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20/01/2020 16:46 -03

Ação satânica, assessores esquerdistas e outras desculpas para o caso Alvim

Agora ex-secretário de Cultura diz desconfiar de 'ação satânica' na produção do vídeo em que repete frases de ministro nazista e que levou à sua demissão.

Reprodução/Twitter
Alvim anuncia, em vídeo, prêmio de Cultura usando frases do ministro nazista Joseph Goebbels e ópera de Wagner, compositor do qual Hitler era fã.

Roberto Alvim continua dando o que falar. Demitido do posto de secretário nacional de Cultura na última sexta-feira (17) após publicar um vídeo em que repetia frases de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Alvim disse, em mensagem enviada a grupos de WhatsApp, desconfiar de uma “ação satânica” no episódio.

Isso porque ele continua sustentando que não sabia a origem da frase do ministro nazista. 

A mensagem foi divulgada no perfil do Facebook do olavista Josias Teófilo, que dirigiu o filme O Jardim das Aflições, sobre Olavo de Carvalho - de quem Alvim também é seguidor. “Não estou endossando a mensagem, apenas compartilhando”, escreveu Teófilo.

Reprodução/Facebook

No texto, Alvim diz que ele mesmo escreveu o texto do discurso no vídeo “a partir de várias fontes e ideias”, que chegaram a ele “de muitos lugares”. “Eu afirmo que não sabia que aquela frase tinha uma origem nazista, porque
a frase em si não tinha nenhum traço de nazismo, por isso não percebi nada errado ali”, disse.

Ele também afirma que sua mulher postou a ópera Lohengrin, de Wagner, “pouco tempo antes no facebook, por puro acaso”. “Acho a ópera linda, e a coloquei por se tratar da ópera escrita após a conversão de Wagner ao cristianismo”, afirma. Hitler era fã de Wagner e usava suas composições em eventos nacionalistas. Alvim fala, no vídeo, com Lohengrin ao fundo.

Estou orando sem parar, e começo a desconfiar não de uma ação humana, mas de uma ação satânica em toda essa horrível históriaRoberto Alvim, ex-secretário de Cultura

“Foi tudo uma série terrível de eventos e coincidências que levaram a essa catástrofe...”, disse. “Estou orando sem parar, e começo a desconfiar não de uma ação humana, mas de uma ação satânica em toda essa horrível história”, disse.

Mas essa não foi a primeira explicação bizarra para o vídeo polêmico. Relembre as outras abaixo:

Ideias trazidas por assessores

Em um post publicado na sexta em seu perfil no Facebook - e já retirado -, Alvim diz que as ideias do vídeo “ligadas à arte nacionalista” foram “trazidas por assessores”. 

“No meu pronunciamento, havia uma frase parecida com uma frase de um nazista. Não havia nenhuma menção ao nazismo na frase, e eu não sabia a origem dela. O discurso foi escrito a partir de várias ideias ligadas à arte nacionalista, que me foram trazidas por assessores”, escreveu.

O ‘deep state’

O guru do Bolsonarismo, Olavo de Carvalho, depois de afirmar que “talvez Alvim não esteja muito bem da cabeça”, questionou seus leitores sobre “QUEM enxertou a frase do Goebbels no discurso do Alvim (...) e ainda reforçou a coisa com um fundo musical de Richard Wagner”.  

“O episódio revela o poder e o espírito criminoso do ‘deep State’”, completou.

 
Reprodução/ Facebook

Conspiração de um ‘funcionário sacana’ com a imprensa

Olavo de Carvalho fez vários posts sobre como Alvim teria sido ludibriado. Em outro, diz que ”é óbvio que algum funcionário sacana fez isso [enxertou a frase no discurso de Alvim] e depois avisou o jornalista, que, esfregando as mãos de prazer, deu no Alvim o tiro de misericórdia”.

O pior: fala para “interrogar” o jornalista que deu primeiro a semelhança entre os discursos “e acabarão sabendo de onde veio a coisa toda”.

Reprodução/Facebook

Coincidência retórica 

Mas antes de tudo isso, Alvim postou em seu Facebook (e depois apagou) que tudo não passava de uma “coincidência retórica”.

“Foi apenas uma frase do meu discurso na qual havia uma coincidência retórica. Eu não citei ninguém. E o trecho fala de uma arte heróica e profundamente vinculada às aspirações do povo brasileiro. Não há nada de errado com a frase”, escreveu anteriormente.

Ele ainda acrescentou: “A frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo
- é o que queremos ver na Arte nacional”.

Bem, a frase era essa: “A arte brasileira da próxima década será heróica e nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”.

A do ministro nazista foi essa: “A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”.

Tire suas próprias conclusões.