MUNDO
23/02/2019 07:30 -03 | Atualizado 23/02/2019 08:38 -03

Entrega de ajuda humanitária à Venezuela neste sábado traz risco de conflito na fronteira

Brasil mantém planos de entregar mantimentos a venezuelanos, mas fronteira segue fechada.

ASSOCIATED PRESS
Venezuelana protesta pedindo que Maduro deixe entrar a ajuda humanitária no país.

Os olhos de toda a região se voltam para as fronteiras da Venezuela com o Brasil e a Colômbia neste sábado (23), dia marcado para que a ajuda humanitária seja entregue à população do país, mesmo com a oposição do ditador Nicolás Maduro.

A tarefa não só não será fácil, com a fronteira fechada por Maduro - na noite de sexta (22), ele ordenou o bloqueio também com a Colômbia - , como há risco de uma escalada violenta nas regiões que fazem divisa com os dois vizinhos.

Só na sexta, dois indígenas venezuelanos foram mortos pelo Exército do país e 12 ficaram feridos ao tentarem impedir o bloqueio, pelos militares, de uma estrada a cerca de 45 km da fronteira com Roraima.

Do lado brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro convocou uma reunião interministerial de emergência, mas o governo manteve o discurso de que tentará entregar 200 toneladas de mantimentos a partir deste sábado e que não há qualquer interesse de empregar força militar “neste momento”. 

“Queremos reforçar que a operação brasileira tem caráter exclusivamente de ajuda humanitária”, afirmou o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, na noite de sexta.

A posição vinha sendo repetida nos últimos dois dias em Brasília, por interlocutores dos ministérios envolvidos na missão.

A decisão foi a de não reforçar a presença de militares brasileiros na fronteira, nem mesmo para garantir a segurança da carga de alimentos e medicamentos - o que será feito pela Polícia Rodoviária Federal. (Já há um contingente maior na fronteira em Roraima atualmente, mas para comandar a missão de acolhida dos venezuelanos que têm vindo para ficar nos últimos meses).

Após o encontro no Planalto, contudo, o porta-voz não negou nem confirmou os rumores de que a Venezuela teria posicionado mísseis S-300 próximo à fronteira com o Brasil. A informação havia sido publicada pelo site Defesanet, especializado em defesa.

Ricardo Moraes / Reuters
Militares venezuelanos bloqueiam estrada para impedir que venezuelanos busquem ajuda humanitária no Brasil e na Colômbia.

O governo russo, aliado de Maduro, repetiu nesta sexta-feira que o envio de ajuda humanitária, em parceria com os Estados Unidos, é “uma perigosa provocação, de grande magnitude” e “um cômodo pretexto para uma ação militar” para derrubar o venezuelano.

Maduro, por sua vez, defendeu a ação militar venezuelana, que terminou em 2 mortes. Em um vídeo divulgado por sua conta no Twitter, ele afirma que os militares estão espalhados pelo país para garantir a paz. “A Força Armada Nacional Bolivariana é a base de coesão da nação venezuelana, e é a garantia de paz, de convivência, para todos os cidadãos do país”.

As declarações também se dão num momento de deserções, em que Maduro precisa estimular a lealdade dos militares. “Vamos ao combate pela paz da Pátria”, disse. Em outra postagem, o ditador afirma que povos indígenas se concentraram na fronteira com a Colômbia para demonstrar apoio ao seu governo.

 

Recados a Maduro e gabinete de crise

Durante toda a sexta-feira, integrantes do governo brasileiro mandaram recados a Maduro, em declarações à imprensa.

O vice-presidente, general Hamilton Mourão, disse à BBC Brasil que só vê uma possibilidade de confronto se o Brasil for atacado, mas que “Maduro não é louco a esse ponto”. Mais tarde, à Folha, Mourão afirmou que não há ameaça de guerra. ”É uma situação de tensão, mas nada mais do que isso.”

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, por sua vez, disse à GloboNews que o Brasil quer que a situação “se resolva da melhor forma possível”.

“Nós temos que aguardar o desenrolar dos acontecimentos. O que já está estabelecido é que o Brasil não vai fazer nenhuma ação agressiva contra a Venezuela, porque é contra a Constituição e não é nosso pensamento”, disse.

Nesta sexta, Bolsonaro criou um gabinete de crise, que será mantido no fim de semana, para avaliar o desenrolar da missão. A expectativa é que, no domingo (24), o presidente Bolsonaro se reúna com Mourão antes da viagem do vice à Colômbia para a participação do encontro do Grupo de Lima - formado por países vizinhos para discutir umal transição democrática na Venezuela.

O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, que também participará da reunião na próxima segunda (25), esteve na fronteira da Colômbia com a Venezuela nesta sexta e deveria seguir para Roraima neste sábado.

Em Brasília, a movimentação foi intensa nos últimos dois dias. O governador de Roraima, Antonio Denarium (PSL), por exemplo, foi recebido na quinta no Planalto, se reuniu com Araújo no mesmo dia e, nesta sexta, participou do encontro ministerial por videoconferência. Nos dez ministérios envolvidos na ação, reuniões de emergência foram convocadas nas últimas 48 horas.

 

O que esperar dessa entrega de ajuda humanitária

A ideia é que as 200 toneladas de mantimentos disponíveis sejam levadas pelo governo brasileiro até Boa Vista, em Roraima, a cerca de 180 km da fronteira, e que “caminhões venezuelanos com motoristas venezuelanos” retirem os alimentos e medicamentos e os levem até o país vizinho.

Segundo o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, a carga inclui arroz, feijão, café, leite em pó, açúcar, sal e kits de primeiros socorros.

Ele também afirmou que hoje há apenas um caminhão venezuelano em Boa Vista. No entanto, outros caminhões não conseguirão chegar ao Brasil e nem retornar à Venezuela se o governo Maduro mantiver a fronteira fechada.

“Os caminhões que não tiverem condições de adentrar aquele país retornarão a Boa Vista para uma nova tentativa”, disse o porta-voz, acrescentando que a duração da viagem entre a capital do estado e Pacaraima, na fronteira, é de cerca de 4 horas. Segundo ele, “não tem previsão de término” para a operação de entrega da ajuda.

Galeria de Fotos Crise na Venezuela e tensão na fronteira Veja Fotos

Nesta sexta, já com as fronteiras fechadas, muitos venezuelanos tentaram passar para o Brasil por rotas alternativas, a pé. Antes do fechamento da fronteira, cerca de 700 venezuelanos cruzavam para o lado brasileiro por dia - muitos, no entanto, faziam compras e retornavam ao seu país.

A fronteira onde a tensão tende ser maior, no entanto, é com a Colômbia. Isso porque a presença americana ali se dá, inclusive, com aviões militares que chegaram trazendo carga de ajuda humanitária.

Foi para essa fronteira que se dirigiu também o líder opositor Juan Guaidó, que há exatamente um mês se autoproclamou presidente interino da Venezuela e foi reconhecido por mais de 50 países.

Guaidó liderou uma caravana que saiu de Caracas até San Cristóbal Táchira, a cerca de 60 km de Cúcuta, na Colômbia, onde se concentra a ajuda humanitária do lado colombiano.

O líder opositor chegou a cruzar a fronteira nesta sexta para se encontrar com presidentes da Colômbia, do Chile e do Paraguai - além do secretário-geral da OEA, Luís Almagro -, que participaram do show “Venezuela Aid Live”, promovido em Cúcuta e com a presença de artistas como Alejandro Sanz e Luis Fonsi.

Do outro lado da ponte Simon Bolívar, que liga os dois países Maduro organizou um outro festival de música, chamado de “Mãos fora da Venezuela”, com artistas não tão estrelados.