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29/04/2020 15:46 -03 | Atualizado 08/05/2020 01:28 -03

Desigualdade social determinou acesso a testes na 1ª fase da covid-19 no Brasil, diz estudo

Dos 5,746 de testes feitos no Rio de Janeiro e em São Paulo até 25 de março, 66,9% foram em laboratórios privados.

Estudo feito por 38 pesquisadores, incluindo o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, e o ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis da pasta, Julio Croda, identificou que a disparidade socioeconômica determinou acesso aos testes na primeira fase da covid-19 no Brasil.

De acordo com uma versão pré-print [antes de ser publicado oficialmente em revista científica] da pesquisa Epidemiological and clinical characteristics of the early phase of the COVID-19 epidemic in Brazil, à qual o HuffPost Brasil teve acesso, dois terços (66,9%) dos 5.746 testes de diagnóstico feitos até 25 de março no Brasil nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro foram realizados em laboratórios privados, com custos que variaram entre R$ 300 e R$ 690.

Até essa data, 4 semanas após o primeiro caso confirmado da doença no Brasil, 67.344 casos foram notificados como suspeitos em 172 cidades nas 5 regiões do País. Destes, 1.468 casos foram confirmados (2,18%), incluindo 1.144 casos (77,9% dos confirmados) diagnosticados pelo exame RT-PCR e 324 (22,1% de 1.468) por razões clinicamente epidemiológicas. O teste RT-PCR é feito a partir de amostras de saliva e secreção nasal.

Durante esse período, o Ministério da Saúde recebeu outras 965 notificações, totalizando 2.433 casos confirmados durante o primeiro mês da pandemia do novo coronavírus.

Baseado nesses dados oficiais, os pesquisadores identificaram que 35% (517 de 1.468) do total de casos na primeira fase da doença foram importados, sendo que 326 tinham informações sobre o país para o qual a pessoa viajou: 82 dos Estados Unidos e 71 da Itália. Os dois países estão entre os mais afetados pela crise sanitária. Segundo o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins, enquanto o recorde de mortes está na Itália (27.682), o de diagnósticos está nos Estados Unidos (1.023.304), de acordo com dados atualizados até esta quarta-feira (29).

Além do fato de viagens internacionais serem mais acessíveis para brasileiros com renda mais alta e do alto número de diagnósticos privados, a partir de  informações residenciais geocodificadas de 13,913 casos notificados na grande São Paulo, a pesquisa identificou que a proporção de casos testados aumentou conforme aumentou a renda per capita. “No geral, houve uma tendência notável de alta na associação entre taxa de teste e renda per capita, revelando uma disparidade socioeconômica cada vez maior na aplicação de testes à medida que o número de casos aumentava”, diz o documento.

De acordo com o estudo, “a distribuição de renda da fração não testada se aproxima cada vez mais da média para a grande São Paulo, enquanto a rede de pessoas testadas e confirmados são consistentemente mais altas durante o período do estudo”. Houve também um aumento da proporção entre casos testados e renda na segunda, terceira e quarta semana da pandemia, em comparação com a primeira.

Acesso a testes no Brasil

Na avaliação dos pesquisadores, a melhora do aspecto socioeconômico da vigilância em saúde no Brasil é essencial para entender e interromper a transmissão SARS-CoV-2. Para eles, a combinação do acesso universal ao diagnóstico e o sucesso das intervenções ditará o destino da pandemia no Brasil. “Juntamente com mudanças nas diretrizes de vigilância, o viés socioeconômico nos testes sugere que o número de contagens confirmadas de casos pode subestimar substancialmente o número real de casos no população”, diz o documento.

O exame RT-PCR tem sido direcionado apenas aos casos graves. Desde o início da pandemia no País, a orientação tem sido para que apenas pacientes com sintomas severos procurem o sistema de saúde. Há também um represamento nos laboratórios estaduais.

Segundo boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde nesta segunda-feira (27), até 26 de abril, havia 92.006 testes aguardando análise e outros 43.803 testes haviam sido solicitados eletronicamente, mas as amostras ainda não tinham sido recebidas no Laboratório Central de cada estado.

