OPINIÃO
19/04/2020 03:00 -03 | Atualizado 19/04/2020 03:00 -03

A crise clama por uma liderança nacional

'O momento é de fazer parcerias com adversários políticos, com outros poderes e com todos os países. O momento é de combater a pandemia. E os populistas também'

Andressa Anholete via Getty Images
"O momento é de esforço, de trabalharmos juntos com toda a sociedade. O momento é de atender os mais vulneráveis, apoiar os nossos profissionais de saúde e salvar vidas."

A ausência de uma liderança capaz de unir o país para enfrentar a pandemia da covid-19 é o maior desafio do Brasil neste momento. As disputas miúdas na política dificultam o diálogo e a construção de soluções coordenadas. Num país dividido, com um governo que emite sinais trocados e em meio ao surto generalizado, quem paga o preço mais alto é a população.

O presidente da República reagiu tarde à pandemia, se mantém na contramão das recomendações das autoridades de saúde internacionais e está às voltas com o aumento de casos, mortes, além da expectativa de uma gravíssima crise social e econômica.

Esse é o cenário de crise mais complexo que já vivemos. Todo grande desafio vem acompanhado de líderes vencedores, que escreverão a história, e outros que serão exemplos negativos para a posteridade. O que se espera de um líder nesse momento?

Assumir a responsabilidade de tomar decisões embasadas em dados é o primeiro passo. Toda crise acaba gerando uma carga emocional grande e uma cobrança por decisões rápidas. As respostas sempre vão agradar a alguns grupos e desagradar a outros, ou seja, é importante agir de forma estratégica, adaptativa e em tempo adequado, de modo a preservar o bem-estar da nação.

O mesmo vale para a comunicação. A liderança precisa assumir o papel de passar informações verídicas por meio de canais que atinjam toda a população. Paralelamente, não basta apenas a liderança se não tiver um processo que permita autonomia. Por isso, o líder público deve saber quem são os integrantes da sua equipe que devem ser motivados e engajados neste processo e dar espaço para que eles possam trabalhar.

O novo coronavírus é um adversário a ser vencido com bom senso, empatia, equilíbrio e união. Quando essa crise terminar – sim, ela vai terminar – o mundo será outro, a vida será outra. Certamente uma das tantas mudanças que o pós-crise nos reserva é o aumento da consciência social a respeito das lideranças públicas. Aqueles que liderarem o enfrentamento a esta pandemia de maneira positiva, correndo os riscos de impopularidade em nome da preservação de vidas, terão uma avaliação melhor do que os que negaram a sua importância e a sua dimensão.

De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Travessia, publicada pelo Valor, enquanto a imagem do presidente Jair Bolsonaro é fortemente abalada, os governadores conquistam um amplo espaço político. Eles passaram a ser vistos como os principais líderes no combate ao novo coronavírus no Brasil. O levantamento aponta que 64% dos entrevistados não confiam na capacidade do presidente da República em gerenciar a crise do novo coronavírus. Em contrapartida, 70% apoiam as ações que vêm sendo implementadas pelos líderes dos Executivos estaduais.

Na outra ponta, o Congresso Nacional deve ampliar seu protagonismo, aprovando medidas que garantam esse equilíbrio entre cuidar de vidas humanas, cuidar da saúde, estruturar os estados para dar assistência à vida humana e também cuidar para manutenção dos empregos e das rendas das pessoas.

Temendo o colapso do sistema de saúde, estados e municípios buscaram um isolamento social formal e extenso para que haja condições de acolher os infectados e evitar mortes. No CLP - Liderança Pública, como forma de apoiar as lideranças públicas no enfrentamento desta crise, criamos um Comitê de Saúde Pública que reúne secretários e servidores da Saúde espalhados pelos municípios e estados brasileiros, que acompanham em tempo real a evolução do vírus e recomendam ações efetivas para o serviço público brasileiro.

Como uma primeira contribuição prática, o grupo apoiou a construção de um guia que reúne boas práticas brasileiras e recomendações gerais de gestores municipais e estaduais da saúde. Nas próximas semanas, uma segunda edição do material será lançada com o objetivo de auxiliar os municípios a aliviar os efeitos econômicos da crise.

É profundamente importante, sim, reduzir os danos na economia, nos empregos, na pobreza. E é por isso que o Estado está devidamente flexibilizando a prioridade fiscal para tomar as medidas necessárias. O que não pode ser feito é desdenhar da morte em nome da economia.

Neste momento, mais do que nunca, a resistência em uma união de instituições da sociedade civil em torno da defesa democrática é fundamental para ajudar a reduzir os impactos da covid-19. Diversas organizações como Endeavor, RenovaBR, RAPS, Instituto Arapyaú, Colab, Comunitas e Vetor Brasil, estão criando e viabilizando projetos para a prevenção e o enfrentamento ao vírus.

O momento é de esforço, de trabalharmos juntos com toda a sociedade. O momento é de atender os mais vulneráveis, apoiar os nossos profissionais de saúde e salvar vidas. O momento é de fazer parcerias e alianças com adversários políticos, com outros poderes e com todos os países com quem temos e não temos histórico de colaboração. O momento é de combater a pandemia. E os populistas também.

 

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.