OPINIÃO
07/08/2020 02:00 -03 | Atualizado 03/09/2020 19:17 -03

'A Conversação': O clássico esquecido de Francis Ford Coppola

Ensanduichado entre os dois "Chefões", filme de 1974 ainda se mantém atual na era das fake news.

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Você pode contar nos dedos de uma mão a quantidade de cineastas que filmaram 3 obras-primas em apenas uma década. Entre eles, certamente estará Francis Ford Coppola. Na verdade, Coppola dirigiu 4 delas.

Sim, porque nos anos 1970, o diretor nos presenteou com O Poderoso Chefão Parte I e II, Apocalipse Now e uma pequena joia bem no meio dos 2 “chefões”, um filme muito celebrado pela crítica, mas que muita gente nem sabe da existência. E a culpa disso é em grande parte do próprio Coppola.

Esse filme é A Conversação (1974).

Ainda sentindo os efeitos da exaustiva batalha de egos contra o chefão da Paramount, Robert Evans, mesmo dois anos depois de finalizado O Poderoso Chefão, o cineasta colocou em prática um projeto muito mais pessoal e com uma produção infinitamente mais modesta. Ele queria esfriar a cabeça. No entanto, suas “férias” duraram pouco, pois no mesmo ano ele teve de encarar mais uma vez a saga da família Corleone. 

O resultado disso? Coppola viu seus 2 filmes concorrendo à principal estatueta do Oscar em 1975. Mas enquanto A Conversação não levou nenhuma das 3 categorias em que concorria, O Poderoso Chefão Parte II abocanhou 6 das 11 em que foi indicado, incluindo a de Melhor Filme e Melhor Direção.

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Francis Ford Coppola e Gene Hackman nas filmagens de "A Conversação".

Por mais que tenha sido reconhecido ao ganhar um prêmio de grande prestígio em 1974, no caso o Grand Prix em Cannes, a segunda premiação em importância do festival (em um ano em que ninguém recebeu a mais importante, a Palma de Ouro), A Conversação não contou com a concorrência de O Poderoso Chefão Parte II na ocasião e foi, com o tempo, sendo ofuscado por seus próprios “irmãos”.

Em A Conversação, Gene Hackman é Harry Caul, um especialista em escutas freelancer - popularmente conhecido por aqui como “araponga” - que é contratado pelo CEO de uma grande empresa para gravar as conversas de um suposto casal de amantes. Porém, o teor da conversa gera em Harry o temor de que eles possam ser mortos, fazendo-o reviver um trauma antigo, quando por conta de um trabalho seu, uma família foi assassinada. 

Tão anos 70 e tão 2020

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A informação como a arma de um franco atirador na sequência de abertura de "A Conversação".

Um dos melhores, se não o melhor, de um subgênero que nasceu após o escândalo de Watergate, os “thrillers de paranoia”, A Conversação é um filme muito conectado com a década de 1970, tanto em espírito quanto em estética, e, ainda assim, curiosamente muito atual. 

Mesmo que a tecnologia mostrada no filme de Coppola esteja ultrapassada para os padrões atuais, A Conversação discorre sobre algo que todos sentimos em pleno 2020 — a noção de que estamos constantemente sob vigilância. Até um simples aplicativo que brinca com nossas fotos, nos mostrando versões mais velhas ou de gênero trocado pode estar nos espionando. 

Mas não é apenas disso que se trata o filme. Ele também é um estudo de um personagem que nos parece tão familiar na era das redes sociais. Harry Caul - uma das atuações mais precisas e sutis de Gene Hackman - busca desesperadamente por conexão, mas é um solitário quase patológico. Um voyeur que esta sendo observado.

E assim como na era das fake news, nada é o que parece ser para Harry. Tal qual o fotógrafo de Blow Up - Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni (uma clara influência para Coppola), que tenta achar um assassinato em um canto desfocado de uma foto, Caul avança e recua suas gravações na esperança de descobrir uma “verdade” que nunca nos é totalmente revelada. O que seria real e o não em meio a tantos ruídos em nossa comunicação?

Recorta e cola

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Afinal, o que é fato e o que é distorção na gravação de Harry Caul?

E é aí que entra uma das maiores qualidades de A Conversação: a edição. Este foi o primeiro trabalho de edição de Walter Murch, que foi contratado inicialmente como editor de som, mas que acabou se transformando também em um lendário editor de imagens. Nada mais adequado a um filme que fala sobre escutas.  

O grande mérito do filme está em nos mostrar o quebra cabeças de som e imagens sendo montado na cabeça de Harry. De um jeito que nunca demonstra estar revelando algo ou simplesmente que está nos confundindo. A informação pode, sim, ser usada para desinformar. Em 2020, nós já estamos escolados nisso. Ou não?

O fim da privacidade já é uma notícia velha para nós, mas a sensação claustrofóbica que ela causa continua presente em nosso dia a dia como mostrado na cena final de A Conversação. Nós sabemos que a “escuta” está nos nossos computadores e celulares, e, mesmo temerosos, nos resignamos, mesmo com nossos espaços de conforto devassados.

*A Conversação está disponível no catálogo do Telecine Play.

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