ENTRETENIMENTO
05/05/2019 09:04 -03

'O terror decodifica ansiedades que estão no ar', diz diretora de 'A Sombra do Pai'

Gabriela Amaral Almeida reflete sobre o gênero e opina que as mulheres estão, finalmente, alcançando seu espaço no horror.

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Depois do slasher Animal Cordial, cineasta baiana opta por um terror mais clássico em A Sombra do Pai.

“Tenho muita fé na narrativa. Se eu perco isso, estou perdida. Eu perco a vontade de viver”, confessa a cineasta baiana Gabriela Amaral Almeida, uma das grandes representantes (e defensoras) do cinema de gênero no Brasil, ao falar de seu filme, A Sombra do Pai, que estreou nos cinemas nesta semana.

Um dos nomes mais significativos do cinema de horror no País, ela fala com exclusividade ao HuffPost sobre o preconceito que o gênero ainda sofre, sobre como é ser uma diretora em um ambiente tão masculino, de como é enfrentar um verdadeiro o Golias Vingadores: Ultimato na bilheteria e, claro, sobre seu segundo longa-metragem.

A Sombra do Pai conta a história de Dalva (Nina Medeiros), uma menina de 8 anos que vira a “mulher da casa” quando seu pai, o pedreiro Jorge (Julio Machado), fica doente. Sem sua mãe, que morreu em um acidente, Dalva conta apenas com a ajuda de sua supersticiosa tia Cristina (Luciana Paes), que logo pretende deixar a casa de seu irmão para casar. Sozinha, Dalva pretende usar os poderes sobrenaturais que imagina ter para trazer sua mãe de volta à vida.

Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost: Atualmente, o gênero terror vem mostrando o que há de mais inventivo no cinema, ganhando um respeito que poucas vezes conseguiu ter. Você acha que estamos vivendo uma era de ouro do horror? 

Gabriela Amaral Almeida: Acho que o horror é um gênero que sempre foi relegado. Primeiro porque o caráter dele é disruptivo por natureza. Ele fala necessariamente de questões que são ou tabu ou que a sociedade prefere ignorar, como morte, vida após a morte, violência, dor... A partir do momento em que ele é filosoficamente niilista.

Ele não faz uma abordagem solar desses temas. Eles são abordados por outros gêneros, mas a abordagem do horror não é solar. E quando o horror é fiel ao tempo em que ele é gerado, a primeira reação a ele é virar a cara. Basta olhar para trás. Os picos de produção de horror estão em fases de transição e adaptação muito fortes da sociedade, como o pós Iluminismo, com o gótico; o pós guerra... Os primeiros filmes slasher [subgênero muito popular na década de 1980] apareceram quando estourou a epidemia de aids. E agora, quando as regras estão completamente arbitrárias no mundo, não só no Brasil.

Estamos em um destes momentos de indefinição, em que o gênero horror é muito útil à decodificação das ansiedades que estão no ar. Se formos seguir essas ondas, daqui a pouco ele estará gerando um novo formato de horror contemporâneo. Porque esse é o caráter dele. Fiz mestrado em Stephen King e fui para Cuba pensando em fazer cinema de gênero. Nunca estive no destaque no sentido do que a produção de horror pode trazer de interessante. Porque ela é, à priori, descartada, e agora eu concordo que ela está em uma parte do ciclo que está em alta.

Por que cineastas mulheres estão tão presentes nessa nova onda de filmes de terror?

Nós estamos em um momento de mudança, de inserção da mulher em todos os lugares. Eu descarto essa coisa da “sensibilidade” porque as mulheres são definitivas em número significativo na literatura de horror e suspense. Mas por que isso não chegou ao cinema? Porque o cinema é predominantemente masculino por conta de uma hierarquia muito marcada e por conta do dinheiro que é necessário para fazer um filme. As mulheres são afastadas dos postos de comando em todos os lugares onde essas características estejam presentes. Não só no cinema. Mas acho que agora, também no cinema, como na ciência, na medicina, na física, na matemática, temos uma presença de mulheres dentro desses sistemas de produção que precisam de grana e que dão poder e status. E nós não tínhamos isso antes.

