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28/03/2020 02:00 -03

Álcool em gel: Falta de matéria-prima obriga Anvisa a mudar regra de produção no Brasil

Segundo pesquisadores da USP, o carbopol pode ser substituído por outras substâncias para aumentar fornecimento do produto indispensável no combate ao coronavírus.

O desabastecimento de álcool em gel em diversos estados brasileiros, em plena escalada do novo coronavírus, acendeu o alerta da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A agência decidiu adaptar guia da OMS (Organização Mundial da Saúde) para aumentar a produção no Brasil. O documento traz instruções de como empresas podem obter o produto antisséptico sem carbopol, composto químico em falta no mercado mundial.

O que está impedindo uma maior produção e entrega no mercado do álcool em gel é a falta da matéria-prima [carbopol]”, afirmou ao HuffPost o gerente da área de saneamento da Anvisa, Webert Santana. De acordo com o especialista, a diretoria da agência pediu estudos internos sobre o tema e vai rever essa orientação de produção nos próximos dias. “Está sendo analisado internamente e deve ser publicada alguma coisa [resolução] nesse sentido, falando dessa formulação, o que deve ter”, disse.

Um grupo de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) traduziu o guia da OMS que sugere o uso de outras matérias-primas. De acordo com o pesquisador Filipe Canto Oliveira, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, trata-se de uma combinação de álcool 70%, que mata microorganismos, com glicerol, para manter a hidratação, e peróxido hidrogênio, que inativa “esporos de bactérias que álcool 70 sozinho não consegue”.

O cientista afirma que o Brasil é um dos maiores produtores de etanol do mundo e que as outras substâncias também são facilmente encontradas. De acordo com ele, nos Estados Unidos, destilarias estão produzindo e distribuindo para hospitais. No Brasil, é necessária liberação da Anvisa para assegurar esse fornecimento.

Juan Manuel Serrano Arce via Getty Images
Produção de álcool em gel no Brasil terá matéria-prima distinta.

Empresas ampliam produção de álcool em gel

Empresas que tradicionalmente não produzem álcool em gel têm atuado a fim de contribuir para conter a pandemia do novo coronavírus no Brasil. Nesta semana, a Ambev começou a distribuir 500 mil unidades do produto para hospitais nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. De acordo com a assessoria de imprensa da cervejaria, “as secretarias de saúde de cada município receberão os produtos e ficarão encarregadas de abastecer os hospitais da sua rede pública de saúde”.

Devido à capacidade de produção, a Ambev afirmou que não tem condições de expandir a iniciativa. “Infelizmente, temos alguns limites para expandir a ação, de capacidade e de possibilidade, porque nem todas as nossas cervejarias são capazes de produzir etanol. Diante disso, priorizamos os hospitais públicos dos municípios onde se concentram a maioria dos casos até o momento”, afirmou a empresa, em nota enviada ao HuffPost.

A Marfrig, companhia de alimentos, também anunciou a produção de 10 toneladas mensais de álcool em gel na fábrica em Promissão, no interior de São Paulo. “O primeiro lote será distribuído para as 12 unidades da companhia instaladas no Brasil. Os lotes seguintes serão destinados aos 18 mil colaboradores da Marfrig no País e doados para instituições assistenciais e hospitais localizados nas cidades nas quais a companhia atua”, informa a empresa.

ASSOCIATED PRESS
Empresas do ramo de bebidas e alimentação estão ajudando na produção de álcool em gel.

O que fazer se não achar álcool em gel?

Com as limitações do mercado para suprir a demanda de álcool em gel nas prateleiras, muitos consumidores não têm encontrado o produto. A principal recomendação de especialistas de higienização para evitar o contágio do novo coronavírus é lavar as mãos da maneira correta: com a quantidade de sabão suficiente para cobrir toda a superfície das mãos, além de incluir esfregar entre os dedos, dorso e punho. O médico Dráuzio Varella gravou um vídeo demonstrando o passo a passo.

É preciso lavar as mãos antes e após o preparo de alimentos e quando for comer, além de antes de depois de entrar em contato com pessoas infectadas. Também é recomendado evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas.

