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09/08/2019 01:00 -03 | Atualizado 09/08/2019 13:54 -03

'Não estou aqui para falar o que a família Bolsonaro quer ouvir', diz Alexandre Frota

Ao HuffPost, deputado do PSL diz que Eduardo Bolsonaro se autoproclamou presidente do partido e embaixador, critica 'governo paralelo' de Olavo de Carvalho e elogia João Doria.

SIPA USA/PA Images
Alexandre Frota ao HuffPost: "Radicalizar, aquela direita xiita, extrema direita, isso comigo não funciona".

Ameaçado de ser expulso do partido por criticar o governo, o deputado Alexandre Frota (PSL-SP) coloca essa questão na conta de Jair Bolsonaro, pelo qual trabalhou “quando ele ainda era apenas uma ideia ou era motivo de chacota”. Apesar disso, o parlamentar diz não se arrepender do apoio ao presidente e se diz grato a ele. Porém, destaca: “Não estou aqui para falar o que a família Bolsonaro quer ouvir, o que o presidente quer ouvir, ou o que o Eduardo [Bolsonaro] quer ouvir. Estou aqui para falar o que eu acredito, os pontos que eu acho que são importantes.”

O parlamentar concedeu entrevista ao HuffPost nesta quinta-feira (8) no Salão Verde da Câmara, principal acesso ao plenário da Casa. Eleito com 155 mil votos, foi o único deputado presente em sessão a se abster de votar na reforma da Previdência, pauta cuja coordenação assumiu na comissão especial da Câmara. Na ocasião, disse querer “dar um recado ao governo”. Ao HuffPost, Frota afirmou que tem entendido a dinâmica do Congresso e, com isso, consegue se aproximar de nomes importantes, como o do presidente da Câmara. 

“Tenho contato direto com o Rodrigo Maia (DEM-RJ), que me levou para um grupo seleto de líderes, ainda que eu não seja líder do PSL. Como vice-líder, fui prestigiado pelo Rodrigo [Maia], pela conduta minha aqui dentro, pelo trabalho que eu faço. Isso para mim é de grande valor”, comemorou. 

Seis meses após tomar posse em seu primeiro mandato, o deputado se diz mais “maduro” e afirma gostar da atividade parlamentar que tanto criticou em inúmeras manifestações das quais participou.  

“Eu tenho me adaptado bem aqui no sistema, no mecanismo do Congresso... Tenho me mantido nas minhas posições... Continuo antipetista. Não gosto do PCdoB, não gosto do PSol, mas esses parlamentares não são meus inimigos, mas meus adversários. E alguns acho até que têm razão em algumas coisas que falam. E isso não é questão de mudar de lado. É questão de equilíbrio, amadurecimento, de você não ser radical”, destacou.

Na iminência de sair do PSL, legendas têm lhe aberto portas. E nessa toada, o governador de São Paulo, João Doria, nome mais forte do PSDB atualmente, é um dos interessados. Para Doria, sobram elogios de Frota, em contraste com as declarações sobre o presidente Bolsonaro. 

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: O que está achando de seus colegas parlamentares? O Congresso é tão feio quanto se pintava nas manifestações da qual o senhor participava — contra o PT e a corrupção?

Alexandre Frota: O Congresso é um jogo político muito grande. Tem pessoas aqui dentro que eu gosto, e pessoas que eu não gosto e continuo não gostando. Congresso funciona muito sob pressão e sob acordos também. Continuo sendo antipetista. Não mudou nada da minha vinda das ruas para cá. E eu tenho me adaptado bem aqui no sistema, no mecanismo do Congresso. Tenho me adaptado muito rápido. Me dou muito bem com a maioria dos parlamentares do PSL. E tenho feito um trabalho que sei que tem sido reconhecido, bom. Tenho me dedicado bastante às mais diversas questões, mais diversos temas e é isso que interessa. Vim aqui para trabalhar, não para ficar fazendo amigos ou colegas. 

O senhor entrou aqui como uma personalidade. Já se considera um político?

