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10/10/2020 08:26 -03 | Atualizado 10/10/2020 08:26 -03

Sem 'fazer lição de casa', Brasil se aproxima de 150 mil mortos por covid-19

"Ter 800 mortos por dia ao invés de 1.000, ainda é muita gente morrendo. A pandemia não acabou", afirma a microbiologista da USP, Natália Pasternak.

Amanda Perobelli / Reuters
"Você ter 800, 600 mortos por dia ao invés de 1.000, ainda é muita gente morrendo por causa do vírus", diz Natália Pasternak, bióloga e fundadora do Instituto Questão de Ciência.

Com uma média de 615 novos registros diários na última semana, o Brasil deverá atingir nas próximas horas o marco trágico de 150 mil mortes causadas pela covid-19 registradas em menos de 7 meses. A primeira morte foi notificada em 17 de março no País. Em junho, 14 semanas depois, o registro chegou a 50 mil óbitos, e demorou apenas 7 semanas para o Brasil ultrapassar 100 mil mortos. Desde então, foram 9 semanas e mais 50 mil perdas. 

A dimensão numérica do impacto da pandemia, mesmo que apresentando uma estabilização e diminuição no momento atual, ainda ultrapassa de longe todas as outras tragédias nacionais e as causas mais comuns de óbitos no País. 

Após meses de uma crise conduzida por um governo que minimiza os impactos do vírus e cria uma “falsa dicotomia” entre saúde e economia, especialistas à frente do debate sobre a epidemia afirmam ao HuffPost que o Brasil, diferente de outros Países, “não fez a lição de casa” e que o cenário que se apresenta até este momento podia ter sido menos devastador.

“Nós temos que lembrar, sobretudo, que há uma subnotificação dos casos. Estamos num ponto onde não fizemos a nossa lição de casa”, diz Natália Pasternak, bióloga e fundadora do Instituto Questão de Ciência, que lidera um esforço para traduzir ciência para a população. “Não implementamos uma boa quarentena, em parte porque a população não aguenta mais, em parte porque o País não aguenta mais. E corremos agora o risco do ‘liberou geral’ e vai chegar muito facilmente aos 200 mil mortos.”

Há um atraso entre o dia em que a morte ocorreu e o dia em que essa informação foi confirmada em laboratório que pode ser superior a um mês. Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no processamento de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais, o que pode levar à subnotificação dos casos. 

Bruno Kelly / Reuters
A primeira morte foi notificada em 17 de março no País. Em junho, 14 semanas depois, o registro chegou a 50 mil óbitos, e demorou apenas 7 semanas para o Brasil ultrapassar 100 mil mortos. Desde então, foram 9 semanas e mais 50 mil perdas. 

Nas últimas semanas, o Brasil viu a epidemia cair de um patamar semanal de cerca de 40 mil casos novos por dia para uma média de 27 mil casos por dia, segundo dados do Ministério da Saúde, referentes à semana epidemiológica encerrada no último sábado (3). Junto com a desaceleração dos casos também houve redução no número de mortes, caindo das 890 por dia em média no final de agosto, para 654 óbitos por dia na última semana analisada em setembro.

“A gente vê, de fato, uma desaceleração [nos casos e mortes]. Mas isso não quer dizer que a pandemia acabou. São coisas diferentes. Você ter 800, 600 mortos por dia ao invés de 1.000, ainda é muita gente morrendo por causa do vírus. Essa desaceleração poderia ser muito mais rápida como foi em outros países se as medidas de quarentena fossem melhor implementadas, se houvesse mais adesão, uma comunicação melhor com a população. Tudo isso levaria a uma redução mais drástica dessa curva”, pontua a especialista. 

O Brasil registrou na última sexta-feira (9), 682 novos óbitos, o que elevou o total de mortes pela doença no País a 149.639 e ainda mais próximo dos 150 mil, de acordo com levantamento do Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde), com registros dos estados compilados até as 18h. Foram notificados 27.444 novos casos da doença provocada pelo coronavírus.

Nesta semana, o País também atingiu a marca de 5 milhões de casos. Na comparação internacional, o Brasil se tornou o terceiro País do mundo, depois de Estados Unidos e Índia, a ultrapassar dos 5 milhões de casos do novo coronavírus.

A marca foi superada 34 dias após o país bater a marca de 4 milhões de casos, o que representa o período mais longo para se acumular 1 milhão de casos no País após o primeiro milhão, mas ainda uma redução lenta em comparação a países europeus depois que saíram do pico.

O Brasil é o segundo com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins, atrás apenas dos Estados Unidos, mas ainda há fortes indícios de subnotificação.

