antigo do patriarcado. Qualquer que seja a resposta, ela será diminuída.”

O problema para esses homens é que Ocasio-Cortez não parece interessada no que eles pensam a respeito dela. Ela não quer  atenção para nada que não sejam suas ideias políticas e sua ambição, mesmo que os americanos ainda pareçam não gostar de mulheres que busquem o poder. As estratégias típicas que os homens usam para desvalorizar as mulheres ― “sexualizar, menosprezar, controlar, provocar, criticar, interromper, psicopatologizar, humilhar, abusar”, de acordo com um psicólogo ― parecem não ter nenhum efeito com Ocasio-Cortez.

Quando você transforma alguém num objeto sexual, você se coloca numa posição de autoridade sobre essa pessoa.

“Alexandria representa um desafio, porque os homens ou homens conservadores em geral que são incentivados a transformar mulheres em objetos sentem atração por ela, mas ela também é ‘incontrolável’, pois ela não existe para eles”, diz Heldman. “Ela é uma mulher que não só tem agora poder formal, mas muito poder informal. E ela não dá a mínima para o que eles pensam dela. Eu acho que é uma situação desconcertante para homens que podem estar acostumados com mulheres atraentes que querem validação.”

Esse tipo de incapacidade de lidar com uma mulher como Ocasio-Cortez é, em muitos aspectos, emblemático da crise mais ampla enfrentada pelo Partido Republicano. O partido está retrocedendo em termos de diversidade de gênero no Congresso, enquanto os democratas acrescentam mais mulheres e pessoas de cor em sua bancada. Na década de 1990, as mulheres estavam igualmente distribuídas entre os dois partidos no Congresso; hoje, há 13 mulheres republicanas e 89 mulheres democratas. Os republicanos só tiveram uma mulher negra na Câmara dos Deputados, Mia Love, de Utah, e ela acabou de perder sua candidatura à reeleição.

Essa é uma dinâmica que se auto reforça, diz Laurel Elder, professora de política e chefe do programa de estudos de gênero do Hartwick College.

“A forma como eles falaram sobre algumas das novas mulheres no 116º Congresso, e a maneira como tentaram menosprezar ou zombar [de Ocasio-Cortez], só faz elas sentirem algo como como ‘este partido não recebe bem as mulheres’”, disse Elder. “‘Não me sentiria à vontade lançando minha candidatura [por este partido]’. Agora a dinâmica tem vida própria.”

O foco obsessivo em Ocasio-Cortez e seu passado pode não só tirar a motivação das mulheres republicanas a concorrer a cargos eletivos ― ele pode intimidar qualquer mulher que cresceu na era das redes sociais e está interessada em política, mas não quer ver sua vida adolescente sendo destrinchada nas primeiras páginas dos jornais.

Por enquanto, porém, Ocasio-Cortez provou ser capaz de se esquivar dos ataques, simplesmente levantando um espelho para os homens que estão tendo ataques de ansiedade ― enquanto a influência da deputada segue crescendo.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.