MULHERES
11/10/2020 03:00 -03

Casos de ‘pornô de vingança’ e ‘sextorsão’ aumentam durante o isolamento ao redor do mundo

No Reino Unido, por exemplo, o serviço de atendimento registrou mais casos até o momento em 2020 do que durante o ano de 2019. Mulheres são as principais vítimas.

Tero Vesalainen via Getty Images
O compartilhamento de imagens e vídeos privados ou sexuais de uma pessoa sem seu consentimento é crime na Inglaterra e no País de Gales desde abril de 2015.  

A linha de atendimento que lida com casos de “pornô de vingança” no Eino Unido recebeu mais casos este ano do que em 2019 inteiro, gerando o temor de um “novo normal” no que diz respeito a esse tipo de abuso.

Até agosto, cerca de 2.050 denúncias foram recebidas pelo serviço, que é financiado pelo governo. Isso significa um aumento de 22% nos 1.685 casos registrados em 2019, o ano com o maior número de denúncias.

O serviço de atendimento telefônico, administrado pela ONG SWGfL, parte do UK Safer Internet Centre, contabilizou quase o dobro de casos em abril em comparação com o mesmo mês do ano anterior – o total passou de 122 para 242.

Esperava-se que o número caísse, mas ele se manteve em alta mesmo com o relaxamento das medidas de isolamento.

De abril até o final de agosto, foram feitas 1.387 notificações, o equivalente a 9 por dia. Somente em agosto, a central de atendimento atendeu 285 casos, um aumento de 63% em relação aos 175 de agosto de 2019.

O compartilhamento de imagens e vídeos privados ou sexuais de uma pessoa sem seu consentimento é crime na Inglaterra e no País de Gales desde abril de 2015.

Uma pesquisa da ONG Refuge indica que uma em cada sete mulheres jovens sofreu ameaças de que suas imagens íntimas seriam compartilhadas sem seu consentimento, sugerindo que essa é uma forma comum de abuso.

Cerca de dois terços dos casos notificados à linha de apoio envolvem mulheres. O serviço ajudou a remover 22.515 imagens este ano ― 94% das 23.913 relatadas pelas vítimas.

Os especialistas estimam que o total de casos no Reino Unido pode chegar a 2.700 até o final do ano – um crescimento de 60% em relação a 2019.

A responsável pela central de atendimento, Sophie Mortimer, acredita que o aumento sinaliza um comportamento de longo prazo desencadeado pela quarentena e também uma conscientização maior do problema e dos recursos existentes. “É interessante que [os números] não tenham caído. Para mim, isso realmente confirma que estávamos apenas vendo a ponta do iceberg”, disse ela à agência de notícias Press Association.

“Acho que isso mostra que tem muito mais coisa acontecendo entre quatro paredes. Com as pessoas forças a ficar dentro de casa, esse tipo de comportamento se intensificou.”

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Durante a pandemia, as taxas de violência doméstica cresceram em diversos países, incluindo o Brasil. 

Os casos de “sextorsão” - quando alguém ameaça distribuir informações privadas e sensíveis caso a vítima não entregue imagens de natureza sexual - também aumentaram desde o início do isolamento social e agora representam quase um quinto (18%) das ligações recebidas pela central de atendimento. Antes do lockdown, eles respondiam por 13% do total.

Enquanto cerca de três quartos dos 363 casos de “sextorsão” deste ano envolveram vítimas do sexo masculino, os números sugerem que as mulheres também cada vez mais são vítimas dessa forma de abuso. Em março e julho, 30% dos casos de “sextorsão” registrados envolviam mulheres.

David Wright, diretor do UK Safer Internet Centre, afirma: “O lockdown produziu um conjunto extremo de circunstâncias que criam muitos problemas. O que estamos vendo aqui, no entanto, sugere um fenômeno de mais longo prazo, o que sugere que estaremos mais ocupados do que nunca. É preocupante pensar que esse possa ser o novo normal”.

Durante a pandemia, as taxas de violência doméstica cresceram em diversos países, incluindo o Brasil. Especialista ouvidas pelo HuffPost Brasil apontam que, para algumas mulheres que já vivenciam um ambiente violento, não sair de casa pode ser sinônimo de mais vulnerabilidade.

A fim de orientar governos, a ONU Mulheres publicou um estudo sobre as dimensões de gênero na resposta ao novo coronavírus na América Latina. Nele, a organização ressalta que “as mulheres continuam sendo as mais afetadas pelo trabalho não-remunerado, principalmente em tempos de crise”.

O documento ainda faz uma série de recomendações, incluindo garantir a continuidade dos serviços essenciais para responder à violência contra mulheres e meninas, justamente porque mesmo aquelas que não estão na mesma casa que seus agressores também podem estar mais vulneráveis.

“De acordo com diversos meios de comunicação, publicações em mídias sociais e especialistas em direitos das mulheres, diferentes formas de violência online estão em ascensão, incluindo perseguição, bullying, assédio sexual e trollagem sexual”, afirma a entidade no documento.

Dados da ONG SaferNet mostram que as denúncias de violência e discriminação contra mulheres em sua Central Nacional de Crimes Cibernéticos cresceram 21,27% em abril de 2020, em relação ao mesmo período no ano passado, com 667 registros. 

Desde 2018, com a lei de importunação sexual, é prevista a punição de 1 a 5 anos para quem divulga cena de estupro, sexo ou nudez sem o consentimento da vítima.

A pena chega a 8 anos caso se trate de ‘revenge porn’, em que o autor é alguém com quem a vítima manteve relação íntima e fez a divulgação com objetivo de se vingar.

Veja como procurar ajuda durante o período de pandemia.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

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