OPINIÃO
15/02/2019 08:05 -02 | Atualizado 15/02/2019 08:05 -02

'A Mula', de Clint Eastwood, retrata abismo racial nos Estados Unidos

Todos os privilégios do homem branco escancarados em um filme honesto.

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Clint Eastwood como Earl Stone, um velho florista falido que vê no transporte de drogas para traficantes mexicanos uma forma de se aproximar de sua família.

O que um homem branco que representa a quintessência do macho man teria a dizer sobre racismo? Ser honesto seria um bom começo. E é exatamente isso que Clint Eastwood faz em seu novo filme, A Mula, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (14).

Reconhecido conservador e republicano de carteirinha, o ator/diretor de quase 89 anos veste sua carapuça de homem branco heterossexual e mostra por que esse ser privilegiado pode se safar de qualquer coisa.

Como Earl Stone/Tata, Eastwood nem precisa se esforçar muito para escancarar o retrato do abismo que existe entre ser esse homem branco heterossexual e qualquer coisa que não seja esse homem branco heterossexual na América e, por consequência, no mundo.

A trama de redenção de um velho florista falido que vê no transporte de drogas para traficantes mexicanos uma forma de ganhar dinheiro e se aproximar de sua família é bem simples e em alguns momentos até antiquada. Mas é certeira ao mostrar como mexicanos, negros, mulheres — enfim, quem não se encaixa na descrição de homem branco heterossexual — não passam de cidadãos de segunda classe.

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Clint Eastwood interpreta homem heterossexual branco que está acima de qualquer suspeita.

Earl, ou Tata (vovô), como passa a ser conhecido entre os traficantes, vira o herói da gangue. Enquanto carrega quilos de cocaína em sua picape, ele curte a vida, cantando antigos hits de Dean Martin, fazendo paradinhas para uma boquinha em postos de gasolina ou um noitada com prostitutas em um motel. Ele não liga. Mesmo com o FBI em sua cola, ninguém nunca suspeita dele. Mas de 2 mexicanos comendo um sanduíche em uma lanchonete de beira de estrada… Aí a polícia cola na hora querendo saber “o que eles estavam fazendo ali?”.

Com A Mula, talvez sua derradeira atuação devido à idade avançada, Eastwood faz seu melhor filme desde Gran Torino (2008). Curiosamente, outro filme que tem a questão racial como pano de fundo. E tanto em um quanto no outro, o ator/diretor não se coloca na “pele” dos oprimidos, porque sabe que ele não é um deles.

Ao contrário do que acontece em Green Book, por exemplo, A Mula não usa um personagem negro como escada para a redenção de um branco, mas busca a redenção de seu protagonista branco sem artifícios, admitindo seu papel de privilegiado e assumindo suas responsabilidades com uma sinceridade tocante.