MULHERES
26/05/2019 08:42 -03

'Fiz um aborto antes de Roe v. Wade. É por isso que mulheres da minha geração precisam contar suas histórias'

Nós somos aquelas que entendem, por experiência própria, por que o direito ao aborto seguro e legal é tão importante.

Carla Nordstrom
A autora, hoje com 74 anos, fez um aborto ilegal aos 23.

Estou com 74 anos, muito além da idade em que teria de me preocupar com uma gravidez indesejada. Os tempos antes da decisão da Suprema Corte sobre o caso Roe v. Wade, que na prática legalizou o aborto nos Estados Unidos, estão esquecidos em nossa memória coletiva. As mulheres da minha geração raramente contam suas histórias de abortos ilegais, talvez por constrangimento ou vergonha. Mas essa reticência impede outras mulheres de aprender com nossa experiência.

Nunca imaginei que fôssemos voltar aos tempos dos abortos ilegais, mas leis aprovadas em vários estados estão criando essa possibilidade.

Quando eu tinha 23 anos, fiz um aborto ilegal, arranjado pela organização Clergy Consultation Service on Abortion. Era jovem e não tinha condições de criar um filho. Tinha engravidado de um homem que mal conhecia. A entidade era composta por pastores e rabinos que organizavam abortos seguros, porém ilegais, em diversas cidades dos Estados Unidos e Porto Rico. Apesar de morar em Nova York na época, o meu aborto foi realizado em uma cidade a uma hora de distância, de avião.

Meus pais ajudaram a pagar a operação, e minhas amigas sabiam de tudo, mas decidi ir sozinha. Estava fazendo uma coisa ilegal e não queria envolver amigos ou familiares. Fui para Pittsburgh e peguei um ônibus para o centro da cidade, perto do hotel onde encontrei o médico, um senhor mais velho e cirurgião respeitado em um dos hospitais locais. Ele foi muito gentil ao explicar o procedimento, mas notei que seus instrumentos estavam envolvidos em um pedaço de pano sujo.

Seguindo suas instruções, tirei as roupas de baixo e me deitei em uma mesa no meio do quarto. Ele usou o que se chamava o método do vácuo, que envolvia dilatação e curetagem, com a ajuda de um tubo de sucção. Não me ofereceram anestesia, e não pedi. Sabia que tinha de estar consciente, pois tinha de ir embora assim que ele terminasse. A dor foi insuportável, mas tudo aconteceu muito rápido. Tomei outro ônibus para voltar ao aeroporto. O motorista era o mesmo da ida e me disse: “Não vai ficar muito tempo, né?”.

Quando cheguei ao aeroporto, estava tremendo e suando frio. Era algum tipo de reação ao procedimento, mas eu não podia me arriscar pedindo ajuda. Estava preocupada com uma eventual hemorragia e entrei no avião imaginando que, se acontecesse algo muito errado, a empresa aérea cuidaria de mim. Felizmente, quando pousamos no aeroporto de Newark, meu corpo já estava se acalmando. Uma amiga foi me buscar. 

Minha história é típica daquela época; uma amiga fez aborto com o mesmo médico de Pittsburgh. Tive sorte; era branca, formada na universidade e estava empregada. Minha família e meus amigos me apoiaram, além do incrível suporte que recebi da organização. Naquela época, a preocupação com abortos improvisados levava pessoas do bem a cuidar das mulheres que, como eu, tinham optado por abortar, apesar de o procedimento ser ilegal.

É difícil perder um bebê mesmo se a escolha for sua, e o estigma da ilegalidade só piora as coisas.

Mas essa não foi a única vez que sofri por causa de abortos ilegais. Quando o Estado torna o aborto um crime, existem consequências inesperadas.

Certa manhã, 6 meses antes de minha experiência em Pittsburgh, acordei sangrando e morrendo de dor de cólica. Achei que pudesse estar grávida, mas rejeitei a ideia porque não tinha condições de ter um filho. A dor era tão forte que não fui trabalhar. Fiquei encolhida na cama, e à tarde, ainda sofrendo de dor, marquei de ir ao médico no dia seguinte.

De manhã, quando fui ao banheiro, senti uma dor intensa e ouvi um “plop”, como se algo tivesse caído no vaso sanitário. Não tinha ideia do que era e mal olhei quando apertei a descarga. Na consulta, o médico disse: “Pena que você deu descarga, teria sido melhor pegar e trazer aqui”. Ele estava falando do resultado do aborto espontâneo ― este era o termo usado para a perda do bebê no primeiro trimestre ― que eu tinha sofrido horas antes.

Tive de passar por uma dilatação e curetagem para evitar infecções. Mas, antes disso, o médico era obrigado a fazer um teste de gravidez. Se o teste fosse positivo três vezes, eu seria considerada legalmente grávida e não poderia passar pelo procedimento. O médico disse que o teste provavelmente daria positivo, porque ainda havia resquícios do tecido do bebê no meu organismo.

Alguns dias depois do primeiro positivo, voltei para fazer outro teste. O médico era muito gentil, mas a recepcionista era antipática, porque eu não era casada. Ela gritou “senhorita” o mais alto possível na hora de colher minha amostra de urina. O resultado foi positivo de novo, e comecei a me perguntar se teria de fazer um aborto ilegal mesmo tendo perdido o bebê. Acho que o médico teve a mesma preocupação, porque ele marcou o terceiro teste para seu laboratório privado. O resultado foi negativo. Fiz a dilatação e curetagem num hospital, com anestesia. Por sorte o médico fez tudo o que estava a seu alcance para me proteger e me curar. 

É difícil perder um bebê mesmo se a escolha for sua, e o estigma da ilegalidade só piora as coisas. Quando a Suprema Corte aprovou o aborto no caso Roe v. Wade, as mulheres finalmente puderam lidar com gravidez indesejada à sua própria maneira. Não era mais da conta do Estado.

Anos depois, quando dei à luz uma filha maravilhosa, percebi que não queria que nenhuma mulher fosse forçada pelo governo a passar por um aborto ilegal.

Leis draconianas não têm nada a ver com proteção da vida; elas têm o objetivo de punir as mulheres. Embora venhamos de uma era com mais privacidade, as mulheres da minha geração deveriam olhar para o exemplo de nossas filhas e netas e se expor um pouco mais. Nós sabemos por que o direito ao aborto legal e seguro é tão importante.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.