Eu me considero uma personalidade que tem trabalhado bastante aqui dentro. Mas vou aprendendo aos poucos a lidar com tudo isso aqui, que não é fácil. Tenho gostado bastante. Tenho feito trabalho bem preciso, estudado bastante, aproveitado o que a equipe econômica do governo, por exemplo, agora na Previdência me deu, com vários assessores técnicos. Tirei muitas dúvidas, fiquei conhecendo muitas coisas que eu não conhecia. Aprendi muito. Tenho contato direto com o Rodrigo Maia, que me levou para um grupo seleto de líderes, ainda que eu não seja líder do PSL. Como vice-líder, fui prestigiado pelo Rodrigo, pela conduta minha aqui dentro, pelo trabalho que eu faço. Isso para mim é de grande valor. Estou bem feliz com o trabalho que eu faço. 

Como o senhor conseguiu em tão pouco tempo construir essa relação com nomes de prestígio e relevância na Casa, como o presidente Rodrigo Maia? 

Acho que a dedicação, determinação, entender meu espaço, entender o momento que a Câmara vive, o momento que o Brasil vive, buscar me aperfeiçoar, entender das coisas, para poder transitar aqui dentro. Foi isso que eu fiz e isso gerou esse resultado bom, em que as pessoas passaram a me ver de uma maneira diferente, e acreditando no que eu vinha propondo, nas ideias que eu tive. 

Ontem [quarta, dia 7 de agosto] nós encerramos uma etapa muito boa, que foi a Previdência, na qual eu trabalhei, vamos dizer assim, 26 horas por dia. Um tema difícil, pauta polêmica, impopular. Mas que o povo brasileiro entendeu a importância dela. Tanto é que quase não vimos manifestações, quebradeira, gritaria. 

Valter Campanato/Agência Brasil
Frota diz que trabalhou "26 horas por dia" em prol da Previdência.

Apesar do tamanho que o senhor tomou aqui na Câmara, está sofrendo uma represália no PSL. Como começou sua pendenga interna no partido?

Isso é normal. É o jogo da política. Você bate, apanha, cai, levanta. Aqui dentro é assim. A retaliação que venho sofrendo é mais por parte do presidente [Jair Bolsonaro] e não por parte do próprio PSL. O PSL… Eu não tenho absolutamente nada contra o PSL. Muito pelo contrário, gosto do partido. Tenho feito, como falei, um trabalho importante dentro do segmento que o PSL precisa. Trabalho aqui dentro com os deputados de maneira bem estratégica, para cada pauta, para cada assunto. Agora… Isso faz parte do jogo e eu estou preparado para tudo isso que estou passando. 

O senhor foi um grande apoiador do presidente na campanha e antes também. Por que o senhor acha que ele está virando as costas para o senhor agora? 

Não é virando as costas. Acho que o Jair muitas vezes se precipita em algumas decisões, em falar quando poderia se manter mais restrito ao papel dele de presidente. Acho que ele teve alguns momentos nesta caminhada dele dos sete meses [de governo] em que ele teve que voltar atrás de coisas que ele falou, se desculpar, assumir coisas que ele falou e se arrependeu, ou falou e não poderia ter falado. Fora isso, existem algumas promessas de campanha que ainda não foram realizadas. 

Apesar de que a gente está vendo a economia começando a se mexer. O dólar hoje [quinta, dia 8 de agosto] subiu, a Bolsa mostrou, abraçou o trabalho que fizemos da Previdência, conseguimos aprovar a Previdência, vem aí a tributária. O governo não só erra. Ele tem também feito o papel dele. Você não pode consertar o país diante de toda uma destruição que foi feita nos últimos 25 anos, incluindo os 13 anos de PT. 

Eu discordo do governo paralelo que é o governo do Olavo de Carvalho, que exerce uma pressão em cima do nosso presidente, que não deveria exercer.

A questão da Cultura. Ele [presidente] transformou o Ministério da Cultura numa Secretaria. E precisamos entender qual a dimensão, qual o tamanho que ele quer dar à cultura brasileira. O Brasil é um celeiro cultural. A gente tem cultura de norte à sul do País. É importante que o governo esteja alinhado com a nossa cultura brasileira. 

