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07/09/2019 02:00 -03

7 de Setembro: Um palanque de histórias de Juscelino a Bolsonaro

Pelos olhos de jornalistas que cobriram o evento desde a ditadura militar, o HuffPost conta curiosidades, constrangimentos e vaias dirigidas a presidentes no dia da Independência.

Marcello Casal jr/Agência Brasil
Desfile de 7 de setembro de 2018 na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

O primeiro desfile da Independência em Brasília foi em uma quarta-feira, presidido pelo fundador da nova capital federal recém-inaugurada, Juscelino Kubitschek. 

Mas naquela década o 7 de setembro que ficou marcado foi do ano seguinte, 1961, quando João Goulart tomou posse, e centenas de pessoas tomaram a rampa do Congresso Nacional para celebrar. 

Três anos depois, sob forte instabilidade política, os militares, que tiveram visto seu poder reduzido com a emenda parlamentar aprovada em 2 setembro de 61 instaurando o parlamentarismo, interromperam o mandato de Jango. 

O HuffPost conversou ao longo da última semana com jornalistas que acompanharam a cobertura do evento nos governos militares e após a redemocratização.

Foto: Débora Álvares
Descrição do primeiro desfile da independência em Brasília no Livro Síntese cronológica 1960, volume II

Segundo os relatos, o desfile tem seguido os mesmos padrões em todos esses anos, entre outras coisas, com apresentação de tropas, o fogo simbólico, a pirâmide humana e a famosa Esquadrilha da Fumaça. Mas não passam despercebidas, claro, situações inusitadas.

Caso do general Newton Cruz, que era comandante militar do Planalto no governo do ex-presidente João Figueiredo. Ao invés de acompanhar o cortejo no palanque presidencial, ele permanecia ao lado de seu cavalo branco. 

Também na época de Figueiredo, há relatos de desavenças entre ele e seu vice, Aureliano Chaves, que em alguns desfiles da Independência foram flagrados, contaram profissionais da imprensa ao HuffPost, de costas um para o outro. 

De volta para o povo

Finda a ditadura, como se em repulsa aos militares, o evento foi transferido de local. Ocorriam desde a inauguração ao longo do Eixo Rodoviário Sul, conhecido como Eixão Sul. De 1989 a 2003, no início do governo de Luíz Inácio Lula da Silva, passaram a acontecer no Setor Militar, um local de mais difícil acesso. Só com o petista foram então levadas para a Esplanada dos Ministérios, onde permanecem até hoje.

A ideia do ex-presidente era “levar o povo para o desfile”. E, claro, estar no centro das atenções de seu eleitorado.

Com Lula, chamavam a atenção as roupas da então primeira-dama, dona Marisa Letícia, nos tons da comemoração, verde e amarelo.

Foto: Domingos Tadeu/PR
Ex-presidente Lula, dona Marisa e o neto Alexandre assistem ao desfile da Independência em 2006

Foi também o ex-presidente petista quem aumentou o desfile ao chamar escolas de diversos locais para marchar pela Esplanada. Antes de o orçamento das Forças Armadas começar a ser reduzido, tropas de unidades de outras localidades também vinham para a capital federal, como da caatinga, cavalaria, selva, engenharia, Pantanal. 

Ainda ao longo dos governos petistas, após o escândalo do mensalão que desencadeou uma série de manifestações populares, as arquibancadas mais próximas ao palanque presidencial começaram a ser revistadas, relataram os repórteres que trabalharam nas coberturas dos desfiles. Somente pessoas favoráveis ao PT podiam ficar ali.

Ainda assim, em 2015, último ano em que a então presidente Dilma Rousseff presidiu um desfile de 7 de setembro, ela não foi poupada de vaias — assim como seu vice, Michel Temer, que a sucedeu após o impeachment, em 2016. 

Defesa da Pátria

Com gastos maiores do desfile de 7 de Setembro que nos últimos anos - passou de R$ 816,8 mil para R$ 971,5 mil -, o presidente Jair Bolsonaro aposta em uma estrutura também mais ampla, com mais telões - normalmente são quatro, mas este ano serão dez. Ele espera ser atendido em seus pedidos para que a população vista verde e amarelo. Diz não temer o efeito contrário. A festa tem até temática: “Vamos valorizar o que é nosso”, em uma referência à Floresta Amazônica e à guerra verbal travada especialmente com o presidente francês, Emannuel Macron.

Ministério da Defesa / Divulgação
A popular Esquadrilha da Fumaça, que dá show nos céus de Brasília.

A celebração dos 197 anos da Independência do Brasil está prevista para começar às 9h deste sábado. Devem participar três mil militares e são esperadas mais de 20 mil pessoas nas arquibancadas montadas durante as últimas três semanas ao longo de dois quilômetros entre o Palácio da Justiça e o Ministério da Economia. 

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta semana que, além de autoridades do governo, estarão presentes ao seu lado no palanque empresários, como o apresentador e dono do SBT, Silvio Santos. 

O esquema de segurança também foi reforçado. Haverá snipers - atiradores de elite - no topo dos prédios. Funcionários que vão trabalhar nos ministérios justamente por conta do evento foram orientados a ficar longe das janelas para não atrapalhar o trabalho dos atiradores. Segundo o Planalto, isso se trata de “precaução”. 

Logo após a cerimônia, Jair Bolsonaro embarca para São Paulo para se internar. Domingo (8) passará por mais uma cirurgia em decorrência da facada de que foi vítima há praticamente um ano, durante a campanha eleitoral. Esse, inclusive, é um dos fatores elencados para o reforço na segurança no 7 de Setembro.