MULHERES
06/05/2019 01:00 -03

O aborto que sofri me ensinou tudo que eu precisava saber sobre ser mãe

Tive apenas sete dias para tomar a maior e mais difícil decisão da minha vida.

Courtesy of Amber Harrington
Foto da ultrassonografia do meu filho Azlend, ainda no útero, tirada com 19 semanas de gravidez, no dia que descobrimos sua hernia congênita de diafragma.

Uma ultrassonografia que era para ser um exame de rotina virou minha vida do avesso.

Um mês antes disso fiquei sabendo que meu bebê era um menino. No segundo ultrassom, com 19 semanas de gestação, a enfermeira estava tão empolgada quanto eu. Ela confirmou outra vez o sexo do meu filho.

Talvez tenha sido apenas minha intuição materna, mas formou um nó enorme no fundo de minha garganta quando ela terminou de fazer as medições na tela.

Depois de limpar o gel do meu abdome, me levaram para outra salinha. Minutos mais tarde eu já estava conversando com especialistas, discutindo uma condição da qual nunca ouvira falar.

Frases como “defeito congênito fatal”, “zero chance de sobrevivência” e “aborto médico” ecoavam pelo ambiente hospitalar, ao mesmo tempo que, dentro de mim, eu sentia meu segundo filho chutando, lutando para viver.

A única ferramenta que eu tinha para me guiar na decisão que de repente se impunha era o amor incondicional que sentia por meu filho e minha capacidade de sacrificar meus próprios desejos pelo bem-estar deles.

Com pouca experiência em tomar uma decisão literalmente de vida ou morte, me lembrei de um conceito que eu aprendera na faculdade, anos antes.

Eu estudara a cultura da Grécia antiga, que tinha muitas palavras para descrever diferentes tipos de amor. Um desses tipos de amor é conhecido como ágape. A base do ágape, fora do contexto teológico cristão comum, é o amor incondicional, que leva quem o sente a se sacrificar.

O ágape é reservado aos relacionamentos marcados pelo amor e cuidado profundo com o bem-estar do outro, muitas vezes passando por cima dos nossos próprios desejos e necessidades.  

Esse tipo de amor extraordinário se manifesta melhor no amor de mãe.

O ágape que eu sentia por meu primeiro filho exigia de mim sacrifícios pequenos e mundanos que são comuns para quem cria um filho pequeno. Mas foi apenas naquele momento, no consultório do médico, grávida de cinco meses de meu segundo filho, que me vi diante de uma decisão que exigiria um sacrifício do tipo que mudaria minha vida para sempre e que seria necessário em nome do amor incondicional.

Foi diagnosticado que o meu bebê tinha um defeito congênito conhecido como hérnia diafragmática congênita (HDC).

Fui informada que os bebês que recebem esse diagnóstico têm chance de sobrevivência inicial de apenas 50%. Havia um buraco grande no diafragma de meu filho, e por essa razão todos os órgãos que normalmente se localizariam em seu abdome cresceram em seu peito. Devido a isso, seu coração não pôde se desenvolver corretamente e seus pulmões estavam deformados.

Falei várias vezes as palavras 'meu coração está partido'. Olhando para trás, a frase parece que não chegava a descrever a dor que eu estava sentindo. Cada dia que eu acordava e sentia meu filho dando chutes dentro de minha barriga era uma tortura – um castigo cruel.

A extensão do dano já presente no corpinho dele reduzira sua chance de sobrevivência para quase zero e tornara impossível uma cirurgia após o parto.

Restaram-me duas opções: levar a gravidez adiante por mais quatro meses, sabendo que ele não conseguiria sobreviver, ou interrompê-la.

Devido às restrições legais ao aborto por motivos médicos no estado da Pensilvânia, tive apenas sete dias para tomar a maior e mais difícil decisão de minha vida.

