Quando 'só um copinho' vira alcoolismo e o que a pandemia tem a ver com isso

Pesquisa mostra que quase 20% dos brasileiros estão bebendo mais desde o início da quarentena motivada pelo novo coronavírus. É necessário estar atento a consumo abusivo do álcool.

“Testei positivo pra vontade de beber hoje”, “Não vejo a hora de ouvir o barulho da latinha abrindo”, “hoje vou tomar uma tacinha porque eu mereço”, “Meio-dia e vou abrir uma cerveja, fo*****”.

Se desde o início da pandemia do coronavírus no Brasil você não leu posts de amigos escrevendo esse tipo de coisa nas redes sociais, o amigo que avisa que está bebendo nas redes sociais é você.

Eu sei que dizem que só uma tacinha de vinho ou uma latinha de cerveja pode não fazer mal a ninguém. Mas quando “só uma”e “só hoje” acabam entrando na rotina, é hora de de acender o alerta pois pode ter coisa muito errada por aí. E com o isolamento social por causa da covid-19, isso está mais próximo e é tão comum como o ato de lavar as latinhas de cerveja depois que elas chegam do supermercado.

De acordo com o estudo Convid, realizado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), 18% dos brasileiros estão bebendo mais desde o começo da pandemia. O maior crescimento aconteceu entre pessoas de 30 a 39 anos.

O aumento do consumo também foi relatado pelas pessoas que se sentiram mais tristes e deprimidas neste período. A pesquisa foi feita com 44.602 pessoas entre 24 de abril e 8 de maio.

Já o estudo CovidPsiq, realizado por pesquisadores de diversas universidades brasileiras liderados pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), mostrou que 61% das pessoas em isolamento social consumiram álcool. Dessas, 30% aumentaram o consumo durante o período de pandemia.

Esta pesquisa apontou algo semelhante ao revelado pela Fiocruz: o aumento no uso de álcool ou substâncias ilícitas durante o período de isolamento social é associado a sintomas de estresse e depressão.

A percepção de que temos mais posts e memes nas redes sociais ligando bebidas ao alívio do estresse e da sensação de incerteza que vivemos no dia a dia não é mera coincidência.

E isso não acontece só no Brasil. Um artigo científico, publicado na revista Alcohol and Drug Review, por um grupo internacional de pesquisadores, com participação da OMS (Organização Mundial da Saúde), aponta que a angústia psicológica, o isolamento social e a incerteza sobre o futuro, causados pela pandemia, estão levando a um aumento na procura por bebidas alcoólicas no mundo.

Uma das coautoras do artigo, Zila Sanchez, professora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explicou ao HuffPost Brasil que a expectativa era de que os brasileiros beberiam menos neste momento de isolamento social, mas isso não aconteceu.

“Os brasileiros estão bebendo mais na quarentena pois estão com mais medo do futuro e mais tempo livre. A gente acreditou que o consumo seria menor porque as pessoas bebem muito fora de casa. Mesmo com toda a limitação dos bares fechados, as pessoas estão bebendo em casa por estarem expostas às promoções, e está ficando mais fácil e barato comprar agora que no passado.”

- Zila Sanchez, professora da Unifesp

Estudiosa de epidemiologia e prevenção ao uso de drogas, Sanchez explica que o álcool pode ser um grande vilão deste momento difícil. “As pessoas estão argumentando que bebem para lidar com a ansiedade, depressão e o medo. O álcool pode dar um alívio imediato, mas exacerba todos esses transtornos mentais. A pessoa bebe para dormir, mas o álcool altera o ciclo de sono e isso vai aumentar a insônia. Então só piora; a ansiedade só aumenta. Você pode ter por algumas horas uma sensação de relaxamento, mas o problema se potencializa”, descreve.

Além de tudo isso, é importante frisar que beber álcool com frequência enfraquece o sistema imunológico e pode aumentar o risco de infecções bacterianas e virais — e, como você já deve estar cansado de saber, a covid-19 é causada por um vírus, o Sars-CoV-2.

Mas, afinal, quando ‘só um copinho’ vira abuso ou alcoolismo?

Você é daquelas pessoas que conta os minutos para a semana acabar logo e poder dizer que finalmente SEXTOU??? Pra muita gente, o sextou está diretamente ligado ao consumo de bebidas alcoólicas. É uma tacinha de vinho, uma cerveja long neck, uma dose de whisky. Às vezes é isso vezes dois. Ou vezes quatro. O problema é quando é vezes dez, vezes vinte...