Há também umas questões culturais, como dirigir um filme cujas emoções que você arquiteta estão ligadas ao corpo do espectador. Culturalmente a mulher é mais coração, mais espírito do que o corpo. Filmes pornográficos e filmes de horror trabalham muito com as reações do corpo, do susto, do nojo, da excitação. E isso não é uma “coisa de mulher”. Por conta de todos esses postulados sociais que constroem o feminino, ficamos de fora um tempão. E agora é o nosso momento. É um movimento maior que o cinema de horror, mas as mulheres no cinema de horror é um sintoma desse movimento em que as mulheres reclamam por seus lugares de olhar privilegiado. De poder contar uma história num meio que atinge tanta gente e que custa muita grana. Na História do cinema você consegue enxergar isso. Há muito mais mulheres fazendo documentários que ficção. Porque ficção demanda muita grana. Em lugar que tem muita grana, tem muito status. E esses lugares eram herdados pelos homens.

Os gêneros narrativos, todos eles, são uma ferramenta muito preciosa para falarmos do que é humano. Eles funcionam graças ao que eles provocam no espectador. Está na epiderme antes de estar na cabeça.

Os filmes brasileiros de terror trazem sempre um forte comentário social. Mesmo em subgêneros tradicionalmente superficiais, como o slasher por exemplo. E mesmo assim você deu uma carga social bem forte ao seu filme anterior, o Animal Cordial, que é um slasher. Por que isso acontece?

O gênero se forma quando uma série de filmes começa a repetir convenções. Ele não é uma coisa prévia. Eu acho que a gente leva um choque vendo filme brasileiro de horror porque a gente nunca trabalhou com o gênero. Porque se formos para outras cinematografias de horror, todos eles - pelo menos os bons - refletem o ambiente social do narrador que está contando a história. Como nós estamos começando a contar as histórias dos nossos medos, temos a impressão que usamos o horror como uma coisas utilitária e menor para fazer que as narrativas funcionem. Eu não acho que seja isso. Acho que a gente está entrando por uma porta de gênero para narrar uma realidade.

Não é uma sobreposição do social na frente do horror. Eu acho que são coisas que caminham juntas. Mas essa noção é destacada por aqui porque não temos herança disso. É interessante ver a esperteza da colonização cultural americana. Eles estão falando deles o tempo inteiro. E como se isso fosse tão direito deles, que se a gente não reconhecer os códigos que estão sendo colocados ali, temos que correr atrás. No caso do Brasil, até falando de projeção fora, é quase como se nós tenhamos que dar uma cor. Como se os produtores quisessem uma cor de Brasil nas histórias. Acho que essa “cor de Brasil” para quem vive no Brasil e vive as contradições de viver aqui é algo muito natural. Fosse um drama, uma comédia (bem feita), um filme de terror, não importa. Esses personagens não estão em um tubo de ensaio, em um laboratório. Quem são esses personagens?

O caso de A Sombra do Pai, a primeira centelha que me veio foi: ’Poxa, quanto medo deve existir na vida de alguém que não tem nem tempo de viver um luto?’. Antes de falar de classe social, eu estou pensando na humanidade. Eu só consigo pensar naquele ambiente social porque é uma realidade nossa. Mas está começando a ser uma realidade americana também, porque o sonho americano está quebrando e o cinema independente está começando a falar da pobreza também.

Passamos um bom tempo negando os gêneros cinematográficos aqui, até como forma de rechaçar essa hegemonia cultural norte-americana que aqui se fez por meio dos gêneros. Mas esse momento já passou e os cineastas brasileiros de agora estão contando histórias e usando a seu favor um  gênero que nos anos 1980 e 1990 os formou de alguma forma.

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A diretora Gabriela Amaral Almeida.

Mas mesmo no cinema norte-americano há cineastas identificados com o gênero que colocam importantes questões sociais em suas histórias. Vendo seu filme me lembrei muito de Martin, do George Romero.

Amo o Romero e o John Carpenter porque eles são cineastas que entraram pela porta dos fundos. Uma coisa muito interessante é que quando os filmes de gênero são bons, eu tenho a sensação de que eles são entendidos em retrospectiva. Preciso comprovar essa hipótese, mas eu sinto isso. Porque o caráter deles é tão frontal que às vezes é tão disruptivo que a cultura, no momento, simplesmente não assimila. E isso acontece ao longo da História do horror. Acontece com o primeiro filme do Charles Laughton, O Mensageiro do Diabo, quando o Hitchcock faz Os Pássaros... Que tipo de filme é esse que não explica o porquê do monstro? Era considerado um filme esquisito, mas que hoje já é decodificado, já foi entendido pela cultura. Já foi assimilado e já gerou similares. Ele já é um representante muito marcado desse tipo de narração.