Eu discordo do governo paralelo que é o governo do Olavo de Carvalho, que exerce uma pressão em cima do nosso presidente, que não deveria exercer, mas exerce. Discordo da indicação do nome do Eduardo Bolsonaro para a embaixada [dos Estados Unidos]. Acho que tinham outras pessoas que estariam mais preparadas para esse momento. 

Acho que o governo está caminhando, mas acho que são pontos que precisam, de alguma forma, melhorar. A gente tem ajudado. Mas muitas vezes, ele [presidente] não ajuda o Congresso, ele não nos ajuda. Ele pouco fez nas articulações para a Previdência. Tem algumas coisas que a gente discorda. Mas nada que me deixe que eu pense que não possa se resolver no futuro. 

Quando começou a esquentar o clima entre o senhor e Eduardo Bolsonaro? Foi durante a disputa interna do PSL de São Paulo?

Não tem “esquentar clima”. Sou um cara autêntico e falo a verdade, falo o que penso. Nem por isso estou agredindo o Eduardo. O Eduardo se autoproclamou presidente do PSL. Eu também não concordo com isso. Existe uma série de regras dentro do estatuto do PSL, regras que não foram cumpridas por ele. Mas ele se autointitulou o presidente do PSL e, 15 dias depois, embaixador do Brasil nos Estados Unidos, ameaçando deixar a presidência do PSL que ele tanto buscou nesses últimos dias. Então não tem clima quente. Tem a verdade. 

Não estou aqui para falar o que a família Bolsonaro quer ouvir, o que o presidente quer ouvir, ou o que o Eduardo quer ouvir. Estou aqui para falar o que eu acredito, os pontos que eu acho que são importantes. Quando eles acertam eu elogio, quando eles erram, eu critico. Não é questão de errar muito ou pouco. Quando erram, eu critico. 

Por que comprou a briga pela indicação de Eduardo pra embaixador dos EUA?

Eu não comprei uma briga. Eu tenho opinião. E a gente está aqui para isso. O Parlamento é para você parlar, para você falar, para poder discutir. Não tem briga, não tem perseguição, tem opinião. Agora, se não gostam da minha opinião, é problema de quem não gosta. 

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Frota se absteve no 2º turno da votação da reforma da Previdência para "mandar recado" ao governo.

Curiosamente, o senhor que já se desentendeu com a deputada Joice Hasselmann, líder do governo, e hoje apoia o nome dela pra prefeitura de São Paulo, enquanto o deputado Eduardo Bolsonaro e o senador Major Olímpio articulam o nome do apresentador Datena. O que mudou em sua relação com a Joice?

A Joice hoje é minha grande amiga. Nós tivemos um problema no passado. Problema que não foi nem gerado entre nós dois, mas sim numa crítica que eu havia feito à Raquel Sheherazade. E a Joice naquele momento buscou o lado da Raquel e depois ela também entendeu que a Raquel estava errada nesse sentido. Agora, hoje ela é minha grande amiga, somos aliados aqui dentro e ela, com certeza, é a pessoa que eu gostaria que fosse a prefeita de São Paulo. Ela reúne todas as condições para isso. 

O Eduardo e o Major Olímpio querem o Datena, que é meu amigo há 30 anos, eu não tenho nada contra ele, muito pelo contrário. O PSL está de portas abertas para o Datena. A minha crítica foi na seguinte questão: quando o Datena, nas duas últimas eleições, se lançou a algum cargo, em cima da hora, desistiu. Deu prioridade para a carreira dele como apresentador. O que eu falei é que ele não fizesse isso caso viesse para o PSL. Vendo pessoas de grande repercussão como Datena e Joice, acho que tinha que fazer uma prévia dentro do partido para entender quem seria realmente o candidato. 

O senhor disse que, frente a essas desavenças com o PSL, tem sido sondado por vários partidos. Um deles é o PSDB. Com o PSDB e o governador João Doria o senhor tem articulado também sobre uma possível candidatura da Joice?

