MULHERES
04/05/2020 18:00 -03

Gerar fora do ventre é uma conexão que tem origem além do nosso entendimento

O 4º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é da comerciária Alessandra Chiarella, que realizou o sonho de ter uma família ao adotar 2 irmãos.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Alessandra Chiarella e os filhos Lisa e Thon, quando eram menores.

Depois de 5 fertilizações in vitro e uma gravidez tubária, eu tinha a certeza de que essa história de ser mãe não seria pra mim. Puro e feliz engano! Foram episódios de muita ansiedade e tristeza que, hoje eu sei, eram apenas caminhos para dar tempo de nos encontrarmos. Vivi uma gestação de 2 anos para então entrar em trabalho de parto. Foi um casal de irmãos, gêmeos, sem ser — exatamente como eu sonhava.

Após as fertilizações, eu e meu marido começamos a procurar informação e conhecemos um grupo de apoio à adoção e passamos a participar de algumas reuniões, conhecer mais sobre o assunto e decidimos que era o caminho para a gente. Eu não tinha necessidade alguma de embalar um bebê; nós queríamos mesmo uma família.

E foi numa dessas reuniões que uma mulher contou que entrou no processo de adoção querendo um bebê, mas acabou mudando de ideia... Enquanto ela conversava com o marido, com quem estava havia 5 anos, essa mulher propôs: “por que não adotar uma criança mais velha, que seria da idade dos filhos que tentaramos ter naturalmente?”. Eu olhei pro meu marido, e a gente pensou nisso também. 

E por que não irmãos? Na época pensamos que devia ser um processo tão difícil para a criança ir para uma casa desconhecida, com adultos que nunca viu... Então, ter um irmão do lado talvez fosse mais fácil. E assim começamos: demos entrada nos papéis e explicamos que desejávamos irmãos. Como queríamos a partir de 3 anos e não bebês — que é o que muita gente busca na adoção —, nosso processo foi mais rápido e em 2 anos recebemos um contato falando deles.

Os 2 tinham sido destituídos da família e estavam em abrigo fazia um ano. Foi uma história bastante emocionante porque os pais deles eram usuários de drogas e perderam a guarda, mas a avó paterna conseguiu e quis ficar com eles. Mas, após um dia com os pequenos, ela teve um infarto e morreu. Assim que os 2 voltaram para o abrigo, e a gente se encontrou.

Lisa tinha 5 anos e Thon, 3. Foi num intensivão de uma semana em que me tornei mãe e quando nossa família dobrou de tamanho. Não sabia nem por onde começar. Em uma semana entrei em trabalho de parto, tive contrações, pari, fiz enxoval, montei quarto, e tive a maior emoção da minha vida. E meu marido? Ah, eu quase enlouqueci o Marcel...

Quando a gente foi buscá-los no abrigo, eles não conheciam nada. Não sabiam o que era farol (sinal de trânsito), prédio, chantilly, McDonald’s. Fomos aos poucos mostrando as coisas, o que era família. A vinda deles juntos foi muito boa, os 2 se ajudam muito, estão muito juntos... E, para a gente, a grande dificuldade foi acordar de um dia para o outro com essa notícia de que teríamos 2 filhos nos esperando. 

Divulgação/Arquivo Pessoal
A família toda: Alessandra, Thon, Lisa e Marcel.

Durante toda essa loucura, parece que criei um reservatório de força, paciência e principalmente amor. Não sei de onde vem tanto amor, mas ele está aqui, e tem a força de se reinventar a cada desafio, que não são poucos. Os 2 fazem terapia, a gente insiste muito nisso, sabemos que eles tem uma história que não vai ser apagada e temos que ajudar a tratar essa história.

Houve muita briga, eles tiveram vontade de ir embora, e a gente mostrou qual seria o lado de voltar para o abrigo. Nossas famílias os acolheram demais... É um amor que não sabemos de onde vem; deve ser de outras vidas mesmo!

A gente continua com algumas dificuldades e resistências. Hoje a Lisa tem 13 anos e o Thon, 11. A chegada da adolescência é algo desafiador, eles manifestam vontade de conhecer a família de sangue. A gente deixa a possibilidade em aberto e diz que, se eles quiserem, vamos levá-los para conhecer — que é um direito deles. 

E é na figura materna que se aloja o maior desafio da adoção. Eu sou para eles a figura que circula entre os extremos. Um amor enorme e uma resistência maior ainda ao tentarem não ceder aos encantos de uma mãe que foge da figura que eles conheceram. O Thon tem até hoje uma resistência ao amor, a se envolver com alguém. Um dia, ele me pediu para não amá-lo tanto. Então, é um sentimento delicado para ele. 

A gente está juntos há 8 anos. Eles estão bem, na escola. A Lisa repetiu de série no ano passado, percebemos uma dificuldade de atenção, a paixão chegou... Coisas normais que qualquer família vive independentemente de serem de sangue ou não.

Isso é algo que a gente sempre resgata porque toda dificuldade a gente tende a relacionar ao processo de adoção... Mas aí, quando a gente conversa com outras pessoas, a gente vê que não, que são dificuldade do dia a dia de uma família. Que é o que somos.

Sou mãe e ser mãe sem ter gerado no ventre, ser amada e amar sem obrigação, é uma conexão que tem origem além do nosso entendimento. Trago essas certezas como propósito. Estou aqui por eles e para eles... Sempre.

Alessandra Chiarella é a 4ª mulher do projeto Prazer, Sou Mãe. Ela tem 49 anos e é comerciária. Há 8 anos, pelo menos nesta vida, é mãe de Lisa e Thon.