OPINIÃO
21/11/2019 12:01 -03 | Atualizado 21/11/2019 12:01 -03

'A Vida Invisível' vinga o potencial desperdiçado das mulheres que retrata

Sensível e urgente, filme de Karim Aïnouz tem, sim, força suficiente para emplacar no Oscar 2020.

Desde o dia 27 de agosto, quando A Vida Invisível foi escolhido como o representante do Brasil no Oscar 2020, grande parte do público brasileiro se perguntava se o filme do cearense Karim Aïnouz era mesmo a melhor opção.

Àquela altura estávamos no auge da popularidade de Bacurau, um verdadeiro fenômeno cultural que lotou salas de cinema Brasil afora e materializou um grito de revolta e resistência do cinema brasileiro, vilipendiado pelo próprio presidente da república.

Ambos filmes brilharam no prestigiado Festival de Cinema de Cannes, em maio. Enquanto Bacurau, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles conquistou o Prêmio do Juri (segundo mais importante da mostra principal), A Vida Invisível ganhou o principal prêmio da mostra Um Certo Olhar, a segunda mais importante do festival.

Ou seja, a dúvida era mais do que justificável naquele momento. Mas ela será tirada a limpo a partir desta quinta (21), quando A Vida Invisível, finalmente, estreia em todo o território nacional.

Livre adaptação do romance de Martha Batalha, A Vida Invisível é classificado (com muita precisão) por seu diretor como um “melodrama tropical”. Ele conta a história de duas irmãs no Rio de Janeiro da década de 1950: as inseparáveis Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler). Ambas têm um sonho. Eurídice o de se tornar uma pianista profissional e Guida de viver uma grande história de amor.

Mas elas acabam sendo separadas pelo pai conservador e forçadas a viver distantes uma da outra mesmo vivendo na mesma cidade. Sozinhas, elas irão lutar para tomar as rédeas dos seus destinos em uma sociedade extremamente machista ao mesmo tempo em que nunca desistem de se reencontrar.

Bruno Machado
Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) no quase místico Rio de Janeiro da década de 1950.

Por um lado, a comparação com Bacurau é totalmente descabida, e só existe por conta da briga por essa vaga no Oscar. Mesmo assim, não há como negar que o filme de Aïnouz, mesmo que com um estilo bem mais “convencional”, traz consigo a mesma carga de revolta e um tema tão urgente quanto: o machismo da sociedade brasileira.

Ou o fato do Brasil estar no 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas pra os Direitos Humanos (ACNUDH), espanta mais alguém? Será mesmo que 1950 esta tão distante assim de 2019? 

“Fiz o filme pensando em minha mãe, que me criou sozinha e morreu em 2015. Ninguém tem ideia do que minha avó e minha mãe passaram no nordeste de décadas passadas criando filhos sozinhas. Quando li o livro [de Martha Batalha], achei que ele seria um veículo importante para contar a história de mulheres como a minha mãe. É um filme antipatriarcal”, explicou Aïnouz em entrevista exclusiva ao HuffPost pouco antes de embarcar para Cannes.

“O patriarcado é o grande problema que vivemos no mundo, e ele tenta desesperadamente manter seu status. Cada vez que mergulhava mais no livro e nos personagens, via que esse assunto é necessário”, completou.

A Vida Invisível é sobre mulheres e seus sonhos desfeitos. Potenciais desperdiçados que comungam em um estranho paralelo com o próprio local onde se passa a história. O Rio de Janeiro aqui é exuberante, de uma aura quase mística, mas que sofre pela mão do homem, que explora sua beleza e seu espírito.

Bruno Machado
Participação especial de Fernanda Montenegro é avassaladora.

Dito isso, não era de se espantar que o grande destaque do filme seja seu elenco feminino. Por conta de mudanças em relação à  trama do livro, a  Eurídice de Carol Duarte perde um pouco de sua força, já que aqui Guida ganha muito mais espaço que no texto original. E Julia Stockler aproveita muito bem a oportunidade de mostrar sua força.

Porém, por mais que as duas se sobressaiam com ótimas interpretações, a atuação de Fernanda Montenegro, mesmo que pequena em termos de tempo de tela, é simplesmente monstruosa. Sua participação especial já nos minutos finais do filme é tão avassaladora que você sai do cinema com uma sensação de catarse que tem muito em comum com o efeito Bacurau.

E isso, por si só, já reponde aquela dúvida. A Vida Invisível é um excelente filme. Sensível e urgente, terno e cruel. Sua candidatura ao Oscar soa até como uma vingança contra os potenciais desperdiçados das mulheres que retrata. Uma produção que tem, sim, força suficiente para emplacar no Oscar.