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22/03/2020 03:00 -03 | Atualizado 22/03/2020 09:16 -03

Em meio à pandemia de coronavírus, Bolsonaro, Doria e Witzel alimentam jogo político

Temor, nos bastidores, é que 'tom de campanha' acabe afetando, na ponta, os cidadãos, com imposição de dificuldades aos estados pela União em meio à pandemia.

NELSON ALMEIDA via Getty Images
Doria fez campanha para Bolsonaro em 2018, mas afastou-se do presidente em 2019. 

E em meio a uma pandemia de coronavírus, que já matou 18 pessoas no país e ameaça se alastrar rapidamente nas próximas semanas, o presidente da República e os governadores dos dois maiores estados brasileiros - e que possuem mais casos confirmados - decidiram travar uma batalha política.

Ex-aliados, o presidente Jair Bolsonaro, o governador de São Paulo, João Doria, e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, trocam diariamente críticas e alfinetadas em frente às câmeras, num jogo político que parece visar a disputa eleitoral de 2022 mas também coloca em risco os esforços de combate ao coronavírus.

Na última sexta-feira (20), a troca de farpas se intensificou. Bolsonaro voltou a classificar as medidas adotadas por “certos governadores” como “extremas”. Como de costume, mencionou o Rio de Janeiro, sem citar o nome do governador. “Fechar aeroportos… Não compete a eles fechar aeroporto, rodovias, shopping, feiras, etc. O comércio para, o pessoal não tem o que comer. Em alguns casos o vírus mata sim, mas muitos mortos terão sem comida”, disse. 

Em resposta, Witzel pediu “pelo amor de Deus” que o governo federal parasse de fazer política. ”É hora de falar na sobrevivência das pessoas. Se não fizermos dessa forma, vamos começar a contabilizar mortos, como infelizmente começamos a contabilizar. O governo federal precisa entender que os estados precisam de socorro e precisa fazer alguma coisa”, afirmou em entrevista ao vivo na GloboNews.

Mais tarde, foi a vez de Doria. Em entrevista coletiva, em São Paulo, o governador disparou: “Estamos fazendo o que deveria ser feito pelo líder do País, o que o presidente Jair Bolsonaro, lamentavelmente, não faz, e quando faz, faz errado”. 

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Witzel também esteve com Bolsonaro na campanha e foi outro a se afastar no ano passado. 

Técnicos do Ministério da Economia com quem o HuffPost conversou, parlamentares e assessores palacianos avaliam que esse tom “de campanha” entre governadores e a Presidência da República não é bom, especialmente em meio a uma crise sanitária, quando se exige um “esforço conjunto”.  

A avaliação é que as consequências disso tendem a chegar na ponta, com dificuldades para os estados. Pode haver contenção em repasses de recursos, escolha sobre beneficiários de programas sociais de alguns lugares em detrimento de outros. 

Além disso, em carta enviada ao Planalto, os 27 governadores brasileiros solicitaram, por exemplo, adiamento do pagamento de dívidas. A União pode negar isso. Lembrando que os estados já passavam por graves crises fiscais antes da pandemia de coronavírus.

Nesta sexta, o Ministério da Economia zerou a projeção do PIB (Produto Interno Bruto) e admitiu o risco de recessão. Já a FGV (Fundação Getúlio Vargas) estima uma queda de, pelo menos, 4,4%, se a crise pelo vírus não se estender por muito tempo. 

Troca de farpas em meio ao surto  

Doria e Witzel têm anunciado, desde a semana passada, medidas restritivas à população como forma de combate ao coronavírus. São Paulo e Rio de Janeiro são os dois estados com maior número de infectados e onde foram registradas as 11 mortes até o momento. 

No domingo (15), quando Bolsonaro cumprimentou, com apertos de mão e abraços, apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, rompendo um isolamento ao qual deveria estar submetido e contrariando as orientações do próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, Doria disse à Folha de S.Paulo que o presidente “foi inadequado no ato e impróprio na atitude”. 

Dois dias antes das manifestações pró-Bolsonaro, Witzel havia publicado um decreto com várias medidas de contenção da covid-19 e, entre elas, estava a suspensão de eventos e manifestações com aglomerações. O governador negou que houvesse qualquer tipo de intenção política. 

“Quero deixar bem claro aqui que não administro o estado com objetivos ideológicos ou políticos. Administro de forma técnica. Manifestações são bem-vindas. Não tenho medo de manifestação de quem quer que seja. Mas precisamos avaliar a necessidade”, disse.

Na quinta-feira (19), o governador do Rio voltou a bater de frente com Bolsonaro, editando um decreto em que fecha as fronteiras do estado, restringindo o acesso por rodovias e aeroportos. ”É preciso que a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] esteja presente nos aeroportos e rodoviárias para que haja averiguação de onde as pessoas estão vindo e garantir a quarentena”, escreveu no Twitter.  

A orientação no governo é refutar qualquer medida de governos que falem em fechar fronteiras estaduais. Nesta sexta (20), Mandetta, que já havia alertado que, a depender da evolução do vírus, poderiam ser adotadas medidas mais drásticas, posicionou-se de forma contundente contra esse tipo de decisão. 

“Se cada um no Brasil olhar e falar: Está tendo muita morte em São Paulo, fecha tudo para São Paulo… São Paulo é o maior polo industrial do País, de fornecimento de insumos médicos, inclusive. A fronteira interestadual é uma mera formalidade. Está na hora de o brasileiro entender que estamos dentro do mesmo barco. Vamos ter que nos atender mutuamente”, afirmou à imprensa no Palácio do Planalto, ao lado do chefe. 

Mais tarde, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes, usou o Twitter para reforçar a posição do governo. 

Uso político não é privilégio de governadores rivais

Embora João Doria e Wilson Witzel estejam em evidência por serem criticados quase que diariamente pelo presidente, não é apenas o trio que tem usado a crise do coronavírus para fazer política. 

Políticos e partidos têm embarcado em polêmicas para atrair os holofotes em meio à pandemia.

A crise diplomática provocada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) com a China na noite de quarta-feira (18), por exemplo, deu novo gás a essas manifestações. O filho 03 do presidente acusou o país asiático de ser responsável pela pandemia de coronavírus.

Até o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu e do qual se desfiliou para criar a sua própria legenda, divulgou nota sobre o assunto, claro, condenando a postura do clã no assunto.  

A ex-líder do Congresso Joice Hasselmann (PSL-SP), que soube de sua destituição do cargo pelo mandatário através da imprensa, também têm sido ativa nas redes desde a ocasião. 

Doria também comentou - e criticou - Eduardo pela colocação, chamando de “lamentável” sua colocação”. 

Na oposição, como já era de se esperar, também não faltam exemplos de manifestações condenando a postura de Bolsonaro durante o combate à pandemia. 

O ex-presidente Lula, um frequente crítico da imprensa, por exemplo, chegou a elogiar, em vídeo, o trabalho da mídia durante a crise para criticar Bolsonaro.