OPINIÃO
23/01/2020 03:00 -03 | Atualizado 23/01/2020 09:46 -03

'1917' é um pastel de vento

Filme do britânico Sam Mendes capricha no visual, mas falha em envolver emocionalmente o espectador.

Em um ano em que a Netflix reforça seu investimento em produções dirigidas por cineastas de renome como Martin Scorsese (O Irlandês) e Noah Baumbach (História de um Casamento) e em que filmes dividem opiniões como Coringa, de Todd Phillips, e Era Uma vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino, a aposta “segura” da Academia no Oscar 2020 é, certamente, 1917.

A grande vantagem do thriller de guerra do britânico Sam Mendes sobre seus concorrentes mais fortes à estatueta de Melhor Filme é que ele não incomoda ninguém. Mantém o status dos estúdios tradicionais sobre a gigante do streaming, não entra em polêmicas e possui o atrativo do apuro técnico de seu grande plano-sequência.

Aliás, essa última característica é a pedra fundamental de 1917. Seu ponto forte e, ao mesmo tempo, seu calcanhar de Aquiles. É um caso típico da forma que se impõe sobre o conteúdo. Um pastel de vento. Um belo pastel, verdade, mas sem recheio.

Divulgação
A belíssima fotografia do veterano Roger Deakins é um dos trunfos de "1917".

Sua campanha de marketing o vende como uma “experiência cinematográfica” como se cinema fosse algo parecido com uma atração de parque de diversões. Um espetáculo de imagem e som que vai colocá-lo nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. O resultado, porém, funciona mais ou menos como um daqueles memes de “expectativa X realidade”.  

Narrar uma história em um grande plano-sequência (teoricamente um filme feito em uma só cena, contínua) não é uma novidade. Longe disso, aliás. Começou lá em 1948, com Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock. E, assim como o mestre Hitch, Mendes não faz aqui um plano-sequência “puro”. Há cortes no filme, e alguns bem visíveis. Mas essa discussão técnica não vem ao caso. O que falta a 1917 não é esmero técnico, mas alma, coração.

O espectador pode se envolver com uma cena baseada na técnica, como o desembarque nas praias da Normandia em O Resgate do Soldado Ryan (1998), para usar outra história de guerra como exemplo, mas em um filme inteiro é necessário um vínculo emocional com a trama ou um personagem. E, nisso, 1917 falha miseravelmente.

Divulgação
George MacKay se esforça para dar alguma emoção à jornada de seu cabo Schofield.

Por mais que George MacKay se esforce muito em sua atuação “sofredora” estilo Leonardo DiCaprio em O Regresso (2015), não há como nos identificar com o drama de seu Schofield. Simplesmente porque não sabemos absolutamente nada sobre Schofield. O pouco de história pregressa que temos como base de construção de um personagem é de Blake (Dean-Charles Chapman), mas é um fiapo.

Soma-se a isso o estilo “limpinho” de Mendes, em que os horrores da guerra são café com leite perto de tantas outras produções que mergulharam nessa questão, como Vá e Veja (1985), O Filho de Saul (2015) e Johnny Vai à Guerra (1971), este sim um aterrorizante e sensível retrato da Primeira Guerra Mundial. 

Dito isso, 1917 é um filme ruim? Não. Longe disso. Por mais que force soluções “mágicas” na caminhada de seus protagonistas pelo inferno da guerra e lhe falte humanismo, Mendes e (principalmente) o veterano fotógrafo Roger Deakins conseguem entregar uma produção de grande beleza estética. Certamente uma “experiência visual” das boas, mas que não reverbera na alma do espectador. É um filme frio. Falta tesão. E não há coisa que a Academia odeie mais do que tesão.