OPINIÃO
22/10/2020 10:30 -03 | Atualizado 22/10/2020 10:30 -03

Movimento 'Cadê o Absorvente?' denuncia tabu e pobreza menstrual no Brasil

Para garantir dignidade menstrual a pessoas em situação de vulnerabilidade, movimento reúne assinaturas em petição aberta na plataforma Change.org.

Vladimir Sukhachev via Getty Images
Movimento "Cadê o Absorvente?" denuncia pobreza menstrual no Brasil.

No ano passado, o filme Period, com título em português Absorvendo o Tabu, venceu o Oscar de melhor curta-documentário ao tratar do estigma da menstruação e da dificuldade de acesso a absorventes higiênicos na Índia rural. No Brasil, o movimento “Cadê o Absorvente?” vem denunciando uma realidade similar, que mostra como o assunto é invisibilizado e como menstruar com dignidade ainda é luxo em um país que enfrenta situações de extrema pobreza.

O movimento, idealizado pelas empresas coirmãs Herself e Herself Educacional, que atuam no combate à pobreza menstrual desde 2018, lançou um abaixo-assinado na internet para chamar a atenção da sociedade ao fato de que 26% das adolescentes brasileiras, entre 15 e 17 anos, não têm acesso a produtos higiênicos durante o período menstrual. O dado faz parte de uma pesquisa realizada há 2 anos pela marca de absorventes Sempre Livre. 

A petição online, que já reúne mais de 40 mil apoiadores, está aberta na plataforma Change.org. Na mobilização, o movimento destaca que as estudantes em situação de vulnerabilidade chegam a perder até 5 dias de aulas por mês por estarem menstruadas e não terem protetores íntimos. Mulheres que vivem nas ruas também não têm acesso a esses produtos, e grande parte das presidiárias chega a usar miolo de pão como absorvente.

“A gente busca ter cada vez mais dados para conseguir tangibilizar esse impacto”, conta Raíssa Assmann Kist, cofundadora da Herself, ressaltando que os absorventes são muito caros no Brasil e que famílias de baixa renda se veem em um dilema entre comprar comida ou um protetor menstrual. 

Muitas mulheres, muitas meninas sofrem e deixam de se desenvolver por conta da menstruação, de não conhecerem o seu corpo e de não terem acesso a protetores.Raíssa Assmann Kist, cofundadora da Herself

Entre as propostas de combate à pobreza menstrual que o movimento “Cadê o Absorvente?” sugere no abaixo-assinado estão políticas públicas que tragam autonomia e dignidade a meninas, mulheres, homens trans e todas as pessoas que menstruam. 

Distribuição de absorventes sustentáveis em postos de saúde e presídios; redução de impostos sobre os protetores menstruais; criação de cooperativas de produção de absorventes com mulheres em situação de vulnerabilidade; inclusão desses produtos na cesta básica; e acesso a saneamento básico fazem parte de algumas das propostas apresentadas.

“É uma problemática complexa que demanda vários atores. A gente acredita na sociedade civil envolvida com a questão de voluntariados, grupos, entidades públicas e privadas, políticas públicas que reforcem e garantam essa promoção pública, que é de dignidade na vida das pessoas que menstruam”, afirma Raíssa sobre a busca por soluções. 

Em algumas unidades federativas tramitam projetos de lei sobre o tema. No Rio Grande do Sul, a deputada estadual Luciana Genro (PSOL) apresentou um PL para definir diretrizes à política pública “Menstruação Sem Tabu” de conscientização e universalização do acesso a absorventes higiênicos.

No Distrito Federal, a deputada distrital Arlete Sampaio (PT) tenta incluir itens na Política de Assistência Integral à Mulher para a disponibilização de insumos de higiene e absorventes higiênicos em postos e escolas, além de atenção à parte educacional. 

Em julho, o Rio de Janeiro aprovou a primeira medida para a dignidade menstrual. Foi alterada a Lei Estadual de número 4.892, de 1º de novembro de 2006, para incluir o absorvente higiênico entre os produtos que compõem a cesta básica no âmbito do Estado.  

Tabu e Educação

Divulgação
Ações educativas são promovidas em comunidades com intuito de combater pobreza menstrual.

Além da pressão na esfera política, o movimento “Cadê o Absorvente?” promove ações educativas em comunidades, reunindo profissionais da saúde e da educação, ativistas, coletivos e pesquisadoras a fim de combater a pobreza menstrual com informação e soluções de protetores menstruais que atendam as especificidades de cada localidade. 

São realizadas oficinas de fabricação de bioabsorventes para que meninas e mulheres produzam protetores higiênicos para si e para sua comunidade, com redução de custos e geração de autonomia. Ainda são feitas rodas gratuitas de educação menstrual, que levam conhecimento sobre a fisiologia da menstruação e desconstroem tabus. Por conta da covid-19, os workshops estão sendo feitos online. O próximo será no dia 27, veja aqui como participar.

“A gente percebeu que o nosso impacto transformava muito a vida dessas mulheres”, comenta Raíssa. A estudante de Políticas Públicas explica que a atuação se concentra em “dois braços” principais: pensar em inovação como uma forma de possibilitar o acesso a protetores menstruais para mais pessoas, e oferecer informação de qualidade sobre o funcionamento do próprio corpo, o que garante, em sua opinião, uma primeira autonomia.

O grupo ainda faz um mapeamento para conectar iniciativas e ações que envolvem a dignidade menstrual no Brasil. “Meninas e pessoas na sua primeira menstruação, que não entendem e não sabem o que é a menstruação, se assustam. E começa todo um ciclo de estigmas, constrangimento, de vergonha, que é um ciclo que limita o desenvolvimento dessas pessoas, e é isso que a gente quer romper”, detalha a cofundadora da Herself. 

Raíssa destaca que a falta de informação e o tabu também impedem as pessoas que menstruam a lidarem de maneira natural e sem constrangimentos com o período menstrual.

No Brasil, a gente usa inúmeros eufemismos para falar [de menstruação]. E aí, quando a gente não está falando a palavra, não está nomeando, a gente já está invisibilizando a causa, invisibilizando os corpos que menstruam.

Com ações locais iniciadas no ano passado, na região metropolitana de Porto Alegre (RS), atualmente o “Cadê o Absorvente?” já se estende por outros estados brasileiros, como São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Bahia, Rio de Janeiro e Maranhão, contando com o envolvimento de grupos ativistas como a ONG Não Me Kahlo, Filhas de Frida, O Ponto Gi, Aquilomar, DisrupDiva e os coletivos Eco_nomia, Madas, Maria Aragão e Geralda.  

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