COMPORTAMENTO
30/04/2019 01:00 -03

Por que precisamos falar sobre homens e aborto espontâneo

10% das gestações conhecidas terminam no primeiro trimestre com um aborto espontâneo. E é um tema irreversivelmente tabu.

glegorly via Getty Images
Homens que estão realmente sofrendo após a experiência de sua parceira sofrer um aborto espontâneo muitas vezes não recebem ajuda.

Alison, a mulher de Tom, estava grávida de 12 semanas daquele que teria sido o primeiro filho do casal quando começou a apresentar um sangramento leve. Tom e Alison, que pediram para que fossem usados apenas seus primeiros nomes nesta reportagem, tinham ido a uma feira de automóveis. Eles correram imediatamente para o hospital.

Quando chegaram, os médicos fizeram uma ultrassonografia. A interrupção espontânea da gravidez foi confirmada. Alison estava no início do segundo trimestre. Ela e Tom já tinham visto seu bebê nos exames, tinham ouvido seu coração. Tinham contado a seus familiares que teriam um filho e estavam começando a contar a seus amigos. Eles queriam o bebê, queriam muito.

“Senti uma tristeza enorme”, contou Tom. Seu primeiro instinto foi temer que ele tivesse causado a morte do bebê deles por andar em estradas esburacadas com o carro esportivo deles. “Chorei muito quando ouvimos a notícia, ali ao lado de minha esposa. Parece estranho dizer isso agora, mas fiquei com raiva também. Cheguei a sentir raiva de Deus. Por que isso estava acontecendo?”

O aborto espontâneo, ou a interrupção espontânea da gravidez antes das 20 semanas de gestação, é muito comum – segundo as estimativas mais conservadoras, 10% das gestações conhecidas terminam no primeiro trimestre com um aborto espontâneo. E o tema é irreversivelmente um tabu.

Uma enxurrada de reportagens, relatos de celebridades e narrativas pessoais divulgadas nas redes sociais sobre o tema ajudaram a mudar essa situação nos últimos 10 anos, mas ainda não é o suficiente. Uma pesquisa recente, realizada nos Estados Unidos, indicou que norte-americanos pensam que o aborto espontâneo é muito menos comum do que é na realidade e são muito mal informados sobre suas causas, tanto que o atribuem ao estresse ou ao fato de a gestante carregar objetos pesados. Na realidade, metade dos abortos espontâneos no início da gravidez é fruto do puro acaso, por exemplo quando o embrião recebe um número anormal de cromossomos durante a fertilização.

Essa confusão contribui para o sofrimento emocional que a perda da gravidez geralmente impõe às mulheres: 40% das mulheres na pesquisa que sofreram um aborto espontâneo disseram que se sentiram muito sozinhas, e outros estudos indicam que até 20% das mulheres que abortam involuntariamente enfrentam depressão e ansiedade subsequentes.

Muito menos é sabido e comentado sobre o aborto espontâneo e os homens. Enquanto essa situação não mudar, homens como Tom, que disse que não teve ninguém com quem falar do que sofrera, geralmente enfrentam sozinhos as consequências emocionais da interrupção inesperada da gravidez.

“O aborto espontâneo é visto por muita gente, incluindo profissionais de saúde mental, como um tópico que interessa somente às mulheres”, explicou o psicólogo David Diamond, professor da California School of Professional Psychology, ao HuffPost US. Ele trabalha com pessoas que estão sofrendo devido à interrupção indesejada de uma gravidez e à infertilidade.

“Mas os homens têm reações muito diferentes. E são afetados por esse tipo de coisa, às vezes afetados muito profundamente.”

Uma maneira diferente de processar as emoções

Na quase ausência de pesquisas sobre como os homens processam o aborto espontâneo, especialistas em saúde mental precisam basear-se em relatos de terceiros para compreender o problema. Embora seja impreciso traçar generalizações sobre gênero e saúde mental, especialistas disseram que reconhecem determinados padrões nas reações de muitos homens.

“Os homens às vezes expressam muitas reações emocionais de modo diferente das mulheres. Quando um homem está triste, ele não vai necessariamente chorar ou manifestar sua tristeza da maneira que um terapeuta ou sua mulher talvez esperem”, disse Diamond. “Ele vai tomar uma atitude. Vai fugir. Às vezes ele se torna workaholic ou alcoólatra para conseguir lidar com a dor. Os homens nem sempre manifestam suas reações como tristeza, e, quando a tristeza se deve a um aborto espontâneo, as pessoas que cercam o homem talvez não façam a ligação entre a dor dele e sua causa real.”