Passei os sete dias seguintes refletindo como seria minha vida nos quatro meses restantes da gestação – sentindo meu filho se mexer e crescer e sabendo que cada dia que passava ele chegaria um dia mais perto de morrer.

Naqueles dias, falei várias vezes as palavras “meu coração está partido”. Olhando para trás, a frase parece um chavão que não chegava a descrever a dor que eu estava sentindo de fato. Cada dia que eu acordava e sentia meu filho chutando dentro de minha barriga era uma tortura – um castigo cruel e incomum.

Rezei muitas vezes para Deus me levar em vez de levar meu filho, e muitas vezes também caí de joelhos, gritando, enraivecida. Eu me perguntava incessantemente por que isso acontecera comigo – eu era uma pessoa boa!

Eu via mães com bebês saudáveis vivendo suas vidas e ficando frustradas com problemas que agora me pareciam tão ínfimos. Tinha vontade de agarrar cada uma delas e gritar: Curta seu bebê saudável! 

Me perguntei se outras mulheres já tinham tido pensamentos desse tipo a meu respeito quando me viram interagir com meu primeiro filho. Chorei por todos os momentos que deixei de apreciar ele plenamente por estar muito ocupada fazendo outras coisas. E depois chorei por aquelas mulheres também. Percebi que não haveria final feliz, fosse qual fosse minha opção.

Como mãe, eu queria a qualquer custo continuar com meu filho crescendo dentro de mim pelo máximo de tempo possível. Queria tentar todos os procedimentos, todas as técnicas, todas as teorias e os equipamentos que os profissionais poderiam propor. Pensei muito naqueles dias sobre milagres e a possibilidade de um milagre me acontecer.

Nunca fui especialmente espiritual ou religiosa – nem especialmente sortuda, como minha situação continuou a comprovar. Sendo alguém que sempre se pautou por evidências e realismo, encarei os fatos. Imaginei que seria indescritivelmente horrível para meu filho vir para um mundo novo e assustador, possivelmente sofrendo com dor.

Depois de consultar vários outros médicos, descobri que seu corpinho realmente seria incapaz de viver fora do meu útero e que não havia nada que os médicos ou cirurgiões pudessem fazer ou inventar para salvá-lo.

Depois dos sete piores dias de minha vida, tomei a decisão de interromper minha gravidez. Na minha cabeça, eu tomara a decisão de pôr fim à vida do meu filho. Havia tantos fatores a levar em conta: minha própria capacidade mental, a felicidade e estabilidade de meu primeiro filho e, o mais importante de tudo, o conforto de meu filho fatalmente doente.

Infelizmente, eu sabia que não era mentalmente capaz de suportar mais quatro meses de tortura. E sabia que eu tinha um filho sadio de 3 anos que precisava que sua mãe estivesse com a cabeça boa para cuidar dele.

Courtesy of Amber Harrington
As marcas dos pezinhos de Azlend, tiradas logo depois de ele nascer.

No dia marcado para a interrupção da gravidez, eu hesitei.

O médico e seus assistentes estavam com dificuldade de me dar uma injeção, diretamente no útero, de uma substância que faria o coração de meu filhinho parar de bater. Cada instinto meu de mãe estava gritando bem alto: proteja seu filho!.

E eu estava deitada ali, deixando aqueles desconhecidos de avental branco acabar com a vida de meu bebê. Dizer que pareceu antinatural quando aquela agulha penetrou meu abdômen seria muito pouco.

Pela primeira vez em sete dias, as lágrimas escorreram sem som. O que me silenciou foi algo muito mais profundo que a capacidade física das cordas vocais humanas. Naquele momento minha mente inconsciente deve ter captado que aquilo era mais do que eu podia suportar, e eu simplesmente fui embora por um momento.

Na volta para casa, nevava e canções de Natal estavam tocando no rádio. Eu pensara que depois do procedimento meu filho desapareceria imediatamente. Em vez disso, continuei a senti-lo chutando e se mexendo dentro de mim por duas horas após a injeção. Durante aquelas duas horas fiquei conversando com ele, cantando canções de ninar e lhe contando sobre seu irmão mais velho que ele nunca chegaria a conhecer.