O que eu concordo é que talvez  hoje a crítica cinematográfica esteja mais aberta a esses filmes. Não através das convenções, mas através do que eles querem contar. E isso faz até que o horror ganhe status e receba até definições como “pós horror”, que não interessam para o artista, mas que acho até interessante por suscitar uma discussão em torno de um gênero que é muito antigo.  Eu vejo O Exorcista e vejo os Estados Unidos, a vontade de libertação feminina na figura da mãe, o movimento de libertação sexual e a repressão a isso. O filme mostra uma mãe cuja filha é possuída pelo demônio porque ela está trabalhando e não deu conta de cuidar de sua filha. Se você for ver, todos os filmes bons desses gênero estão em algum lugar de comentário social.

Eu acho que há algo muito especial no brasileiro que é essa vontade de fé. Não estou falando de dogma religioso, mas vontade de crença.

Por que você escolheu contar a história de A Sombra do Pai pelos olhos de uma criança? Li que você é muito fã de O Espírito da Colmeia [filme espanhol de 1973 dirigido por Víctor Erice]...

Olha que coisa interessante. O Espírito da Colmeia me assombrou muito quando eu assisti. E quando os filmes me assombram muito eu nunca mais vejo, porque eu tenho muito medo de decalcar o filme. O que eu me lembro muito dele é que ele se passa no franquismo e em uma aldeia muito pequena onde há muita repressão do mundo adulto. Esse ambiente é um reflexo, mas a fábula da história é uma menina que aprende sobre a morte assistindo ao filme do Frankenstein quando ele é exibido nessa pequena vila que ela vive. apesar de ter tudo ao seu redor embotado, em um ambiente totalmente rígido, ela aprende sobre a morte através da arte, da ficção. Isso mostra importância da arte na vida das pessoas, principalmente em regimes totalitários.

O universo adulto representava muito uma ideia de Espanha daquele momento. Mesmo que isso não seja a vontade inicial do diretor. Mas era algo que se vivia naquela época emocionalmente. Mas essa semelhança não é consciente. É que esse é um filme que ficou impregnado em mim.

A Sombra do Pai foi minha primeira história depois que saí da escola de cinema, e eu acho que é natural você se apegar às coisas que você conhece mais emocionalmente em sua primeira história. Poder contar sobre a solidão na infância, os medos da infância sem fazer um filme infantil era o objeto mais intimamente próximo a mim para experimentar a narração.

Por isso você coloca tantos aspectos populares como as simpatias, as crendices?

Eu sou baiana, né. Isso é parte do meu cotidiano. Essas figuras do filme sempre estiveram presentes na minha família. Pessoas que vão à igreja e depois para o candomblé, que também faz simpatia e vai para a mesa espírita... Tudo isso junto. É uma mistura. Eu acho que há algo muito especial no brasileiro que é essa vontade de fé. Não estou falando de dogma religioso, mas vontade de crença. E se tem uma coisa muito brasileira nesses personagens é isso. É uma vontade de acreditar para dar conta do que não se dá conta, que é a realidade muito dura. A gente tem vontade de fé, a gente quer acreditar nas coisas.

Tanto a Cristina quanto a Dalva são duas personagens que querem acreditar que podem mudar a realidade. E o espectador sente dor porque vê mais do que a Dalva. Porque nós sabemos que o que ela está pedindo é incompatível com a realidade enorme que estamos vendo também. Mas nem por isso a gente deixa de querer que seja verdade o que ela quer.

Nesse seu segundo longa você optou por um terror mais clássico, totalmente diferente do slasher cheio de sangue de Animal Cordial. Por quê?

Não acho esses 2 filmes tão diferentes. É violento deixar uma criança sozinha. É violento que uma criança de 8 anos discuta que ela será a mulher da casa. É bastante violento que você vá trabalhar com o sangue de um companheiro ainda no chão. Essas violências me interessam em A Sombra do Pai. Eu acho que ambos são filmes que tratam dessas violências. Cada um com um dispositivo diferente.

Tanto o Jorge quanto a Dalva têm de lidar com o luto, mas os 2 são completamente diferentes um do outro. O que você quis mostrar com essa diferença tão profunda na maneira de ver a vida de um pai e uma filha? 