A perda de controle da vida e a total entrega à bebida vão implicar o diagnóstico de alcoolismo. É uma doença caracterizada por uma série de comportamentos, como “a pessoa precisar substituir compromissos diários pela bebida, prejudicar as suas atividades como um todo, ter grande tolerância ao álcool e ter síndrome de abstinência” se ficar sem ele.

Mas antes de chegar a esse estado crítico, existe o abuso de álcool — que também é um problema. Isso está muito mais presente na rotina dos brasileiros desde o começo da pandemia.

A professora Zila Sanchez explica que o abuso acontece quando existe uma constante vontade de beber. “As pessoas têm começado a beber mais cedo durante o dia e ainda bebem várias vezes ao dia. Então, o álcool começa a fazer parte da rotina, o corpo fica sob efeito do álcool o dia todo e vai se acostumando com a presença dessa bebida. É quando a pessoa diz ‘só vou beber esse copo’ e acaba bebendo três ou quatro”, explica Sanchez.

Ela alerta ainda que não existe uma dose segura para o consumo de álcool pelas pessoas. Há quem diga que se beber quantidade A ou B de bebida pode ser seguro, mas não.

“A gente tem estudos já mostrando que mesmo uma dose de álcool por dia aumenta a chance de ocorrência maior de doenças crônicas não-transmissíveis como por exemplo questões cardiovasculares, problemas gastrointestinais, de fígado, que não necessariamente só ocorrem se você for um alcoolista.”

A professora também nos explica que um quadro de alcoolismo pode demorar anos, às vezes décadas para ser detectado. Mas se houver um grande abuso constante no consumo de álcool, algo que pode acontecer em uma pandemia, esse tempo pode até diminuir.

E o que fazer quando se dar conta de que está bebendo demais? Sanchez relembra que não existe uma dose segura de álcool, mas se a pessoa optar por beber mesmo assim, “o menos arriscado é beber durante as refeições e tentar se manter em uma dose por dia, que seria o padrão de menor risco. O efeito do álcool acaba sendo menor ao diluir no processo de digestão”.

Neste momento em que vivemos uma pandemia, estas são as orientações da OMS em relação a como lidar com o consumo de álcool.

  • Evite o consumo (ou diminua a quantidade e frequência)
  • Evite estocar bebida em casa para assim diminuir o consumo
  • Evite beber para lidar com emoções e medos. A combinação de isolamento e bebida alcoólica pode aumentar o risco de suicídio
  • Não misture álcool com medicamentos, todos podem ter seus efeitos prejudicados pela bebida
  • Evite o consumo de álcool se você fuma ou parou de fumar
  • Converse com as crianças sobre álcool e covid-19
  • Tenha certeza de que crianças e adolescentes não têm acesso fácil ao álcool
  • Procure ajuda se o seu consumo ou de algum conhecido está fora de controle

O consumo excessivo de álcool já estava presente antes da pandemia

O número de adultos que bebem de forma abusiva vem crescendo no Brasil nos últimos anos. Uma das pesquisas mais abrangentes da saúde da população brasileira é a Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco para doenças crônicas não transmissíveis do Ministério da Saúde), realizada anualmente nos 26 estados e no Distrito Federal.

Os dados de 2019 mostram que a população brasileira está comendo mais frutas e hortaliças e fazendo mais atividades físicas. Ao mesmo tempo, aponta diversas características nada animadoras, como o aumento da obesidade, da diabetes e do consumo excessivo de álcool.

Levando em consideração ambos os sexos, em 2006 (primeiro ano de realização da pesquisa) 15,7% da população abusava no consumo do álcool. Esse dado aumentou para 18,8% dos brasileiros em 2019. Se olharmos só para as mulheres, em 2006 7,8% abusavam do consumo do álcool, enquanto em 2019 o número subiu para 13,3% - o maior índice desde o início da Vigitel.

Proporção de mulheres que abusam do álcool cresceu de 7,8% em 2006 para 13,3% em 2019, segundo a Vigitel.
Proporção de mulheres que abusam do álcool cresceu de 7,8% em 2006 para 13,3% em 2019, segundo a Vigitel.

