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24/01/2020 18:46 -03

Bolsonaro e Moro: como foram as últimas 48 horas de tensão entre o presidente e o ministro

O que ocorreu atrás das câmeras na mais nova divergência entre Bolsonaro e seu ministro mais popular.

EVARISTO SA via Getty Images
O presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro vivem uma relação de altos e baixos. 

Holofotes acesos, câmeras ao vivo, jornalistas em volta, quase uma hora e meia de entrevista. Quem conhece bem o presidente Jair Bolsonaro confirma que ele gosta de estar no centro das atenções. Mas o foco daquela vez era o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Sua participação, na última segunda-feira (20), no programa Roda Viva, da TV Cultura, foi a gota que faltava em um copo que vive à beira de transbordar na relação entre chefe e subordinado. As últimas 48 horas foram, para dizer o mínimo, tensas entre os dois.  

A ida de Moro ao Roda Viva incomodou. Nos bastidores, a avaliação é de que ele não defendeu o chefe com unhas e dentes, afirmando, ao contrário, apenas que respeita a hierarquia. Esperava-se mais. E do núcleo radical próximo ao presidente veio logo a avaliação: está fazendo campanha.

Dois dias depois, na tarde de quarta-feira (22), Bolsonaro recebeu secretários estaduais de segurança pública em uma reunião fora da agenda.

Embora seja um assunto de sua pasta, Moro sequer foi comunicado, apesar da proximidade do Palácio da Justiça, que fica a cerca de 500 metros do Planalto. No entanto, foram chamados os ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Luiz Ramos (Secretaria de Governo) e Jorge Oliveira (Secretaria-Geral).

Sem Moro, rodeado de secretários, Bolsonaro decidiu transmitir a reunião em uma live em seu Facebook, o que tampouco é comum. Aos chefes das pastas de segurança nos estados, disse que estudaria a retomada do Ministério da Segurança Pública, o que esvaziaria o ministério de Moro. Hoje, nesta sexta, ele recuou. Mas foi ali que começaram as 48 horas mais delicadas da relação entre Bolsonaro e seu ministro mais popular. 

A fala de Bolsonaro aos secretários já estava ensaiada. Um aliado, o secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres, o procurou horas antes para pedir que recebesse o grupo.  

Anderson tem interesses na causa. É próximo de Alberto Fraga, que, por sua vez, é amigo pessoal do mandatário e nome cotado para assumir a agora naufragada pasta da Segurança Pública. Com ele na chefia, o comando da Polícia Federal também seria substituído. É Moro quem segura Mauricio Valeixo, diretor-geral da PF, que já esteve na corda bamba várias vezes. Fala-se em Torres para a cadeira. 

Para além de interesses próprios, o secretário do DF estava engasgado com a resposta, que considerou “atravessada”, do MJ na quarta (22) sobre a permanência de presos considerados altamente perigosos no Complexo Penitenciário da Papuda. Um deles é o líder do PCC, Marcola. 

A sequência de acontecimentos desagradou Anderson Torres e o fez articular junto aos secretários a demanda a ser levada ao presidente, sobre solicitar a recriação da pasta da Segurança Pública. Antes, contudo, ele tratou disso com o presidente. 

Na noite do dia anterior, na terça (21), Alberto Fraga esteve com Bolsonaro no Palácio da Alvorada e também já havia falado a respeito do tema. 

Um tuíte como resposta

Já havia acabado a reunião do mandatário com os secretários, na quarta, quando saiu a decisão do presidente interino do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Fux, suspendendo o juiz de garantias. O trecho adicionado ao pacote anticrime no Congresso, que foi amplamente criticado por Moro, havia sido sancionado por Bolsonaro.  

Pouco depois das primeiras notícias sobre a revogação do sistema - o caso vai ser julgado no plenário da Suprema Corte quando Fux, que é relator de quatro ações que questionam o tema, liberar o assunto para tal -, Moro comemorou a decisão do ministro em suas redes sociais. “Sempre disse que era, com todo o respeito, contra a introdução do juiz de garantias no projeto anticrime”, escreveu. 

Críticos da criação de um juiz de garantias - estabelecimento de outro magistrado a atuar na parte introdutória do processo - avaliam que isso poderia beneficiar diretamente o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ).

Como não houve denúncia pelo Ministério Público do Rio, o caso dele, a princípio, se enquadraria nas regras válidas no esquema do juiz de garantias. Ou seja, quem daria a sentença final, no fim dos trâmites, se houver denúncia do MP, seria um segundo juiz.

