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09/02/2020 20:05 -03

Miliciano alertou que operação era para matá-lo e não prendê-lo, diz advogado

Adriano da Nóbrega foi morto após ser baleado em confronto com a polícia na Bahia. Ele tinha ligação com Queiroz e Flávio Bolsonaro.

Divulgação/Polícia Civil
Capitão Adriano, como era conhecido, teria dito que seria vítima de queima de arquivo, de acordo com advogado.

O miliciano morto neste domingo (9) em Esplanada (BA) temia ser vítima de queima de arquivo. A revelação é de seu advogado, Paulo Emílio Cata Pretta, que afirmou ter recebido uma ligação de Adriano da Nóbrega na quarta-feira (5) — a primeira vez que o ex-capitão do Bope ligou diretamente para ele. Até então, as comunicações com a defesa sempre ocorriam por meio de parentes do Capitão Adriano, como era conhecido.

Cata Pretta diz que o medo de ser morto foi o principal objeto do telefonema que durou 20 minutos. Capitão Adriano já estaria ciente de operação policial para pegá-lo na Bahia. Na semana passada, policiais entraram em condomínio em Porto de Sauípe, a mais de 100 quilômetros de Salvador, onde estava sua família. Ele não foi localizado. “Essa operação não era para prendê-lo, mas na verdade para matá-lo, ele me disse”, afirmou Cata Pretta.

O advogado disse que tentou persuadir Capitão Adriano a se entregar à Polícia Civil da Bahia, mas o ex-PM afirmou que seria morto de toda maneira. 

Cata Pretta acrescentou que não questionou ao cliente quem seria o responsável pela suposta “queima de arquivo” e a que informações ele tinha acesso para que fosse alvo de um crime dessa natureza.

A Secretaria de Segurança Pública da Bahia afirma que o miliciano foi morto em confronto com policiais, após ter reagido com disparos à ação policial. Ele ficou ferido no tiroteio, teria sido levado a um hospital nas redondezas, mas não resistiu.

Ao G1, a secretaria classificou de “estapafúrdia” a declaração do advogado de que Nóbrega cogitava ser alvo de “queima de arquivo”.

Ligação com Flávio Bolsonaro

Adriano da Nóbrega estava foragido há mais de um ano e era acusado de participação em homicídios no Rio, grilagem de terras e de ser sócio de jogos de máquina caça-níquel.

Além disso, ele está envolvido no esquema da “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), hoje senador.

O ex-capitão do Bope era próximo de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio. Queiroz e Nóbrega trabalharam juntos na Polícia Militar.

Amigo do presidente Jair Bolsonaro, Queiroz é acusado de operar “rachadinha” no gabinete de Flávio. A mãe e a ex-mulher de Adriano foram admitidas para trabalhar para Flávio Bolsonaro na Alerj e também repassavam parte de seu salário para Queiroz.

O Ministério Público do Rio de Janeiro diz que Queiroz recebeu R$ 2 milhões de 13 ex-assessores no gabinete de Flávio.

Em junho de 2005, o Capitão Adriano foi condecorado pelo então deputado Flávio Bolsonaro com a Medalha Tiradentes da Alerj. Flávio exaltou o ”êxito” do então PM de “prender 12 marginais” em uma favela, além de apreender armas e drogas.

Assassinato de Marielle Franco

O Escritório do Crime, milícia que seria chefiada por Capitão Adriano, é suspeita de matar a vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e o motorista Anderson Gomes em março de 2018.

Embora a Secretaria de Segurança da Bahia informe que Capitão Adriano era suspeito do assassinato de Marielle, seu nome não consta do inquérito oficial.

O PSol, porém, informa que o miliciano era uma “peça chave” para desvendar o caso Marielle e chegar aos mandantes do crime. Em nota, a Executiva Nacional do partido “exige esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte do miliciano”.

O partido também vai pedir uma audiência com a Secretaria de Segurança Pública da Bahia para apurar mais informações da operação policial que culminou com a morte de Adriano da Nóbrega.

“Avaliaremos medidas que envolvam autoridades nacionais. Seguimos exigindo respostas e transparência para pôr fim à impunidade”, conclui a nota do PSol.