É pensando nas mulheres e o consumo excessivo de álcool que surgiu o Alcoolismo Feminino, coletivo de mulheres em busca de recuperação. Concebido em 2019 e lançado em fevereiro deste ano, é um espaço de acolhimento para mulheres dependentes. A idealizadora do projeto é a publicitária Grazi Santoro, de 50 anos, carioca que hoje mora em Belo Horizonte e que está há 14 anos sem beber.

Em entrevista ao HuffPost, ela nos conta que a sua recuperação começou em reuniões do Alcoólicos Anônimos. Com o tempo, Santoro percebeu que muitas mulheres entravam no AA e desistiam do tratamento porque o grupo é predominantemente masculino. Por isso a ideia de criar um grupo similar voltado só para mulheres. “Nos grupos elas podem falar com total liberdade sobre o que estão passando pois todas nós já passamos pela mesma situação”, conta.

Com o lançamento no início do ano, o grupo teve de se adaptar aos tempos de isolamento social. Ao mesmo tempo, Santoro viu a demanda crescer. “O coletivo só cresceu tão rápido por conta da pandemia, pois as pessoas estão bebendo mais, a busca por bebidas alcoólicas está muito maior”, justifica.

Além das reuniões semanais, cinco grupos de WhatsApp foram criados para atender a todas neste momento. Eles estão divididos entre moradoras de São Paulo, Rio de Janeiro, Centro-Oeste e Sul, Norte e Nordeste e outro voltado às mulheres LGBT.

“Sempre que elas têm vontade de beber, elas gritam, pedem ajuda, nós ligamos para conversar, as mais experientes ajudam as que estão começando agora. Nós dizemos que somos um jardim de girassóis pois em dias nublados os girassóis compartilham a energia que têm com os mais fracos e nós fazemos o mesmo”. Somadas, 170 pessoas participam de todos os grupos.

Além das dificuldades do dia a dia nas reuniões semanais e nos grupos de WhatsApp, o projeto também serve para como companhia e um momento para compartilhar alegrias e vitórias. “Todo mês nós realizamos um happy hour sem álcool em que nós conversamos muito, dançamos, ouvimos música, para comemorar o aniversário de sobriedade.”

Neste momento em que vivemos uma pandemia, Santoro identifica dois comportamentos entre as alcoolistas: “quem bebia na rua e que está agradecendo ao isolamento pois está conseguindo se controlar e quem bebe em casa e na verdade está tendo mais problemas agora”.

Ela conta a história de uma pessoa que tirou de casa todas as bebidas e produtos com álcool e que começou a beber álcool gel, algo tão presente e importante neste momento em que enfrentamos o coronavírus. “Por isso que aqui em casa não tem álcool em gel; é só água e sabão, mesmo estando sem álcool há 14 anos”, revela.

No Instagram, elas compartilham informações sobre o projeto e dicas de como se manter longe do álcool.

E o que o futuro nos reserva?

Muita gente sonha em poder sentar de novo em uma destas mesas de bar coloridas com cadeiras de plástico, iguais à imagem abaixo, pra tomar umas cervejas e jogar conversa fora com os amigos. É necessário ter prudência, pois sem controle a conta pode sair mais cara do que se imagina.

A epidemia de SARS (outro tipo de coronavírus) levou a um sério aumento no consumo de álcool um ano depois do fim do surto da doença, em 2004. Uma pesquisa realizada em Hong Kong mostrou que 4,7% dos homens e 14,8% das mulheres do país passaram a beber mais. O número é 1,5 vez maior entre profissionais de saúde que atuaram na linha de frente contra o vírus da época.

Não sabemos o que vai acontecer em 2021 quando essa pandemia passar, mas é importante olhar para o passado para ficar em alerta sobre o futuro, como explica a professora Zila Sanchez:

“Em diversos episódios de pandemia, terremotos, desastres naturais e crises econômicas sérias, o alcoolismo persistiu após a superação desses eventos. E ainda aumentou a taxa de pessoas dependentes de álcool um ano depois. Tudo indica que o nosso sistema de saúde vai ter de enfrentar essa situação daqui a alguns anos, decorrente do que está acontecendo hoje.”

Por isso, fique atento aos sinais de seu corpo e sua mente. Se você precisar de ajuda procure familiares, amigos, conhecidos que possam te amparar, dar apoio moral e psicológico. Se precisar, procure ajuda de um profissional ou de instituições como o Alcoólicos Anônimos ou o Narcóticos Anônimos.