Esse foi mais um episódio que Bolsonaro interpretou como “afronta”. Interlocutores, contudo, afirmam que, na relação com Moro, é comum que o mandatário tenha esse tipo de avaliação.  

Com a bomba da recriação da pasta de Segurança Pública lançada, o presidente aguardou o dia seguinte para repetir, agora na porta do Palácio da Alvorada, com mais ênfase, sua intenção. Para ele, a repercussão estava baixa.  

“Isso é estudado. Estudado com o Moro. Lógico que o Moro deve ser contra, mas é estudado com os demais ministros. O Rodrigo Maia é favorável à criação da Segurança Pública, como trabalhou no ano passado, também seja favorável. Temos que ver como se comporta esse setor da sociedade para melhor decidir”, afirmou Bolsonaro na manhã de quinta-feira (23), antes de embarcar rumo à Índia. 

No Palácio da Justiça

De fato, Moro é contra. Ao aceitar ir para o governo, abdicou de 22 anos de magistratura, onde cuidava dos casos da Lava Jato, o que lhe alçou ao posto de “herói nacional” - o que inclusive deixa o chefe enciumado. 

No meio do tumulto da quinta-feira, Moro criou uma conta no Instagram para “alcançar outro público na divulgação dos trabalhos do MJSP”. Disse que foi um pedido de sua esposa, Rosângela. Ganhou 668 mil seguidores em 1 dia.

Ainda na quinta, chegou a dizer a interlocutores que sairia da pasta em caso de divisão - um recado seu a Bolsonaro, desta vez. A pessoas mais próximas, contudo, deu a entender que “tem planos maiores” e que eles incluiriam seguir na pasta, mesmo que ela fosse desfalcada.

Chegou a mandar uma mensagem falando em “voo em duas escalas”. Uma seria a indicação, que também lhe foi prometida lá no início por Bolsonaro, ao STF. A outra, a disputa pela Presidência da República, plano para o qual conta com o entusiasmo da esposa. 

Foi um dia de avaliações desencontradas e recados. A ideia era continuar capitalizando sobre os bons números de segurança sob Moro, mas manter uma guerra velada. 

Enquanto um clima de tensão se instalava em Brasília, Bolsonaro voava para Angola, onde o avião fez uma escala. 

E foi lá que recebeu a parte mais importante do recado: o governo poderia, sim, perder Moro. Era um risco real na avaliação de alguns palacianos. 

Mais uma vez, foi o ministro do GSI, Augusto Heleno, quem entrou em cena para apagar o incêndio. Ele telefonou para Moro e pediu calma. Rapidamente, também, o general se posicionou no Twitter, negando a intenção de Bolsonaro de recriar o Ministério da Segurança Pública.

Heleno já impediu a demissão de Moro uma outra vez, em agosto. Na ocasião, Bolsonaro estava decidido, influenciado outra vez pela ala radical do governo, a descartar o ministro.

O ápice da insatisfação - além de todas as questões que comumente o incomodam - ocorreu quando o chefe do MJ recorreu ao presidente do STF, Dias Toffoli, para pedir que ele revisse a liminar de junho na qual proibiu investigações que usassem dados de órgãos de controle. A decisão de Toffoli paralisou por quase seis meses investigações em todo o País, entre elas, a de Flávio Bolsonaro.

Foi Heleno quem trouxe Bolsonaro à razão, afirmando que abrir mão do ministro seria dar razão a argumentações da esquerda. 

Ao chegar à Índia, as primeiras perguntas que Bolsonaro ouviu foram sobre isso. E, ao contrário do que havia dito menos de 24 horas antes, disse que a divisão do ministério neste momento “está descartada”, que a chance ”é zero”. Mas completou, ainda deixando a questão no ar: “Não sei amanhã. Em política, as coisas mudam”.  

Enquanto o chefe falava em Nova Déli, Moro se encontrava com o vice-presidente, Hamilton Mourão, que ocupa a Presidência interinamente até o retorno de Bolsonaro, na terça (28). Foi o mandatário quem pediu a Mourão que conversasse com o ministro. O vice também pediu ao chefe do MJ paciência e calma. Ele é, inclusive, outro alvo de ataques e constantes conflitos com o presidente.

O brilho de Moro mais que incomoda. Alerta. Pesquisa Datafolha apontou que ele vence em popularidade na comparação com o presidente. Ao mesmo tempo em que bate de frente com o ministro, Bolsonaro tenta limar seus impulsos eleitorais para 2022, falando em transformá-lo em seu vice.

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