ENTRETENIMENTO
11/10/2019 05:00 -03 | Atualizado 11/10/2019 14:26 -03

A campanha de 'A Vida Invisível' pelo tão desejado Oscar para o Brasil

Com um produtor forte no mercado internacional, apoio da Amazon e boa recepção entre votantes, filme de Karim Aïnouz segue forte na corrida pela estatueta.

Desde 1998, última vez em que o Brasil teve um representante na lista final de concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (hoje Filme Internacional), o País não tem tantas chances de retomar essa vaga como na edição de 2020 do prêmio.

A bola da vez é A Vida Invisível, do diretor cearense Karim Aïnouz, vencedor da mostra Um Certo Olhar, a segunda mais importante de Cannes — considerado por muitos como “o” maior festival de cinema do mundo.

Porém, por mais que um filme seja bom e tenha prêmios importantes em seu currículo, essa vaguinha no Oscar só vem com uma boa estratégia de campanha. E Vida Invisível está fazendo a lição de casa direitinho.

“Temos uma chance boa, se vai ou não, tem um trabalho a ser feito. A princípio estamos em uma boa posição. O apoio da Amazon está sendo fundamental e o fato da RT [Features, produtora] trabalhar muito bem no mercado dos Estados Unidos e conhecer um pouco esse processo ajuda muito a gente conseguir levar o Karim e o filme para os lugares certos”, disse o produtor Rodrigo Teixeira no podcast Cinema na Varanda

Em poucas palavras, Teixeira enumerou alguns do principais passos para um filme emplacar no Oscar.

O mais básico deles é que o filme precisa ser exibido por sete dias, com pelo menos três sessões diárias, em Los Angeles. E A Vida Invisível já tem lançamento confirmado em salas de cinema nos Estados Unidos para o dia 20 de dezembro.

Nesse quesito, aliás, o filme de Aïnouz tem um trunfo. A Vida Invisível foi o primeiro filme latino-americano comprado pela gigante Amazon, empresa que vai distribuí-lo no mercado americano.

E o peso Amazon é ainda maior. Isso porque ela também detém os direitos do francês Les Miserables, de Ladj Ly, que dividiu o Prêmio do Juri da principal mostra de Cannes com outro filme brasileiro, Bacurau. Ou seja, A Vida Invisível ganha muito mais apoio da gigante americana, já que a ela interessa colocar a maioria dos filmes que representa na lista final.

“Meu agente é o agente do Ladj Ly e do Karim. Então está tudo em família. E a chance de Les Miserables estar na lista é muito alta, Ele tem chance inclusive de ser o vencedor do Oscar. Não acho que ele seja uma escolha certa como Parasita (vencedor do grande prêmio de Cannes) e Dor e Glória (do prestigiado diretor espanhol Pedro Almodóvar), mas acho que ele e o filme do Karim têm força”, explicou Teixeira na mesma entrevista. E ele sabe do que está falando, pois é também membro votante da Academia.

A propósito, esse conhecimento interno de como funciona a votação é vital. Aïnouz e Teixeira vão fazer sessões de formadores de opinião na segunda quinzena de novembro em Los Angeles, Nova York, Paris e Londres, onde se encontram os principais votantes da categoria Filme Internacional.

Divulgação
Convite da Amazon para votantes do Oscar. 

O filme entrou para os festivais que formam os circuito dos votantes do Oscar. São dez principais festivais que compõem esse circuito. A Vida Invisível entrou em cinco desses (Festival de Toronto, Mill Valley, Hamptons, Middleburg Film Festival e BFI), sendo que dois deles ainda vão divulgar seu line-up. Isso sem contar que em um deles, o de Veneza, era impossível a participação, pois um filme que estreia em Cannes não pode ser selecionado pelo festival italiano.  

Além desses, o filme de Aïnouz foi selecionado por outros importantes festivais americanos que os votantes do Oscar ficam de olho: Chicago Film Festival, Aspen Film Festival, Orcas Island Film Festival e Philadelphia Film Festival.

“O filme está tendo um nível de aceitação por onde passa muito alto. É um filme quase unânime. Fizemos a exibição em Toronto e a Isabelle Huppert saiu da exibição chamando o filme de obra-prima e dizendo que queria trabalhar com o Karim. Também foi muito bem recebido em uma exibição especial em Paris para membros da academia. Quando você tem esse tipo de resposta, começa a perceber que o filme realmente tem a capacidade de chegar lá”, acrescentou Teixeira ao Cinema na Varanda.

A recepção positiva fora do Brasil também é muito importante para que o filme emplaque na lista final. Alguns críticos americanos já apontam A Vida Invisível com um dos favoritos por uma das vagas.

Como a opinião do crítico Daniel Joyaux, um grande especialista do Oscar:

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão - filme indicado pelo Brasil no Oscar - é um adorável e tocante melodrama. Me lembrou muito Desejo e Reparação, o que, para mim, é um grande elogio. (Adoro Desejo e Reparação) Tem uma grande chance de fazer parte da lista do Oscar Internacional e talvez até conseguir ficar entre os finalistas.

 Ou a de Guy Logde, da Variety:

Ainda bem que o Brasil escolheu o adorável e solar melodrama de Karim Ainouz A VIDA INVISÍVEL DO EURÍDICE GUSMÃO - campeão deste ano da mostra Un Certain Regard de Cannes - como seu representante no Oscar, à frente do também premiado BACURAU. Uma escolha inteligente e merecedora.

Mesmo que a linha de chegada dessa maratona ainda esteja distante, A Vida Invisível está no pelotão de frente. Pode não ter o pedigree de “corredores” como o coreano Parasita e o espanhol Dor e Glória, mas mostra que tem fôlego para brigar cabeça a cabeça com os peixes grandes.

“Não é algo pequeno, mas é só o começo de uma maratona. Representar o Brasil nesse momento político é muito importante, ainda mais com esse filme. Fico muito feliz pela Fernanda [Montenegro]. Ela merece muito e fico emocionado em dividir esse momento com ela. Mas não posso esquecer também das minhas duas meninas, Carol [Duarte] e Julia [Stockler]. Estou muito emocionado”, confessou Aïnouz ao HuffPost.

Que venha o Oscar 2020!

A Vida invisível estreia no circuito brasileiro no dia 31 de outubro.