NOTÍCIAS
16/01/2020 02:00 -03 | Atualizado 16/01/2020 08:43 -03

'Atacar a cultura é atacar a identidade nacional', diz secretário de Cultura de SP

À frente do festival "Verão Sem Censura", que começa nesta sexta, Alê Youssef defende que a maior cidade do país “se posicione na luta pela liberdade de expressão”.

Nesta sexta-feira (17), tem início em São Paulo o Festival “Verão Sem Censura”, que traz produções culturais que sofreram ofensivas diretas ou indiretas do governo federal no último ano. À frente dele, o secretário de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, Alê Youssef defende que a maior cidade do Brasil “se posicione na luta pela democracia e pela liberdade de expressão”. 

“Cultura é identidade. Atacar a cultura é atacar a identidade nacional. Parece que o governo federal tem um plano de ataque contínuo à ela”, afirmou Youssef, 45, em entrevista ao HuffPost Brasil. 

Segundo o secretário, os ataques ocorrem “seja quando João Gilberto morre e ninguém fala nada, seja criticando o Carnaval de rua, seja mudando e extinguindo o Ministério da Cultura, seja criticando o cinema nacional”. “Isso é acabar com a identidade. Assim como há um desdém em relação à Amazônia, às comunidades indígenas, quilombolas, tudo isso faz parte da identidade nacional”, afirma.

Youssef, que já era conhecido antes de assumir o posto, há um ano, por ser um dos fundadores do bloco “Acadêmicos do Baixo Augusta”, pioneiro no Carnaval paulistano, substituiu André Sturm, que chefiava a secretaria desde 2017 e foi demitido pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) após embates com a classe artística e ser investigado por improbidade administrativa. Em dezembro de 2019, Sturm foi nomeado como novo secretário do Audiovisual do governo Bolsonaro

No último ano, o cenário cultural já existente e relevante em São Paulo ganhou ainda mais visibilidade, o que fez com que a capital fosse vista por artistas e também por parte do público como um “respiro” frente às ofensivas do primeiro ano da gestão Bolsonaro.

Youssef diz que a ideia original do festival não era ser um antagonismo direto às ações de representantes da Cultura no governo federal, mas afirma reconhecer que ele hoje possa ser entendido como tal. “Entendo que, diante do fato de tantas censuras e tantas polêmicas, ele possa servir como um contraponto de conduta ao governo federal nesse sentido.”

Frâncio de Holanda/Divulgação/Secretaria Municipal de Cultura
Alê Youssef, secretário municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo.

Questionado, Youssef não quis comentar o que mudou entre sua gestão e a de Sturm, e destacou que o trabalho na secretaria é feito por um time “competente e robusto” de pessoas que trabalham com políticas culturais há anos. “Nós somos todos do ‘Partido da Cultura’, ou seja, estamos aqui em defesa da cultura. E temos feito isso em diversas áreas, com diversas ações.”

Ele, contudo, aponta o “Programa São Paulo Capital da Cultura” como ponto alto de seu primeiro ano à frente da pasta.

Com prazo de ser colocado em prática entre 2019 e 2020, o programa conta com 10 diretrizes como valorização da memória, ocupação cultural da cidade, fomentos às produções artísticas e pertencimento dos equipamentos públicos. 

“Além da difusão literária, fortalecimento do audiovisual, reencontro com os valores modernistas e o reconhecimento da potência cultural da cidade pelos fóruns internacionais”, diz comunicado da secretaria de Cultura e Economia Criativa da cidade.

Governo federal diz ‘não’, secretaria de cultura diz ‘sim’

Priscila Prade/Divulgacão
Cena da peça "Res Publica 2023", que estará em cartaz no "Verão Sem Censura".

