MULHERES
27/09/2020 05:00 -03

As verdadeiras consequências de fazer um aborto – ou de ser impedida de fazê-lo

O "The Turnaway Study", publicado recentemente nos Estados Unidos, traz dados essenciais e outros pontos de vista à discussão em curso sobre o aborto.

Photo: Getty
É hora de desmentir de uma vez por todas o mito de que o aborto fere a mulher.

Os ativistas antiaborto argumentam há décadas que o aborto faz mal à mulher, alegando que em muitos casos leva ao arrependimento, a problemas de saúde mental e dependência de drogas e álcool. Até o ex-presidente da Suprema Corte americana Anthony Kennedy aderiu a esse raciocínio, escrevendo em 2007 que as mulheres que fazem aborto podem “sofrer depressão grave” e uma perda de autoestima.

Esse pensamento vem sendo usado para justificar a imposição de restrições que dificultam o acesso à interrupção da gravidez, tais como longos períodos de espera compulsória, que podem dificultar a obtenção do procedimento e, no caso de algumas mulheres, impossibilitá-lo por completo.

Mas será que o aborto prejudica as mulheres de fato? E o que dizer das mulheres a quem é negada a oportunidade de fazer um aborto? Qual pode ser o impacto de uma gravidez forçada sobre a saúde mental delas?

Essas perguntas estão no cerne da pesquisa feita por Diana Greene Foster, professora do departamento de obstetrícia, ginecologia e ciências reprodutivas da Universidade da Califórnia em San Francisco, nos Estados Unidos.

Foster passou os últimos dez anos pesquisando o que aconteceu com mulheres que fizeram aborto ou que quiseram fazer e foram impedidas, monitorando sua saúde emocional, física e econômica.

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Os resultados do estudo de Foster, apropriadamente denominado The Turnaway Study (estudo da negação ou rejeição, em tradução livre).

Para formar o quadro mais preciso possível, ela comparou mulheres que fizeram aborto logo antes do prazo gestacional máximo com mulheres que chegaram à clínica tarde demais e não tiveram o procedimento autorizado. A diferença entre os dois grupos frequentemente é apenas uma questão de dias.

Os resultados do estudo de Foster, apropriadamente denominado The Turnaway Study (estudo da negação ou rejeição, em tradução livre), foram publicados recentemente em um livro com o mesmo título. Não há previsão de publicação do livro no Brasil.

Algumas de suas conclusões: o aborto não elevou o risco de mulheres terem pensamentos suicidas nem suas chances de desenvolver transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, baixa autoestima ou satisfação menor com a vida. Tampouco elevou seu consumo de álcool, tabaco ou drogas. As mulheres que puderam fazer o aborto que queriam tinham probabilidade maior de terem uma visão positiva do futuro; 95% disseram que a interrupção voluntária da gravidez foi a decisão correta para elas.

As perspectivas das mulheres a quem o aborto foi negado foram menos positivas. Elas revelaram tendência maior a viver abaixo do nível federal de pobreza e a estar desempregadas. Tinham mais dificuldade que outras mulheres de custear necessidades básicas como alimentação, habitação e transporte. Demonstraram probabilidade maior de continuar em contato com parceiros violentos. E sofreram problemas de saúde mais graves.

As descobertas de Foster são especialmente relevantes agora, quando a pandemia do novo coronavírus, a recessão econômica e os esforços em curso para restringir o acesso ao aborto estão dificultando ainda mais o acesso de muitas mulheres ao procedimento, mesmo que de forma legal.

Em entrevista ao HuffPost, Foster dá detalhes sobre seu estudo:

HuffPost: Por que você começou esse projeto?

Diana Greene Foster: O que me motivou foi o desejo de testar a ideia de que o aborto fere as mulheres, ideia essa que é amplamente circulada e promovida por pessoas que combatem o aborto. É importante não apenas perguntar se o aborto fere as mulheres, mas também de que modo restringir o acesso ao aborto afeta as mulheres? Centenas de restrições foram impostas apenas nos últimos dez anos. Assim, conhecer e entender o efeito dessas restrições parece algo de extrema importância.

Como o estudo foi conduzido?  Parece que você recorreu a funcionários de clínicas para colocá-la em contato com pacientes. 

Exatamente. Quando o pessoal da clínica rejeitava uma candidata a aborto, transmitiam todas as orientações normais a ela e então lhe diziam: “Há um estudo sendo feito pela UCSF que lhe perguntaria sobre sua saúde e sem bem-estar nos próximos cinco anos. Você teria interesse em participar?” Se a mulher dissesse que sim, os funcionários a punham em contato telefônico conosco.

Em seguida, eles falavam com as duas mulheres seguintes que fizeram aborto faltando pouco para o limite do prazo gestacional, para ver se elas topariam participar. Nós as monitoramos ao longo do tempo para perguntar sobre sua saúde física e mental, bem-estar econômica e concretização de outros planos de vida.

