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30/07/2019 05:00 -03

Pressão do PSDB de São Paulo atrapalha saída de Aécio do partido

Licença "espontânea" estava em fase avançada de negociação, mas parou com tensão entre alas opostas.

ASSOCIATED PRESS
Imagem do PSDB está abalada com a opinião pública por manter Aécio Neves em seus quadros.

A pressão do grupo do PSDB de São Paulo pela expulsão do correligionário Aécio Neves (MG) atrasou um processo de afastamento consensual dele, que já estava em fase avançada de negociação nos bastidores na legenda. A informação foi obtida pelo HuffPost em conversas com mais de dez tucanos e interlocutores ao longo da última semana.

A intenção era fazer o deputado federal se licenciar do PSDB de forma espontânea, mas passando a impressão pública de que ele liderava o processo de negociações e tomava a decisão por conta própria. Porém, declarações repetidas, especialmente do prefeito de São Paulo, Bruno Covas, falando na necessidade de expulsar Aécio, fizeram o processo dar passos para trás.

Neste domingo (28), em entrevista à Rede TV!, o prefeito voltou a falar nominalmente no ex-senador. “O partido não fez sua lição de casa e acabou sendo punido pela população na eleição do ano passado. (...) O partido aqui [em São Paulo] já solicitou ao Diretório Nacional que abra o processo de expulsão do deputado Aécio Neves”, disse Covas.

“Com essa pressão pública, se Aécio decidir se licenciar agora vai parecer que está cedendo. Não fará isso. Vai com certeza deixar o processo correr”, comentou um nome bastante próximo ao deputado de Minas.

Procurado pelo HuffPost, o ex-senador e ex-governador mineiro não quis comentar o assunto.

Adriano Machado / Reuters
João Doria e Geraldo Alckmin: ex-aliados, representam a cara do novo PSDB e do antigo.

Tucanato renovado

Internamente, não há uma divisão clara sobre quem defende e quem é favorável ao afastamento de Aécio.

Até então liderado por três grupos — os mineiros, de Aécio; os paulistas, que se dividiam entre Geraldo Alckmin, José Serra e Fernando Henrique Cardoso; e os representantes do sul, com o ex-governador do Paraná, Beto Richa, o partido começou a entrar em uma nova fase desde que grandes nomes da legenda se viram envolvidos em escândalos de corrupção — caso de Richa e Aécio.

Na esteira desse momento, o governador de São Paulo, João Doria, começou a ascender na sigla e ganhar influência. Ele aproveitou a fase como prefeito de São Paulo, em 2017, para se projetar interna e extremamente. Chegou a se colocar como alternativa ao padrinho, Alckmin, caso este não vingasse no início da corrida presidencial do ano passado. Foi eleito governador do estado também vocalizando discurso anticorrupção.

Mas ainda que Doria assuma protagonismo, Aécio mantém influência sobre a bancada do PSDB na Câmara. “Quando ele fala nas reuniões, todos param para ouvir. É uma voz respeitada. Na Câmara, o papo de expulsão passa bem longe”, disse um interlocutor.

Mesmo fora do Congresso, o assunto não é unanimidade. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou, no Twitter, a postura do diretório paulista em insistir no assunto e acusou os colegas de “jogar” filiados ”às feras”, falando ainda em “oportunismo sem grandeza”.

O PSDB de São Paulo respondeu o ex-presidente em nota, afirmando respeito à trajetória de FHC, mas endossando a posição contra Aécio: “É inadmissível que pessoas como Aécio Neves permaneçam nos quadros partidários. O pedido de expulsão se deveu pelo fato de não compactuarmos com a postura e o histórico de Aécio, que conspurcam a imagem do partido.”

O posicionamento de FHC praticamente paralisou as conversas internas sobre uma licença consensual do deputado e fez arrefecer as esperanças de dirigentes partidários sobre uma iniciativa do próprio Aécio Neves.

Conselho de Ética

Uma das últimas medidas implementadas pelo ex-governador Geraldo Alckimin no comando do PSDB, cargo que deixou no fim de maio, foi elaborar um Código de Ética, que prevê a instalação de um Conselho de Ética para analisar casos administrativos.

Nesse caso, o primeiro passo é apresentar uma representação na reunião da executiva nacional do partido. A próxima deve ocorrer em agosto. Além do diretório estadual de SP, o diretório do Espírito Santo também manifesta intenção de representar contra o deputado Aécio Neves.

Depois de apresentada à executiva nacional, o pedido de expulsão é encaminhado ao Conselho de Ética, que analisa o caso seguindo um trâmite. O acusado tem direito a defesa, testemunhas. O prazo, levado ao limite, pode durar uma média de três meses.

Imagem tucana prejudicada

Aécio virou réu em abril de 2018 acusado de receber propina de R$ 2 bilhões do grupo J&F e também de obstruir a investigação da Lava Jato. No início de julho, após a Justiça Federal de São Paulo ratificar o entendimento do STF (Supremo Tribunal Federal), o diretório paulista do PSDB aprovou um pedido de expulsão do deputado.

Publicamente, o governador de SP, João Doria, tem dito que defende uma “saída espontânea” do ex-senador. Nos bastidores, porém, lidera o grupo de São Paulo que pretende ver Aécio fora da legenda.

Em reação, o PSDB mineiro, aliado do ex-senador, emitiu uma nota com ameaças de levar ao Conselho tucanos paulistas, mencionando o prefeito Bruno Covas.

“Atos e punições contra membros do partido de outro estado, cuja atuação desconhecem, soam extremamente antiéticas, uma vez que há membros do partido em São Paulo envolvidos em denúncias extremamente graves, especialmente o prefeito Bruno Covas, réu por improbidade administrativa, assim como vários dos seus auxiliares”, informou em nota a sigla em MG.

As conversas sobre um afastamento por meio de entendimento seguiam em ritmo acelerado também com outros dois tucanos que, aos olhares do partido, prejudicam a imagem do PSDB: os ex-governadores de Goiás e do Paraná, respectivamente, Marconi Perillo e Beto Richa. Os dois também são réus na Justiça.

Pesquisas internas e externas apontam que a presença dos três vem prejudicando a imagem do partido. O caso de Aécio, porém, é o mais crítico já que, candidato à Presidência da República em 2014, é mais conhecido.

Os tucanos estão preocupados com a repercussão na eleição municipal de 2020 caso mantenham no PSDB Aécio, Perillo e Richa.

Porém, muitos admitem que a saída dos três pode abrir brechas para ensejar politicamente pedidos de expulsão de outros encrencados com a Justiça, embora “em outro nível”, como Alckmin, Serra e o próprio Covas.