Proibida de se apresentar na Funarte (Fundação Nacional das Artes)― em agosto de 2019 por Roberto Alvim, atual secretário de Cultura e diretor do Centro de Artes Cênicas do órgão à época ― apenas por sua sinopse e sob o argumento de falta de “qualidade artística”, a peça ResPublica 2023, do grupo de teatro Motosserra Perfumada, realizou apresentações no fim do ano no CCSP (Centro Cultural São Paulo), a convite da secretaria de Cultura de São Paulo.

O veto de Alvim ao espetáculo gerou acusações de censura e levou 19 entidades da classe teatral, além da pasta chefiada por Alê Youssef, a assinarem uma carta de protesto. No texto, as entidades lamentam as interferência recentes em editais e em cancelamentos de peças de teatro. Para elas, isso tudo demonstra que “o dirigismo cultural vem sendo aplicado de modo disfarçado, como ‘filtro’”.

A censura à peça, que se passa em um futuro distópico, ditatorial e conta com a atriz trans Leonarda Glück em cena, também rendeu a demissão de Maria Ester Moreira, então coordenadora da Funarte em SP. Em entrevista ao jornal O Globo, Alvim disse, à época, que estava combatendo o que chama de “guerra cultural perpetrada há décadas pela esquerda no Brasil” e que o veto à Res Publica 2023, na sua visão, não foi um ato de censura mas, sim, de curadoria.

Negada pelo governo federal em 2019, Res Publica 2023 foi novamente acolhida por São Paulo em 2020 e está entre as principais atrações do “Verão Sem Censura”, realizado entre os dias 17 e 31 de janeiro. 

Realizar esse tipo de atividade e absorver esse tipo de espetáculo e expressão cultural é uma tradução da cidade de São PauloAlê Youssef, secretário municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo

“Realizar esse tipo de atividade e absorver esse tipo de espetáculo e expressão cultural é uma tradução da cidade de São Paulo, uma cidade de diversidade, de tolerância, de democracia. Na verdade, trata-se de uma afirmação de uma política cultural presente e tradicional da cidade de São Paulo”, afirma. 

O festival também trará as obras Abrazo, sobre pessoas que viveram sob a ditadura, e Caranguejo Overdrive, que conta a história de um catador de caranguejos que volta ao Rio após ter lutado na Guerra do Paraguai

Divulgação
Eurídice (Carol Duarte) é a protagonista de "A Vida Invisível

Na programação também estão peças que sofreram retaliações durante a ditadura militar no Brasil como Roda Viva, inspirado na música homônima de Chico Buarque e encenado pelo Grupo Oficina, de Zé Celso, assim como Divinas Divas, documentário que traz a história da primeira geração de artistas travestis no país dos anos 1960.

Cartazes de filmes brasileiros que foram retirados da sede da Ancine ganharam uma exposição, e está prevista uma sessão do filme A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, cuja exibição aos servidores da Ancine foi cancelada em dezembro.

Acredito na defesa do Carnaval para a valorização da nossa cultura. É um grande momento de expressão.Alê Youssef, secretário municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo

“Eu acho fundamental absorver um aspecto histórico [no evento], não só falando, mas mostrando a dimensão histórica que a censura já teve no Brasil para alertar as novas gerações sobre o drama, o caos, que foi a ditadura militar do ponto de vista da liberdade”, afirma. “Essas produções estão aí para lembrar que a censura do passado foi muito cruel e que a gente não pode nem pensar em flertar com esse tipo de pensamento agora.”

O festival terminará no dia 31 de janeiro, e, propositalmente, foi emendado com o Carnaval na cidade. Logo após a apresentação da peça Roda Viva, a Praça Ramos, ao lado do Teatro Municipal, no centro de São Paulo, abrigará os blocos como Tarado Ni Você e Charanga do França.

“Acredito na defesa do Carnaval para a valorização da nossa cultura. É um grande momento de expressão.  Acho que, neste ano, ele vai ser um grande grito de valorização da cultura. O Carnaval certamente vai exercer esse papel.”

Veja a programação completa do festival “Verão Sem Censura” aqui.