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12/08/2020 16:55 -03 | Atualizado 12/08/2020 17:13 -03

Governo do Paraná fecha acordo com Rússia para testar vacina no Brasil

Anvisa ainda precisa liberar pesquisa, e cientistas russos não divulgaram resultados preliminares, diferentemente de outros países.

Mesmo sem compartilhamento de informações científicas sobre a vacina contra covid-19desenvolvida pela Rússia, o governo do Paraná informou nesta quarta-feira (12) que assinou um um acordo para desenvolvimento do imunizante no Brasil. É necessário que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorize qualquer tipo de pesquisa com esse objetivo.

Foi assinado um memorando de entendimento que dá início às tratativas para a parceira. Os termos foram firmados em reunião por videoconferência com o governador Ratinho Júnior (PSD), representantes do Executivo estadual, do Ministério da Saúde, da Anvisa e da embaixada da Rússia.

Em coletiva de imprensa nesta tarde, o diretor-presidente do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), Jorge Callado, admitiu que o acordo foi assinado sem qualquer compartilhamento de dados científicos. “Na tarde de hoje não tivemos informações sobre questões de segurança porque a força-tarefa que está sendo formada terá essa incumbência juntamente com o grupo de pesquisadores da Russia de fazer esse intercâmbio de informados”, disse.

Questionado sobre a credibilidade da iniciativa russa devido à falta de transparência em comparação com outras iniciativas, Callado afirmou que “sempre é bom ter mais uma alternativa”.

Diferentemente de outras candidatas à vacina, como a desenvolvida pela Universidade de Oxford e a produzida pela Sinovac, a iniciativa russa não apresentou os resultados preliminares das fases 1 e 2. 

De acordo com o laboratório russo Instituto Gamaleya essas etapas foram concluídas em 1º de agosto e a fase 3 - quando é verificada e eficácia - seria iniciada nesta quarta, com 2 mil voluntários em países como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Brasil e México.

Será criado um grupo de trabalho para que os resultados das fases 1 e 2 sejam compartilhados com o governo do Paraná e com o governo federal. A pesquisa e demais etapas no Paraná serão de responsabilidade do Tecpar, desde que ocorra a liberação da Anvisa. A previsão é de que a vacina seja distribuída no Brasil no segundo semestre de 2021.

Em nota enviada nesta terça-feira (11), a Anvisa informou que o “laboratório russo responsável pelo desenvolvimento da vacina não apresentou nenhum pedido de autorização de protocolo de pesquisa ou de registro da vacina”. De acordo com a agência, também não havia solicitação de qualquer entidade ou parceiro do imunizante russo. 

Manjurul via Getty Images
Diferentemente de outras candidatas à vacina, como a desenvolvida pela Universidade de Oxford e a produzida pela Sinovac, a iniciativa russa não apresentou os resultados preliminares das fases 1 e 2. 

Em coletiva de imprensa nesta tarde, o  diretor-presidente do Tecpar, Jorge Callado afirmou que trata-se de um acordo de cooperação e transferência de tecnologia e a parceria não envolve investimento financeiro neste momento. A previsão é de que inicialmente o IFA (ingrediente farmacêutico ativo) será importando da Rússia e depois poderá ser produzido no Brasil, mas esses pontos ainda serão definidos. 

Quanto à capacidade de produção do governo paranaense, Callado disse que qualquer ajuste depende da quantidade a ser produzida, ainda a ser definida. Ele afirmou que os investimentos deverão ser feitos pelos parceiros internacionais e admitiu que “vão buscar apoio do governo federal”. De acordo com o diretor, o valor médio de uma planta de fábrica é de R$ 80 bilhões. 

Segundo Callado, um protocolo de pesquisa será submetido à Anvisa para dar início aos próximos passos, que irá envolver hospitais universitários. A expectativa é que até segunda-feria seja publicado um decreto pelo governo do estado do Paraná que permitirá definir, junto com os russos, um cronograma e plano de trabalho.

Quanto ao teste clínico de fase 3, a intenção é aplicar as doses em “profissionais da áreas de saúde que estão na ponta da linha do atendimento da pandemia” e “possivelmente com alguns grupos de risco”, segundo Callado. Esses pontos também não foram formalmente definidos. 

Apesar de a previsão de produção brasileira no segundo semestre de 2021, Callado afirmou que algumas doses podem chegar antes no Brasil. “Isso não impede que o governo brasileiro faça a importação da vacina”, disse.

Rússia anuncia primeira vacina aprovada

Na terça, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse que o país tornou-se o primeiro do mundo a dar aprovação regulatória para uma vacina contra a covid-19 com menos de dois meses de testes em humanos.

A aprovação abre caminho para a imunização em massa da população russa, mesmo que o estágio avançado de ensaios clínicos para testar a eficácia e a segurança da vacina ainda não tenha sido concluído.A decisão do governo russo ocorreu antes do início de um teste mais amplo com milhares de voluntários. Em geral, é um requisito essencial para uma vacina receber aprovação regulatória. 

A postura dos russos tem sido duramente criticada pela comunidade científica. Em entrevista ao HuffPost, a epidemiologista Cristiana Toscano, única brasileira no Grupo Consultivo Estratégico de Especialistas em Imunização da OMS (Organização Mundial da Saúde), disse ser “especulação pura e simples” os anúncios sobre a vacina feitos por Moscou.

“Do ponto de vista do nosso grupo de trabalho, a gente absolutamente desconsidera qualquer uma dessas afirmações, porque a gente sabe que é impossível se realizar um estudo de fase 3 em um mês. Essa especulação traz insegurança, as pessoas ficam em dúvida. Isso é muito negativo”, afirmou Toscano, completando que a vacina foi testada em 18 participantes.

Após o anúncio feito por Putin, o porta-voz da OMS Tarek Jasarevic disse, durante um briefing em Genebra, que a organização está discutindo com autoridades de saúde da Rússia o processo para uma possível pré-qualificação pela OMS da vacina. “A pré-qualificação de qualquer vacina envolve análise e avaliação rigorosas de todos os dados de segurança e eficácia requeridos”, afirmou, se referindo aos ensaios clínicos.