Pedi seu perdão pela decisão que eu tomara. Na última vez que o senti mexer dentro de meu útero, percebi de alguma maneira que seria a derradeira vez que eu o sentiria se mover, e foi. Depois de 12 horas de trabalho de parto, ele nasceu, no dia 6 de dezembro de 2011, pesando menos de meio quilo.

Eu lhe dei o nome de Azlend, para lembrar o leão bravo e poderoso de um de meus livros favoritos na infância, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. O enterro dele foi organizado no dia seguinte.

Hoje, olhando para trás, não sei como consegui passar pelos dias e meses seguintes. Eu me flagrava o tempo todo imaginando se tinha tomado a decisão certa e muitas vezes me convencia de ter decidido errado.

Tinha pesadelos e sofria um sentimento de culpa avassalador. Eu conversava muito com minha mãe sobre o que estava sentindo. Ela chorava comigo e me dizia: “Eu queria tanto poder tirar sua dor”.

Ouvindo-a, voltei a pensar no ágape, aquele amor incondicional que leva a pessoa a se sacrificar pelo outro. Foram as palavras dela que me fizeram perceber que eu era igual a tantas outras mães.

Algumas pessoas podem achar um aborto médico algo injusto e cruel, mas, para mim, sempre será a forma mais intensa do ágape.

Tive a oportunidade de aliviar a dor do meu filho e tomá-la para mim, e foi o que eu fiz. Sei que serei assombrada para sempre pela escolha que fiz durante aqueles sete dias de minha vida. Hoje eu me lembro de minha decisão final todos os dias, de inúmeras maneiras. E mesmo assim, com o passar dos anos, choro quando vejo mulheres com bebês. E canções de Natal ainda me evocam lembranças trágicas, em vez de mágicas.

O sábio poeta americano John Greenleaf Whittier disse certa vez: “De todas as palavras tristes, ditas ou faladas, as mais tristes são estas: poderia ter sido”.

Quando eu era jovem, gostava do som dessas palavras. Foi apenas depois de perder meu filho que aprendi a gostar ainda mais do sentido delas. Mantenho essas palavras na cabeça quando, ao longo dos meus dias, sou interrompida por pensamentos sobre o que poderia ter sido.

Algumas pessoas podem achar um aborto médico algo injusto e cruel, mas, para mim, sempre será a forma mais untensa do ágape. Tive a oportunidade de aliviar a dor do meu filho e tomá-la para mim, e foi o que eu fiz.

Sempre vou imaginar se Azlend teria encontrado um jeito de superar suas dificuldades se eu não tivesse interrompido a gravidez.

Nunca vou saber se tomei a decisão certa. É esse o conceito mais difícil com que me defronto na ausência de meu filho. Sei, porém, que a decisão de interromper a gravidez me ensinou mais do que eu imaginava ser possível sobre o amor de mãe.

Ser mãe é muito mais do que apenas dar beijinhos em machucados, fazer seu filho comer suas verduras e garantir que ele escove os dentes.

Para mim, ser mãe significa amar outra pessoa de um jeito que te leva a abrir mão de seus próprios desejos e anseios egoístas, para fazer o que você acredita ser o melhor para ela.

As dúvidas e incertezas com que uma mãe se depara quando toma decisões que afetam seus filhos são uma simples parte da condição materna. Tudo o que uma mãe pode fazer é confiar que seu amor incondicional e altruísta a levará a fazer as escolhas certas para seus filhos.

Às vezes essa é a melhor emoção do mundo; outras vezes, isso parte seu coração de uma maneira irreparável. Aprendi que nas duas circunstâncias o amor de mãe fala mais alto que qualquer outra coisa no mundo.

É o ágape em tudo que ele tem de melhor.

 

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.