OPINIÃO
13/01/2019 08:11 -02 | Atualizado 13/01/2019 08:11 -02

Como o pesadelo virou oportunidade para uma jovem congolesa no Brasil

Lucia e sua família vieram para o Brasil fugindo da perseguição e violência na República Democrática do Congo.

HuffPost Brasil

Aos 17 anos, Lucia levava uma vida protegida em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RDC). Da casa para escola, da escola para casa. Aos domingos, igreja. Sua rotina e a de seus seis irmãos parecia inabalável.

Seu pai, formado em finanças, trabalhava como funcionário público. Sua mãe, formada em relações públicas, também trabalhava na área. A vida da família congolesa era como a de muitas outras famílias de classe média na RDC, e a pobreza era algo distante. A cidade de Lucia era colorida e festiva, afastada da realidade de violência e medo que marca a vida de grande parte da população do país.

A República Democrática do Congo atualmente tem uma das situações humanitárias mais complexas e desafiadoras do mundo, com múltiplos conflitos que afetam várias partes de seu vasto território. Mais de 4,5 milhões pessoas estão deslocadas dentro do próprio país e não podem voltar para suas casas por conta da violência.

E um dia tudo mudou para Lucia. Ela admite que saiu de seu país sem saber o porquê e apenas depois de chegar ao Brasil foi entender o que aconteceu. Fugindo de ameaças de morte e perseguição política, seus pais decidiram que a única alternativa para a família era deixar o país com a roupa do corpo, em busca de segurança. Na época, ela era nova demais para participar dessa decisão.

“Quando cheguei aqui não acreditava que um dia iria falar português. No início, eu ainda estava em choque, não conseguia aceitar a nossa situação. Tive que deixar tudo na minha casa.”

Érico Hiller / ACNUR
"Quando cheguei aqui não acreditava que um dia iria falar português", diz Lucia.
Por mais de um ano, nós dependíamos da ajuda das pessoas para comer e nos vestir. Nos ajudaram muito. Mas um dia a ajuda acabou

Para entender sua própria história, Lucia foi, aos poucos, juntando fragmentos de acontecimentos. Lembrou que uma noite, voltando da igreja, a família foi seguida por um carro e sua mãe ficou nervosa. A casa foi assaltada e revirada e tiveram que contratar seguranças.

Em seguida, um telefonema ameaçador e três dias na casa de uma tia sem mais informações. Logo depois, em um dia de semana, ao invés de irem para a escola, foram para o aeroporto. Ninguém ficou sabendo de nada. “Nós crianças não éramos envolvidos nos assuntos dos adultos.” 

 

“Quando chegamos, o sonho virou pesadelo.”

Lucia depois descobriu que seu pai havia tentado levar a família para a França e a Bélgica. As tentativas de visto foram frustradas, pois só dariam para parte da família de 9 pessoas. Foi então que vieram para o Brasil. Seu pai já conhecia o País e sabia que havia uma política de visto humanitário favorável. Ao chegarem, seus pais não conseguiram emprego. E então a vida foi muito difícil por dois anos.

“Quando chegamos, o sonho virou pesadelo. Quando você sai de um país, você deixa a sua vida, que você achava boa, e acha que vai ser mais feliz porque vai encontrar coisas melhores que a sua antiga vida. Por mais de um ano, nós dependíamos da ajuda das pessoas para comer e nos vestir. Nos ajudaram muito. Mas um dia a ajuda acabou.”

 

Érico Hiller / ACNUR
Lucia com sua família, em São Paulo.

Hoje ela mora com a família no térreo de uma casa de três quartos no Capão Redondo, em São Paulo. No fogão, a mãe mistura farinha de mandioca e farinha de milho preparando o tradicional “fufu”, versão congolesa do nosso angu.

O cheiro de folha de mandioca refogada toma conta da casa. Ela vem de longe: a mãe sai do Capão Redondo e vai até o Brás, no centro de São Paulo, para comprar as folhas, trazidas por famílias congolesas do Rio de Janeiro. Não existe nada como o gosto de casa.

“O meu pai sente muita falta. Ele ainda tem a esperança de um dia poder voltar”, diz.

Na sala, seu pai assiste a um canal de notícias da RDC online e o francês dos jornalistas ecoa para os vizinhos. É difícil desapegar de velhos costumes. Isso também se refletiu quando Lucia e sua irmã começaram a trabalhar para sustentar a família. Na RDC, culturalmente é papel do homem prover para a casa. Na maioria das vezes, as mulheres não têm voz. 

“No início, meu pai não aceitou essa situação, ele ficou doente e minha mãe não falava muito, apenas tentava nos motivar. Isso me determinou a arrumar um emprego. Se todos estavam no chão, eu tinha que fazer alguma coisa. Ficamos quase dois anos nessa situação.”

Mas encontrar emprego não foi fácil. A situação da família sensibilizou parceiros do Acnur (agência de refugiados da ONU), que ajudavam sempre que possível. Um dia ela foi convidada para participar do Empoderando Refugiadas, um projeto de empregabilidade apoiado pelo Acnur.

“No início eu não tinha esperança, mas resolveram nos ajudar. Ficavam com pena da gente: 9 pessoas em uma casa e ninguém trabalhava. Não desisti. Me encaminharam para um curso de atendimento e depois fui contratada.”

 

Estou realizando meu sonho aqui. Não acredito que eu realizaria lá. Minha vida lá já estava planejada pelos meus pais
Érico Hiller / ACNUR
Lucia pega três conduções para chegar ao trabalho. 

Lucia trabalha como caixa em uma loja de departamento. Ela é formada em recursos humanos e faz uma pós em psicologia organizacional. Para sustentar a família, enfrenta uma jornada cansativa de trabalho e aulas. São três conduções apenas para chegar ao trabalho. 

“Hoje em dia tudo mudou. Sou mais madura e tento fazer o melhor para a minha família. Quero que meus pais vejam que eles não perderam nada. Meu pai gastou tudo o que tinha para virmos para o Brasil.”

Apesar de terem chegado aqui em 2015, os 9 ainda aguardam ansiosamente o status de refugiados. Com isso, as suas irmãs poderão acessar a universidade com mais facilidade, por meio de vagas destinadas para refugiados. A expectativa é que não terão tanta dificuldade em encontrar emprego para finalmente seguir em frente com suas vidas.

“Estou realizando meu sonho aqui. Não acredito que eu realizaria lá. Minha vida lá já estava planejada pelos meus pais.”

 

* Texto de Nina Borges, Acnur