A causa principal que leva uma mulher a comparecer à clinica de aborto em fase mais tardia da gestação é não se dar conta de estar grávida. Isso pode ser indício de uma vida caótica, mas também é algo que pode acontecer com muitas pessoas. Por exemplo: mulheres que tiveram um filho há pouco tempo, mulheres jovens que nunca tiveram menstruações regulares, mulheres com problemas de saúde crônicos que tenham sintomas semelhantes aos de uma gravidez.

O perfil das mulheres que ingressaram no estudo, tanto as que fizeram aborto quanto as que foram impedidas de fazer, era muito semelhante. Não havia diferença no perfil emocional delas.

Por que as mulheres buscavam o aborto, segundo elas? 

As razões por que as mulheres buscavam o aborto, conforme verificadas neste estudo, são muito semelhantes aos dados nacionais sobre o que leva mulheres a fazer aborto: falta de dinheiro, razões ligadas a seus companheiros, a necessidade de dedicar atenção a seus outros filhos, ou porque elas achavam que um filho atrapalharia suas oportunidades futuras.

O que foi surpreendente não foram as razões que elas apresentaram, mas como elas previram os resultados vividos pelas pessoas às quais o aborto foi negado. As mulheres estavam preocupadas com sua falta de preparo financeiro para ser mães, e verificamos que elas ficaram mais pobres. Temiam que seu relacionamento não fosse firme o suficiente para apoiar um filho, e vimos que seu relacionamento se dissolveu, com ou sem bebê. Elas disseram que precisavam dar atenção a seus outros filhos, e vimos que os filhos que elas já tinham se saíram pior nos casos em que essas mães foram impedidas de fazer o aborto.

Um dos principais objetivos do estudo foi descobrir se o aborto fere a mulher. Isso ocorre de fato?

Não. Não encontramos evidências de qualquer padrão sistemático de piora da saúde mental das mulheres que fazem um aborto, comparadas às que quiseram fazer, mas não puderam. Não encontramos evidências de que o aborto fere as mulheres, mas há diversas maneiras em que ser impedida de fazer um aborto fere as mulheres.

Quando o governo exerce papel ativo em tentar impedir mulheres de abortar, isso tem consequências graves sobre a vida das mulheres – sobre sua saúde física, seu bem-estar econômico e sua trajetória de vida. Essa ingerência nas decisões das pessoas é uma atitude realmente míope. Quem o faz enfoca essa única gestação, e não o bem-estar da mulher ou dos filhos que ela já tem.

Uma de suas conclusões interessantes diz respeito à violência doméstica. Pode dar mais detalhes? 

Uma em cada 20 mulheres relatou ter sofrido violência da parte do homem envolvido na gravidez nos meses antes de engravidar. A diferença entre as mulheres que abortam e aquelas às quais essa possibilidade é negada é que a exposição ao parceiro violento diminui fortemente no caso das mulheres que abortam, enquanto as que são impedidas de abortar continuam a manter contato com ele e têm risco maior de continuar a sofrer violência. Com o tempo, os relacionamentos se desfazem e as mulheres conseguem se extrair dessa situação, mas são anos de violência contínua, sendo que fazer um aborto poderia ter permitido à mulher se distanciar do relacionamento muito antes.

Qual foi a coisa mais surpreendente que você descobriu? 

O mais surpreendente foi que duas mulheres às quais o aborto foi negado morreram da gravidez e do parto. É um índice chocante de mortalidade materna, muito superior ao que teríamos previsto, e é uma tragédia. A outra coisa surpreendente é como os efeitos são amplos. Envolvem não apenas a vida da mulher, mas seus filhos, seus filhos futuros, seus relacionamentos.

Houve alguma coisa que veio à tona neste estudo que você não conseguiu pesquisar plenamente ou que merece ser estudado mais a fundo?

Eu queria que tivéssemos perguntado se as pessoas eram homens trans. Nossos critérios de inclusão se limitavam a mulheres grávidas, de modo que não sei se haveria homens trans que teriam participado mas não se consideraram aptos a participar. E limitamos o estudo de modo a excluir mulheres que buscaram o aborto em função de anomalia fetal. Eu deveria ter incluído essas mulheres, apenas para ter uma compreensão melhor do que elas vivem. É um estudo separado, mas que deveria realmente ser feito.

Como você espera que sua pesquisa seja usada? 

Nossa discussão sobre o aborto é demasiado abstrata. Não levamos em conta as pessoas reais envolvidas. Eu gostaria que as pessoas lessem o livro para ter um pequeno vislumbre da vida de pessoas que se descobrem grávidas quando não querem estar. Quando se impõem restrições que dificultam ou impedem as mulheres de fazer um aborto quando acham que precisam disso, há consequências reais. Eu gostaria de ver um pouco mais compaixão por parte de outras pessoas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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