OPINIÃO
11/12/2019 10:37 -03 | Atualizado 11/12/2019 10:37 -03

Luisa Mell lança abaixo-assinado pelo fim da exportação de animais vivos

A campanha, aberta em conjunto com a organização Mercy For Animals, alcançou 190 mil assinaturas em um mês na Change.org.

Cenas chocantes de bois amarrados, esfaqueados e içados de navios pelas pernas compõem o cenário de agonia da exportação de animais vivos para abate. Para por um fim a essa “prática absurda, covarde e vergonhosa”, como define a apresentadora e ativista da causa animal Luisa Mell, um abaixo-assinado está aberto na plataforma Change.org pressionando o Senado Federal a aprovar o Projeto de Lei 357/2018, que proíbe esse tipo de exportação.

A petição foi lançada pela própria ativista em conjunto com a organização Mercy For Animals, entidade que se dedica a combater a crueldade contra animais explorados para abate. Em um mês, a campanha dos ativistas já ganhou mais de 190 mil adeptos sensibilizados por imagens que revelam o sofrimento imposto aos bois no processo. As cenas foram captadas por investigadores secretos da organização em portos e abatedouros do Oriente Médio.

“Uma vez que chegam aos portos, animais feridos e doentes são muitas vezes pendurados e içados pelas próprias pernas, experimentando medo e sofrimentos extremos”, narra Luisa Mell no vídeo que documenta a investigação (atenção: o vídeo acima contém imagens fortes). “Depois do terror desses navios, eles são levados a abatedouros”, completa a ativista denunciando como os bois são “brutalmente mortos” após serem amarrados, esfaqueados, arrastados e deixados agonizando e sangrando até a morte.

É dos portos de Barcarena (PA), Rio Grande (RS) e de São Sebastião (SP) que mais saem bovinos do Brasil para abate no exterior. O país é o terceiro maior exportador de animais vivos no mundo e alcançou no ano passado um recorde no volume de cabeças de bois enviadas a outros países: 810 mil — quantidade 102,2% superior à de 2017.

O Brasil só fica atrás do México e do bloco econômico formado pela União Europeia e passa para a segunda posição se considerada apenas a exportação por vias marítimas, ficando atrás da Austrália. Os dados, do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), da Scot Consultoria e do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), integram um relatório da Mercy For Animals sobre a investigação.

“A exportação de animais vivos já vinha sendo tema de protestos e determinações legais, por causar extremo sofrimento aos animais. Recentemente trouxemos a questão à tona novamente, lançando uma investigação que mostra o terrível destino desses animais”, avalia Sandra Lopes, diretora-executiva da Mercy For Animals no Brasil.

Avanços e retrocessos na causa

Por conta da crueldade no transporte dos animais, que ficam confinados em navios por milhares de quilômetros até países como Turquia, Egito e Líbano, e do terror ao qual são submetidos na hora do abate, a discussão sobre a exportação de bois vivos vem chamando a atenção nos últimos anos. A Nova Zelândia, por exemplo, ganhou regulamentações rigorosas que têm levado à eliminação gradual dessa prática. Já a Índia a proibiu no ano passado.

No Brasil, pelo menos quatro projetos de lei em nível federal e estadual (São Paulo e Rio de Janeiro), além de uma lei municipal (Santos-SP) e outras ações tentam tratar do tema, sofrendo idas e vindas com aprovações e posteriores suspensões, ou ainda estagnação. O PL federal 357/2018, alvo da campanha abraçada por Luisa Mell, foi apresentado ao Senado em agosto do ano passado e aguarda análise da Comissão de Meio Ambiente.

A diretora da Mercy For Animals e porta-voz da organização destaca que se essas práticas cruéis de abate acontecessem no Brasil seriam consideradas ilegais, por isso enfatiza a necessidade da aprovação do PL. “Tal proibição é extremamente importante e urgente, pois não podemos permitir que animais brasileiros sejam forçados a viver por semanas apertados em navios, tendo que deitar em seus próprios excrementos, e que sejam submetidos a um abate extremamente brutal e inaceitável em outros países”, ressalta Sandra.

Até o MPF (Ministério Público Federal) já defendeu o fim da exportação de animais vivos para abate, considerando-a inconstitucional, já que a lei brasileira veda toda e qualquer crueldade contra os animais. Em emissão de parecer no ano passado, o procurador regional da República na 3ª Região, Sérgio Monteiro Medeiros, abriu um tópico apontando o transporte de animais vivos como “o rito mais explícito da cultura da violência animal, ou uma prática comercial de pavoroso sofrimento e morte em escala inaceitável”.

A pressão da campanha

A petição pelo fim da exportação de animais vivos para abate segue aberta e recolhendo assinaturas por meio da plataforma Change.org. O objetivo da campanha é coletar o maior número possível de assinaturas para que o clamor popular pressione os senadores a votarem e aprovarem o projeto de lei que visa a acabar com essa prática no País. 

Um dos maiores nomes do ativismo animal no Brasil, Luisa Mell chama a exportação de animais vivos de uma “completa vergonha” e convoca todos a se juntarem à campanha, assinando a petição. “Você pode ajudar. Peça ao Senado Federal que aprove o PL 357/2018”, diz a defensora dos direitos dos animais no vídeo publicado na página do abaixo-assinado.

A campanha contará com diversas outras ações até que uma lei coloque fim a essa prática em todo o território brasileiro. Para Sandra Lopes, o volume de mais de uma centena de milhares de assinaturas recolhidas em tão pouco tempo mostra “como os brasileiros são pessoas compassivas que, com razão, estão chocadas com a indústria de exportação de animais vivos”, afirma a diretora. “Como uma sociedade civilizada, é nosso dever banir a absurda prática de exportação de animais vivos, um completo desastre animal e ambiental.”  

Além da petição criada por Luisa Mell e pela organização, a Change.org hospeda outros abaixo-assinados sobre o assunto. Um deles, feito pela ativista dos animais Raquel J. Sabino, conhecida como Kaz, em conjunto com a Nação Vegana Brasil, já coletou mais de 141 mil assinaturas pedindo a aprovação do projeto de lei estadual 31/2018, que proíbe o embarque de animais vivos em portos de São Paulo com a finalidade de abate para consumo. O PL aguarda votação no plenário da Assembleia Legislativa do Estado. 

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.