OPINIÃO
09/01/2020 03:00 -03 | Atualizado 09/01/2020 03:00 -03

'Adoráveis Mulheres': Greta Gerwig mescla clássico e moderno em um delicado manifesto feminista

Saoirse Ronan e Florence Pugh brilham intensamente em versão renovada do livro 'Mulherzinhas', de Louisa M. Alcott — um sucesso desde o século 19.

Como fazer uma versão para o cinema de um livro clássico depois que outras sete já foram feitas antes e seu filme ainda soar novo? Pode parecer uma tarefa das mais complicadas, mas que a cineasta e atriz Greta Gerwig tirou de letra em Adoráveis Mulheres — que estreia no circuito brasileiro nesta quinta (9).

A fórmula do sucesso que consegue mesclar o clássico e o moderno de uma forma tão natural não é tão simples de se explicar, mas o grande segredo, porém, não tem nada de mirabolante. Gerwig simplesmente pegou Mulherzinhas, escrito por Louisa M. Alcott em 1868, e deu a sua visão pessoal sobre a obra.

A parte complicada é se equilibrar no fio da navalha entre como você vê a história e o respeito a um texto cultuado há mais de dois séculos por leitores de todo o mundo. A solução? Gerwig utilizou um artifício que virou moda no cinema americano da década de 1990. Pegou uma história contada de forma linear e a transformou em uma narrativa não linear.

A trama, que se passa em plena Guerra Civil americana (1861-1865), conta a história das irmãs March. Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen) passam pelo processo da adolescência para a vida adulta tendo de se virar sozinhas com sua mãe Marmee (Laura Dern), pois seu pai (Bob Odenkirk) foi lutar no front.

Meg quer entrar na alta sociedade local, enquanto Jo não quer saber de nada disso e só pensa em ser escritora. Já Amy, que pensa ser uma artista talentosa, quer mesmo é arranjar um marido rico e Beth quer se dedicar a música. Mas a chegada do jovem Laurie (Timothée Chalamet) à casa de seu avô, o rico Sr. Laurence (Chris Cooper), vizinha a modesta moradia da família March, vai mexer com o destino das quatro moças.

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Florence Pugh como Amy March é a melhor surpresa de "Adoráveis Mulheres". 

À primeira vista, essa mudança no estilo de narrativa pode parecer apenas estética, mas ao “brincar” com a passagem de tempo, Gerwig consegue fazer algumas alterações bem profundas em questões bem importantes da trama. Como a relação de Jo com o professor Bhaer (Louis Garrel) ou mesmo a relação que o público tem com Amy, que muda completamente da construída no livro.

Amy, aliás, é um caso à parte. De todo o elenco recheado de estrelas da nova geração e medalhões como Dern e Meryl Streep, por exemplo, ninguém se destaca mais do que Pugh. Ela está excelente na pele da mimada Amy. Com um timing cômico afiado em uma interpretação cheia de sutilezas, ela dá uma dimensão à personagem mais complexa que a do material original.

Mas isso tem também, como já dito, muito do dedo de Gerwig. Ela nos leva a conhecer uma Amy madura antes do terço final da história, nos aproximando dela. É uma personagem muito mais importante para a trama do que se poderia imaginar.

O contrário acontece com Meg. Um pouco por conta do espaço que a personagem ganha nas mãos de Gerwig e muito pelo talento mais limitado de Emma Watson. Pelo menos em relação a Ronan e Pugh, que, convenhamos, são atrizes bem melhores que ela.

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Na pele da primogênita Jo, Saoirse Ronan nos entrega mais uma excelente performance.

No filme, a Jo de Ronan também sofre algumas mudanças que acrescentam ainda mais nuances ao personagem. E como Ronan é uma atriz incrível! Um ótimo exemplo disso é um lindo monólogo dito por Jo a sua mãe:

“I just feel like women, they have minds and they have souls, as well as just hearts. And they’ve got ambition and they’ve got talent, as well as just beaut, and I’m so sick of people saying that love is just all a woman is fit for. I’m so sick of it! But I’m so lonely.”

“As mulheres têm mentes e almas, não apenas corações. E eles têm ambição e talento, além de beleza, e eu estou tão cansada de pessoas dizendo que o amor é tudo o que uma mulher pode ter. Estou tão cansado disso! Mas me sinto tão só.”


O curioso é que essa fala tão reveladora sobre a personagem de Jo e tão importante para direcionar seu rumo na história do filme não está no livro Mulherzinhas, mas em outra obra de Alcott, Rosa em Flor, publicado oito anos depois. Menos a frase final (“mas me sinto tão só”), que foi uma inserção feita pela própria Gerwig.

Adoráveis Mulheres é clássico e fresco. Consegue o raro feito de soar moderno apenas adaptando em texto do século 19 sem transportar a história para os dias de hoje. Um filme muito delicado e urgente sem apelar para saídas fáceis. É a prova irrefutável do talento de Greta Gerwig como diretora. Aliás, o que mais as mulheres precisam provar como cineastas para ganhar o reconhecimento que merecem nas principais premiações de cinema pelo mundo?

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