No caso de Tom, suas lágrimas iniciais na sala de ultrassonografia deram lugar quase imediatamente à ideia de que ele precisava ficar firme e forte para dar apoio à sua mulher.

“Não vou dizer que eu pensei que não podia sentir minhas próprias emoções, porque nunca ninguém me disse isso”, ele comentou. “Mas achei que precisava deixar minhas emoções de lado. Eu precisava ficar forte para ajudar Alison.”

O psicólogo Dan Singley, de San Diego, trabalha com a saúde mental masculina e a psicologia reprodutiva e é diretor de mídia da Postpartum Support International. Ele disse que, na nossa sociedade, os homens são ensinados a ser estoicos.

“Uma reação que vejo com frequência com homens cuja mulher sofreu um aborto espontâneo é um profundo sentimento de culpa”, ele comentou. “A culpa muitas vezes vem do fato de o próprio homem estar sofrendo. Ele está cheio de ansiedade e depressão, mas acha que não tem direito de estar sentindo isso. Algo como ‘bom, não fui eu quem perdeu o bebê, então que direito eu tenho de estar ocupando o espaço emocional da minha mulher com meus problemas?’. Essa dinâmica está relacionada a um fenômeno social muito mais amplo na formação que damos aos garotos, adolescentes e homens.”

E isso também se deve à percepção de que aborto espontâneo, gravidez, infertilidade, tudo isso, são problemas que dizem respeito principalmente às mulheres, não aos homens.

“É quase um chamado à ação”, disse a assistente social Kate Kripke, fundadora do Pospartum Wellness Center, em Boulder, Colorado. “Precisamos de mais ações com a comunidade para ajudar homens que sofreram perdas a conseguir o tipo de apoio mais apropriado. É um problema.”

Um caminho difícil a ser percorrido pelos casais

Kripke disse que ela já deu atendimento particular a muitos casais e verificou uma divisão que é comum a eles: para muitas mulheres, a experiência do aborto espontâneo é emocional. Elas choram a morte de algo com o qual já sentiam um vínculo profundo. Para muitos homens, é um problema mais logístico: eles enxergam uma mudança de circunstâncias (minha mulher estava grávida, agora não está mais) e um problema que tentam resolver conversando sobre os passos seguintes a serem dados, como, por exemplo, tentar conceber novamente. Singley disse que não há muitas pesquisas que tenham estudado essa questão quantitava ou mesmo qualitativamente – até que ponto essa reação é comum, até que ponto isso ocorre principalmente em casais heterossexuais, ou se, por exemplo, pode ocorrer uma divisão semelhante num casal de lésbicas.

Podem surgir problemas em função dessas reações diferentes.

“Uma coisa que pode ser difícil para o casal entender é que a reação não quer necessariamente dizer que o pai não desejasse aquele bebê tanto quanto a mãe”, disse Kripke. “Mas a experiência de estar grávida é algo tão diferente que não é realista imaginar que homem e mulher sentirão a perda da mesma maneira, especialmente logo no início.”

Jessica Psenski disse que trabalhou muito essa questão em seu relacionamento. Ela e seu marido têm uma filha de 3 anos e há 1ano e meio estão tentando conceber outra vez. Nesse tempo ela sofreu 3 abortos espontâneos. Um deles foi especialmente arrasador, porque Jessica já fizera ultrassonografia e eles já tinham ouvido uma batida cardíaca saudável.

“Mais ou menos uma semana depois do choque inicial, da tristeza inicial, meu marido ainda estava triste, é claro, mas estava meio que tentando resolver o problema”, ela comentou. “Sendo que eu ainda estava dominada por uma tristeza profunda.”

O desafio, ela disse, tem sido de percorrer esse caminho juntos, reconhecendo que a perda do bebê certamente afetou a ambos, mas aconteceu especificamente com ela, em seu corpo. Jessica disse que estava tão mergulhada em suas próprias emoções – seu próprio sentimento de devastação – que não sabe se teria conseguido dar a seu marido o apoio do qual ele precisava.

Mas especialistas como Singley dizem que o importante é que os casais consigam conversar sobre o problema e que a sociedade de modo geral fique mais à vontade em ver homens também falarem disso.

“Precisamos abrir espaço para um pai se entristecer com uma perda reprodutiva”, disse Singley.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.