ENTRETENIMENTO
18/02/2020 17:33 -03 | Atualizado 18/02/2020 18:12 -03

Alessandra Negrini colocou seu 'corpo e voz a serviço de uma causa', diz organização indígena

Em nota, APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) defende fantasia usada pela atriz com elementos da cultura dos povos originários do Brasil.

ASSOCIATED PRESS
Alessandra Negrini, a rainha do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, no pré-Carnaval em São Paulo.

Alessandra Negrini, 49 anos, publicou uma nota divulgada pela APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) em suas redes sociais, após ser acusada de apropriação cultural. Rainha do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, em São Paulo, Negrini usou fantasia com referências indígenas no pré-Carnaval.

A APIB afirma que a atriz “colocou seu corpo e sua voz a serviço de uma das causas mais urgentes. Fez uso de uma pintura feita por um artista indígena para visibilizar o nosso movimento. Sua construção foi cuidadosa e permanentemente dialógica, compreendendo que a luta indígena é coletiva”.

Durante a festa, ela usou um body preto, um cocar verde e vermelho e pinturas corporais feitas pelos próprios indígenas que participaram do bloco. Entre eles estava a ativista indígenaSônia Guajajara, presidente da APIB e ex-candidata à vice-presidência da República nas eleições de 2018 pelo PSol.

A fantasia gerou controvérsia nas redes sociais. Alguns comentários elogiavam a escolha não só pela estética, mas por chamar atenção para a causa indígena; já outros criticavam a atriz, acusando-a de apropriação cultural - quando símbolos de minorias são usados por grupos dominantes. “Agora fantasia de indígena pode?”, questionaram alguns comentaristas no Twitter.

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A atriz brasileira Alessandra Negrini posa com foliões duranteo bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, em 16 de fevereiro. 

Atriz também foi defendida por Guajajara. “Muita gente usa acessórios indígenas como fantasia. Isso a gente não concorda. Mas quando a pessoa usa de uma forma consciente, como um manifesto para amplificar as vozes indígenas, então tudo bem, é compreensível”, disse à Folha de S. Paulo.

Segundo ela, Alessandra Negrini havia combinado o protesto com o grupo de indígenas que participou do bloco. No domingo, questionada pelo jornal, a atriz afirmou que “a luta indígena é de todos nós”.

“Hoje para mim a questão indígena é a central desse país. Ela envolve não somente a preservação da cultura deles como a preservação das nossas matas. A luta indígena é de todos nós e por isso eu tive a ousadia de me vestir assim”, disse.

Leia a nota da APIB na íntegra:

Estamos vivendo a maior ofensiva em séculos de nossa história. Essa semana está tramitando no Congresso uma MP que tenta regularizar a grilagem, o PL da Devastação quer impor a mineração e a exploração das terras indígenas, um evangélico missionário está em um posto estratégico da FUNAI e pode provocar a extinção de povos não contactados. São muitos os ataques. Não nos esqueçamos, o momento é grave e dramático, querem nos dizimar!

 

Por isso, causa-nos indignação que uma aliada seja atacada por se juntar a nós em um protesto. Alessandra Negrini colocou seu corpo e sua voz a serviço de uma das causas mais urgentes. Fez uso de uma pintura feita por um artista indígena para visibilizar o nosso movimento. Sua construção foi cuidadosa e permanentemente dialógica, compreendendo que a luta indígena é coletiva.

 

É preciso que façamos a discussão sobre apropriação cultural com responsabilidade, diferenciando quem quer se apropriar de fato das nossas culturas, ou ridiculariza-las, daqueles que colocam seu legado artístico e político à disposição da luta.

 

Alessandra Negrini é ativista, além de artista, e faz parte do Movimento 342 Artes, que muito vem contribuindo com o movimento indígena. Esteve conosco em momentos fundamentais. Portanto, ela conta com o nosso respeito e agradecimento. E assim será, sempre quem estiver ao nosso lado.