Não. Sobre candidatura da Joice, não. Converso sobre as minhas questões e questões que interessam a ele [Doria] a meu respeito. Da Joice não converso absolutamente nada. Quem tem que conversar é a Joice. 

E sim. Recebi vários convites de outros partidos. Fiquei honrado com isso. Me sinto prestigiado com essa questão de diversos partidos. Partidos importantes me convidaram. Mas hoje estou no PSL e não estou brigado com o PSL. É isso que as pessoas precisam entender. As minhas divergências não são com o PSL e sim com o governo Bolsonaro. 

O Eduardo se autoproclamou presidente do PSL e, 15 dias depois, embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Não concordo com isso.

O senhor acredita que Doria está fazendo o dever de casa melhor que o presidente Bolsonaro mirando 2022?

O Doria é um cara extremamente inteligente. É um grande gestor. Um grande empresário. Um cara que atinge sempre os objetivos dele com muito trabalho e muita dedicação. Gosto muito do Doria. Já falei que uma chapa Doria e ACM Neto seria uma chapa muito forte. O Bolsonaro havia dito para mim que não iria partir para a reeleição. Agora vejo que ele está mudando de ideia e é um direito dele. 

Acho que o Doria é um grande nome que pode vir a fazer um grande trabalho. Fez um bom trabalho na Prefeitura de São Paulo, apesar de ter saído precocemente. Está fazendo uma excelente gestão no estado de São Paulo, todos os dias entregando coisas, cumprindo as promessas de campanha... Faz de São Paulo uma cidade mais segura, mais respeitada, mais visitada turisticamente, grandes eventos, como a Parada Gay, que reuniu três milhões de pessoas. É uma cidade em que a gente encontra uma certa ebulição cultural. Eu gosto muito do trabalho dele. 

Alguns parlamentares dizem que o senhor foi uma surpresa. Marcelo Freixo (PSol-RJ), por exemplo, diz que dialoga bem com o senhor. Pelo Twitter até as eleições o senhor parecia muito fechado e até rígido em suas posições. O que mudou nestes sete meses?

Tenho me mantido nas minhas posições, tenho atacado quando tenho que atacar... Atualmente a gente se defende mais do que ataca devido à quantidade de problemas que vêm do Palácio para cá, mas não mudou em nada. Continuo antipetista. Não gosto do PCdoB, não gosto do PSol, mas esses parlamentares não são meus inimigos, mas meus adversários. E alguns, acho até que eles têm razão em algumas coisas que eles falam. E isso não é questão de mudar de lado. É questão de equilíbrio, amadurecimento, de você não ser radical. Acho que, do centro para direita é uma boa opção. Radicalizar, aquela direita xiita, extrema direita, isso comigo não funciona. 

O senhor então amadureceu e deixou de ser radical? 

Amadureci muito nesse período. Ainda sou radical. Entendi muitas coisas e acho que a vida é feita sim de escolhas e amadurecimento. Todo dia você vai aprendendo uma coisa. 

Com tudo o que o senhor tem visto e criticado nestes meses de governo, inclusive ataques de Jair Bolsonaro, se arrepende de ter apoiado o presidente?

Não, não me arrependo de ter apoiado o Bolsonaro. Aliás eu fui uma das primeiras pessoas a acreditar no Bolsonaro e trabalhar muito pelo Bolsonaro quando ele ainda era apenas uma ideia ou era motivo de chacota, as pessoas não acreditavam nele... Eu estava lá embaixo gritando por ele, brigando por ele, ajudando. Sei do meu papel importante de ter ajudado na eleição do Bolsonaro, assim como ele me ajudou também na minha eleição. Sou grato a tudo o que o Bolsonaro fez por mim durante a minha eleição. 

Não faço parte da turma que quer a destruição do governo dele. Não quero que ele tropece, não quero que ele tenha problemas. Muito pelo contrário, quero que ele acerte. Porque foi o governo que eu ajudei a eleger. Agora, nem por isso eu sou obrigado a concordar com tudo que vem de lá pra cá.