Para aumentar os contrastes entre a vida adulta e a vida infantil. A adulta e masculina é uma vida mais seca, de concreto, de ferro, repetitiva... E do outro lado a infância e a feminilidade, o feminino, que é mais forte que a infância até. Que é o espaço da vontade de crença, do orgânico, da terra, do dente, do cabelo. Ou seja, essas duas (Cristina e Dalva) não têm contato com nada que seja duro. É tudo muito maleável, é sangue, é lágrima. Enquanto o Jorge é oposto. Essa dualidade é o que a gente vive filosoficamente. Porque a gente vive o mundo concreto e temos crenças, mesmo que não sejam religiosas. Eu, por exemplo, tenho muita fé na narrativa. Se eu perco isso, eu estou perdida. Eu perco a vontade de viver.

Por que as mulheres eram tão mal retratadas no gênero horror? 

Porque só tinha homem! É normal dentro de uma cinematografia que só tem um olhar você incorrer em certos deslizes. Porque não tinha um contraponto. Quando eu vejo esses antigos narradores, tipo Dario Argento, que eu amo, eu identifico misoginia nele. Mas uma misoginia que é fruto do sistema que o conduz a olhar naquela direção.

Como a misoginia do Hitchcock também. Mas o Hitchcock é tão genial que é uma misoginia que esbarra no enigma da mulher. Todas as mulheres que o Hitchcock filma são insondáveis. Ele não conseguia entender as mulheres. Eu não consigo vê-lo como um misógino. Eu consigo entender um sistema de produção que  autoriza um tipo de olhar e o que eu defendo é que quanto mais ângulos a gente tiver de um mesmo objeto, a gente tem mais riqueza. O que acontece com o horror... É óbvio que isso está na psiquê, como o medo do feminino que o masculino tem. Se é o masculino que está narrando as histórias, então isso vai aparecer de alguma forma. No caso do horror, as obras de narrativa são um reflexo de nossos medos. É um reflexo psicológico do que a gente sente.

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De um lado a crença de Dalva (Nina Medeiros) e Cristina (Luciana Paes), do outro o ceticismo de Jorge (Julio Machado).

É um filme de terror para você ver seu filme estreando em meio ao fenômeno mercadológico de Vingadores: Ultimato?

Estou me sentindo um Davi, um Asterix. Mas o que eu posso fazer? Esse hiper consumo, não só de cinema, mas de tudo... Essas pessoas não têm mais o que consumir de tanto que se consome. A gente não tem mais o que comprar. As pessoas estão inventando coisas para suprir esses desejo imenso de consumo. Essa coisa do hipercinema, do cinema marombado, como eu chamo, é mais um sintoma disso. Mas o que fazer? Deixar de fazer filmes não é uma questão. Exigir desse governo, que é mais um desgoverno? Sim, sempre. Temos sempre que proteger nossa cultura, que é historicamente subjugada.

Nosso cinema sempre sofreu essa concorrência desleal. Quando eu era criança não conseguia ver filmes brasileiros porque não tinha acesso a eles. Tirando filmes infantis, dos Trapalhões, não tinha mais nada. A TV não mostrava filmes nacionais que não fossem esses. É frustrante, mas é o que é. Então vamos cobrar das autoridades responsáveis algum posicionamento.

Você vai seguir no caminho do horror? Já tem um novo projeto? Pensa em trabalhar com TV algum dia?

Quem é que sabe? Não, brincadeira. Vou continuar no caminho do horror sim. Meu próximo projeto é um filme sobre exorcismo. Isso não significa que daqui alguns anos eu não queira fazer outro gênero. Porque os gêneros narrativos, todos eles, são uma ferramenta muito preciosa para falarmos do que é humano. Eles funcionam graças ao que eles provocam no espectador. Está na epiderme antes de estar na cabeça. Um cinema mais discursivo não me interessa tanto. Sobre TV... Novidades estão por vir. Não posso entrar em detalhes, mas novidades chegarão logo. Tenho uma verdadeira adoração pelo cinema. Para mim, cinema é uma religião. A maneira de contar histórias da TV é diferente, mas não menor. Eu não tive a oportunidade de fazer TV ainda. Mas é mais um canal de comunicação dessa expansão de telas que estamos vivendo.

Veja aqui o trailer de A Sombra do Pai: