Tenho agorafobia. Eis como estou lidando após o fim do lockdown

Ficar presa dentro de casa foi um estranho alívio para mim. Mas, conforme a vida vai voltando ao normal, sinto a pressão crescendo dentro de mim.

Agorafobia é uma palavra assustadora.

Para mim, ela traz à mente imagens de pessoas escondidas atrás de cortinas, olhando furtivamente para o mundo lá fora, do qual elas têm medo de fazer parte; essas pessoas são meras sombras do que eram antes. São solitárias e tristes e não conseguem fugir de seus medos.

Essa não era eu, ou pelo menos não me via dessa maneira. Então, quando recebi o diagnóstico de agorafobia em janeiro, entrei em pânico imediatamente.

A ansiedade sempre teve papel importante na minha vida. Quando criança, diziam que eu “me preocupava demais” e era tímida e retraída. Odiava qualquer tipo de mudança, das férias em família a simples alterações na rotina. Mais velha, me diagnosticaram com ansiedade crônica. Me acalmava mantendo controle sobre minha rotina, só aceitando convites quando realmente queria.

Mas também virei meio eremita. Continuava morando com meus pais depois de me formar na faculdade, era solteira e só interagia com os colegas durante o horário de trabalho e meus parentes mais próximos. Me forçava a ir a encontros românticos, mas os sintomas físicos era tão fortes que ou não conseguia sair de casa ou tinha de ficar indo ao banheiro a cada cinco minutos – até dar o tempo suficiente para eu poder ir embora.

“Socializar e sair de casa ainda era difícil. Aí, finalmente recebi o diagnóstico que me chocou”

<i>Cortesia da autora.</i>
Cortesia da autora.

Enfim, conheci meu parceiro, a pessoa com quem me sinto à vontade. Mas socializar e sair de casa ainda era difícil. Aí, finalmente recebi o diagnóstico que me chocou: agorafobia.

O médico descreveu a doença como “um transtorno de ansiedade em que o ambiente é percebido como algo ameaçador e do qual não é possível fugir”. Com essa definição, fazia sentido, mas não gostava do rótulo. Então comecei o processo de desembaraçá-lo do tecido da minha personalidade.

Aceitei praticamente todos os convites, mesmo que não quisesse ir. Me faria bem, então eu ia. Fui a uma ou outra festa (algo que antes eu evitava como a praga), a reuniões de família e a jantares. Pela primeira vez, minha vida social estava agitada, e a sensação era boa, apesar de um pouco cansativa.

Aí veio a quarentena, e tudo mudou.

No começo, senti um estranho alívio. Tinha medo do futuro, mas, por outro lado, me libertei das punições que vinha me impondo. Agora, eu tinha de ficar em casa – não havia alternativa, e isso me acalmou.

Mas, com a gradual liberação das restrições, senti a pressão crescendo dentro de mim. Era como se, depois de tanto progresso, estivesse voltando à estaca zero. Mas quanto eu realmente tinha progredido?

A realidade é que aceitar todo convite para socialização quando você sofre de agorafobia é extenuante e insustentável. No começo do ano, eu tinha ataques de pânico, náusea e tontura diários. Estava cansada o tempo todo. Ainda lutava contra a ansiedade – mas, desde que saísse de casa, a sensação era de vitória sobre aquele rótulo.

“Aqui estamos, pós-quarentena, prontos para lidar com a agorafobia de novo. Mas dessa vez vou fazer diferente”

A quarentena me ensinou que não preciso fazer tudo para “derrotar” a agorafobia. Não preciso conquistá-la completamente se for exigir demais de mim. Provavelmente sofro disso há anos. Achar que vou me livrar do problema de uma hora para a outra não é realista. Tem de ser um processo gradual.

Então aqui estamos, pós-quarentena, prontos para lidar com a agorafobia de novo. Mas dessa vez vou fazer diferente: estou aprendendo a reconhecer quando tenho vontade de sair e quanto acho que tenho de sair. Se for o segundo caso, fico em casa. Quando saio, estabeleço limites. Uma hora é muito mais administrável do que um dia inteiro. Acima de tudo, estou tentando reduzir a pressão que coloco sobre mim mesma. Ser dura comigo mesma não estava ajudando.

Agorafobia tem vários extremos, como qualquer outra doença mental. Revezes são normais. É difícil saber como a pós-quarentena vai me afetar, mas isso vale para todos, não só para mim. A pandemia mostrou que ninguém sabe o que vai acontecer, e para mim isso significa abrir mão da ideia de controle que eu achei que tinha.

Para mim, é um processo lento. Estou feliz por saber que as coisas podem demorar. Todo mundo pode viver um pouco mais devagar.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.