O álcool em gel deve ser usado para quem precisa sair de casa para trabalhar ou para atividades essenciais, como ir ao mercado. Algumas alternativas para quem não encontrar o produto são outros produtos cosméticos. “Existem nos mercados, em especial, nas farmácias, outros tubinhos bem parecidos com o álcool em gel, que são substâncias com outros ativos: triclosan, clorexidina, cloreto de benzetônio. São substâncias que têm potencial ativo que mata germes e bactérias”, recomenda Webert Santana, da Anvisa. 

O especialista também lembra da necessidade de reaplicar, se a pessoa estiver fora de casa. “Se tocar em qualquer coisa de novo, precisa repetir o processo quantas vezes for necessário. Se eu desci do ônibus e limpei a mão, estou caminhando e peguei em alguma coisa, imediatamente, repete o procedimento porque se você entrou em contato com o vírus e levar a mão à mão ou olhos, você vai se contaminar”, afirma. Além disso, para matar os microrganismos, o  álcool gel precisa ter porcentagem entre 65% e 80%.

O que NÃO USAR no lugar do álcool em gel

O Conselho Federal de Química (CFQ), por sua vez, alerta que o álcool isopropílico deve ser evitado como substituto do álcool em gel porque “provoca maior secura da pele, é duas vezes mais tóxico e sua atividade sobre vírus é inferior ao álcool etílico”. O órgão também desaconselha o uso do vinagre contra o novo coronavírus e sublinha que “deve-se tomar cuidado no uso de outros ácidos (como o suco de limão), pois podem lesionar a pele”.

Ainda de acordo com o conselho, as pessoas não devem usar etanol de combustível ou de bebidas alcóolicas. “Cada produto apresenta graduação alcoólica própria, é pensado para uma finalidade específica e suas formulações contêm outras substâncias adicionadas exatamente para tais fins, podendo provocar reações indesejáveis na pele ou danificar superfícies, além de não possuírem garantia de eficácia germicida”, explica.

Também não se deve, em hipótese alguma, tentar fabricar o produto em casa. “Algumas receitas caseiras estão circulando na internet e, em geral, recomendam a produção do álcool em gel a partir do álcool líquido concentrado. O CFQ preza pela segurança da população brasileira, por isso, não recomenda essa prática tanto pelos riscos associados quanto por confrontar a legislação brasileira”, diz o órgão.

Pode usar álcool líquido nas mãos?

Não é recomendado usar produtos de limpeza para limpar as mãos, de acordo com o Conselho Federal de Química, uma vez que esses produtos podem, por exemplo, ser oxidantes ou corrosivos. Também é preciso muito cuidado ao usar o álcool líquido 70%.

Em 20 de março, a Anvisa publicou uma resolução autorizou a comercialização do produto nessa forma para consumidores comuns. Até então, só era possível comprar no supermercado o álcool líquido até 46%, para limpeza. A venda do álcool líquido 70% era restrita a laboratórios, hospitais e empresas que precisam de algum tipo de esterilização, por ser muito inflamável. Para ter efeito de matar bactérias e vírus, contudo, é preciso que a concentração seja de 70%.

A mudança é temporária, motivada pela situação de emergência de saúde pública internacional provocada pelo novo coronavírus. A validade é de 6 meses contados a partir da última sexta. De acordo com Webert Santana, a agência recebeu diversas reclamações de ausência de álcool em gel por parte de consumidores e de fabricantes que não encontravam o carbopol, majoritariamente importado da China.

Se for necessário usar o álcool líquido 70%, a pessoa não pode chegar perto, nos minutos seguintes à aplicação, a objetos de ignição, como acendedor de fogão ou isqueiro. Também é necessário cuidado com as crianças. “Se você pegar o álcool líquido e espalhar na sua mão, vai cobrir uma parte grande da sua pele muito rapidamente. Na forma em gel, isso não acontece, então no caso de um acidente de pegar fogo, o dano no tecido da pele, vai ser menor na forma em gel. Além disso, como o líquido penetra muito nos poros, o grau de queimadura vai ser muito grande, em camadas mais profundas da pele”, alerta Santana.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, também reforçou o alerta há uma semana. “Dê preferência a água e sabão para banheiros. Use hipoclorito, vou usar aqui a linguagem do povo, ‘quiboa’ [a água sanitária], que é o frasco que todo mundo sabe o que estou falando. Use ‘quiboa’ para limpar tudo, porque tem cloro e ele mata tudo o que tem e não pega fogo”, disse.