Dos 224.196 exames realizados, 41.792 (18,6%) apresentaram resultado positivo/detectado para vírus respiratórios. O novo coronavírus foi identificado em 34.045 amostras, a maioria nos estados de São Paulo (8.757), Ceará (4.195), Pernambuco (3.312), Amazonas (2.880) e Rio de Janeiro (2.509). Diferente dos dados divulgados diariamente pela pasta, esse balanço não inclui resultados de laboratórios particulares. Até 26 de abril, o número total de casos confirmados já atingia 61.888.

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“Juntamente com mudanças nas diretrizes de vigilância, o viés socioeconômico nos testes sugere que o número de contagens confirmadas de casos pode subestimar substancialmente o número real de casos no população”, diz estudo.

Hospitalizações por covid-19 no Brasil

O estudo também analisou dados de saúde dos infectados: 12,5% tinham ao menos alguma comorbidades, como cardiopatia ou diabetes. O percentual subia para 40% entre os hospitalizados. Entre todos diagnosticados nessa fase inicial, 10% foram hospitalizados, sendo que anormalidades na radiografia de tórax e saturação de oxigênio no sangue abaixo de 95% são fatores fortemente associados à hospitalização. Entre os internados, 15,6% precisaram de ventilação mecânica e o tempo médio desde o início dos sintomas até a internação foi de 4 dias. 

A idade média dos internados era de 55 anos, já a dos diagnosticados era de 39 anos, sendo que 48,9% dos casos confirmados estavam na faixa etária de 20 a 39 anos e 51,6% dos casos testados pertenciam a esse grupo etário, o que é substancialmente maior que o correspondente fração da população brasileira (32%).

Segundo os pesquisadores, esse fenômeno poderia ser explicado por um maior risco de exposição desse grupo devido a freqüência de viagens internacionais (já que as proibições de viagens foram implementadas apenas em 23 de março de 2020) e o fato de jovens terem menor probabilidade de adquirir uma infecção mais grave. 

No geral, 10% dos casos de covid-19 no Brasil foram hospitalizados, contra 19% nos EUA. Essas diferenças podem refletir outros fatores além da gravidade da doença, como disponibilidade de recursos, diretrizes locais de prática clínica e disponibilidade de testes. Por outro lado, outra explicação pode ser devido à temporalidade da epidemia nos dois países e diferenças entre o tempo de sentir os sintomas e ser internado.

Embora a idade não seja um fator de risco de hospitalização após controle de comorbidades, deve-se notar que a distribuição etária entre os pacientes hospitalizados diferiram dos relatados na China, com maior proporção de jovens (24,5% das pessoas abaixo de 39 anos no Brasil e 10% na China) do que de idosos (21,8% de maiores de 70 anos no Brasil contra 15% na China). Essas comparações, contudo, precisam ser feitas com cautela devido a testagens diferentes e práticas de notificação distintas entre os dois países.

Como foi feito o estudo

O estudo foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e elaborado a partir de dados de covid-19 no Brasil entre 25 de fevereiro e 25 de março a fim de investigar perfis demográficos, fatores socioeconômicos e estrutura de idade e gênero dos casos testados na primeira fase da doença. Foram obtidos 2.429 casos testes laboratoriais para 8 vírus respiratórios. Análises de regressão logística multivariada foram usadas para identificar sintomas associados a casos confirmados e fatores de risco associados a hospitalização.

As instituições brasileiras envolvidas na pesquisa são Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ministério da Saúde, Universidade Federal da Grande Dourados, Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

O trabalho também foi feito por pesquisadores das seguintes organizações estrangeiras: Universidade de Oxford (Reino Unido), Instituto Gorgas de Estudos da Saúde (Panamá), Universidade de Groningen (Holanda), Instituto de Pesquisa , Universidade de San Francisco de Quito (Equador), Universidade de Harvard (EUA), Hospital Infantil de Boston (EUA), Escola de Medicina Tropical de Londres (Reino Unido), Central South University (China), Universidade de Southampton (Reino Unido) e Imperial College London (Reino Unido).

O financiamento foi feito pela Fundação de Pesquisa de São Paulo, pelo Conselho de Pesquisa Médica, pela Wellcome Trust e pela Royal Society.