ENTRETENIMENTO
17/01/2019 18:41 -02 | Atualizado 17/01/2019 18:49 -02

'500 Dias com Ela' é só a história da fantasia de um cara babaca

Há 10 anos, primeiro longa do cineasta Marc Webb estreava no badalado Festival de Sundance.

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“Veja novamente. É principalmente culpa do Tom. Ele está projetando. Ele não está escutando. Ele é egoísta. Felizmente ele cresce no final."

Dez anos depois de sua primeira exibição no Festival de Sundance, em 17 de janeiro de 2009, 500 Dias com Ela ainda aquece o coração de muita gente como exemplo de uma linda história de amor “infinito enquanto dura”.

O problema é que o primeiro longa do diretor Marc Webb (O Espetacular Homem-Aranha) não é sobre romance, ou mesmo sobre o fim de um, ou mesmo uma história de garoto que conhece garota, como o narrador nos conta logo nos primeiros minutos do filme. É sobre a fantasia de um homem imaturo, um verdadeiro babaca.

Acha isso um absurdo?

Em janeiro do ano passado, um homem que no Twitter se identifica como Emperor Justin tuitou: “Ainda não perdoei Zooey Deschanel pelo que ela fez com Joseph Gordon-Levitt em 500 Dias com Ela”. 

Alguns meses depois, Gordon-Levitt, o próprio ator que interpretou Tom, defendeu Summer, a personagem de Zooey Deschanel que há 10 anos é rotulada como “bitch” por ter dado um pé na bunda do protagonista do filme.

“Veja novamente. É principalmente culpa do Tom. Ele está projetando. Ele não está escutando. Ele é egoísta. Felizmente ele cresce no final”, escreveu o ator.

Summer é uma manic pixie dream girl?

Summer é irrelevante à história. Para Tom, ela é apenas uma manic pixie dream girl, termo criado pelo crítico Nathan Rabin em 2007. A MPDG é uma garota “maluquinha”, de espírito livre e atraente que parece diferente e perfeita em tudo.

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Ela existe apenas para satisfazer os sonhos do protagonista masculino. Ela é a razão de seu viver. Ela não tem sonhos ou aspirações. Sua vida é servir de inspiração ao seu mestre, normalmente um homem sensível e tímido, incompreendido pelas mulheres.

Mas Summer, na verdade, não é uma MPDG. Ela se encaixa nesse padrão apenas para Tom. Como Weber explicou em uma entrevista ao jornal inglês The Guardian em 2009: “Sim, Summer tem elementos de uma MPDG, mas no filme ela é a visão imatura de uma mulher. Ela é a visão de Tom de uma mulher. Ele não vê a complexidade dela”.


Tudo sobre ele

Em 500 Dias com Ela, tudo gira ao redor de Tom. Ele está em literalmente todas as cenas. Nós enxergamos por seus olhos, nós vemos o que ele QUER ver. Um bom exemplo disso é a visão romantizada de Los Angeles que não tem nada a ver com a realidade, cheia de charmosos prédios clássicos de uma era que não existe mais. O sonho de um arquiteto frustrado.

Outra clara demonstração disso é quando o filme mostra suas famosas cenas expectativa x realidade, como esta aqui:


Mas sobre o que diabos é 500 Dias com Ela?

Tom não entende o que é amar alguém. Ele ama apenas a si mesmo. Ele não ama Summer pelo que ela é, mas a visão fantasiosa que ele tem dela.

E se tudo o que foi mostrado até aqui não foi o suficiente, em seus momentos finais o filme deixa escancarado o tema.

500 Dias com Ela não é uma comédia romântica, uma história sobre a ascensão e queda de um relacionamento ou “boy meets girl”, e sim sobre amadurecimento. É um filme “coming of age”.

Na última cena, quando finalmente resolve encarar a realidade e seguir seu sonho de ser arquiteto, Tom acaba conhecendo Autumn, que concorre com ele por uma vaga em um escritório de arquitetura.

Diferente do momento fetiche em que conhece Summer no elevador do trabalho, quando ela fala com ele porque ele escuta uma música dos Smiths, aqui não há nada de romântico. Os dois competem por um emprego. Mas ao invés de ter em comum algo efêmero como o gosto musical, Tom e Autumn dividem uma paixão pela arquitetura.

É nesse momento que o narrador deixa tudo explicadinho para quem ainda não sacou:

“Se Tom aprendeu alguma coisa, foi que você não pode atribuir grande significado cósmico a um simples evento terreno. Coincidência, isso é tudo que é, nada mais que coincidência. Tom finalmente aprendeu, não há milagres. Não existe destino, nada é para ser. Ele sabia, ele tinha certeza disso agora.”

 

Como o Joseph Gordon-Levitt celebra no final de seu tuíte resposta: “Felizmente ele cresce no final.”

Tom pode não ser um babaca a vida toda, mas o filme acaba e nós não conhecemos sua versão madura.

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