O Brasil não está ‘resolvendo totalmente’ o problema 

Adriano Machado / Reuters
O Brasil é o segundo com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins

O secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, em coletiva de imprensa nesta sexta, afirmou que o Brasil não está “resolvendo totalmente” o problema da doença, mas tem conseguido controlar os efeitos da pandemia e permitir o retorno gradual das atividades com um “novo normal”.

O estado de São Paulo, por exemplo, é um dos que avançou nesta semana para a fase verde do plano de reabertura da economia do em meio à pandemia. Esta fase permitirá que shoppings centers, bares e restaurantes operem com maior ocupação. Cinemas e museus serão reabertos.

Para Pasternak, a reabertura é necessária, mas é preciso cautela e atenção. “Nós precisamos ter algum tipo de flexibilização até porque é humanamente cruel ficar tanto tempo em quarentena, o ser humano não foi feito para isso. Mas não podemos confundir flexibilização com ‘liberar geral’. As pessoas estão entendendo isso como sinônimo de ‘a pandemia acabou’. A pandemia não acabou.”

“A gente precisa de flexibilização, mas ela precisa ser ponderada”, pontua a especialista. “Não faz sentido fazer essa flexibilização abrindo cinemas, bares, restaurantes fechados, com ar condicionado e querer abrir todas as escolas de uma vez, nesse cenário. Isso é um cenário preocupante que pode levar a curva a subir novamente, aumentar o caso de número de mortes.” 

A bióloga também lembra que “ao mesmo tempo em que a gente se esforça para informar a população, a gente bate de frente com o esforço contrário que vem do próprio governo federal e do Ministério da Saúde, que é um esforço de desinformar a população”.

Desde o início da pandemia, o presidente adotou uma postura negacionista. Enquanto a comunidade científica enfatizava a importância do isolamento social para frear o ritmo de transmissão do SARS-CoV-2, Bolsonaro encampou o discurso de que era preciso “salvar empregos” e de que a doença era apenas uma “gripezinha”. O fechamento do comércio nas cidades passou a ser tratado como uma disputa política, em um falso dilema entre economia e saúde. 

“A polarização de saúde e economia é uma dicotomia falsa, não existe você recuperar uma economia em uma situação de medo, onde as pessoas não vão conseguir praticar as atividades econômicas de uma maneira normal”, diz Pasternak.

No livro Um paciente chamado Brasil, lançado em 25 de setembro pela editora Companhia das Letras, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta relata o funcionamento do governo e os episódios que levaram à sua demissão, em abril. Ele deixa claro que alertou o presidente sobre a gravidade da situação e que a estratégia negacionista foi uma escolha consciente de Bolsonaro.

″É muito difícil. No raciocínio político dele, saúde é que é pauta municipal. É desgaste para prefeito. Ele acha que a pauta do governo federal é economia. Como você tinha um programa de para-choque, de anteparo da crise sócio-econômica, esse programa feito pelo Congresso cria uma bolha de proteção, e as pessoas se sentem protegidas”, disse em entrevista ao HuffPost.

Um dos episódios é uma reunião em 28 de março no Palácio do Alvorada, em que Mandetta apresentou ao presidente e aos ministros os cenários elaborados pela equipe técnica do ministério. No mais grave, o Brasil teria 180 mil mortes por covid-19.

Segundo o epidemiologista João Cássio de Moraes, da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), são múltiplos os fatores para o País ter alcançado a trágica marca de 150 mil mortos . 

“O Brasil é um país continental, enorme, com muitos fatores para chegarmos a este número. Há que se levar em conta a subnotificação dos casos também. Porém, está claro que não houve uma uniformidade de ação nacional desde o início e que isso prejudicou o combate à doença. Os estados fizeram as coisas da maneira que eles acreditavam ser corretas. Faltou coordenação por parte do Ministério da Saúde para a aplicação de protocolos, de tudo.”

Hoje, a cúpula do Ministério da Saúde é formada por pessoas sem experiência em gestão do sistema de saúde, em um processo de militarização. Durante o lançamento da Campanha do Outubro Rosa de 2020, nesta semana, o ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, disse que só conheceu o SUS (Sistema Único de Saúde) “neste momento da vida”. 

Ricardo Moraes / Reuters
"Não podemos confundir flexibilização com ‘liberar geral’. As pessoas estão entendendo isso como sinônimo de ‘a pandemia acabou’. A pandemia não acabou", diz Pasternak.

“Eu não sabia nem o que era o SUS. Eu passei a minha vida sendo tratado em instituição pública do exército, vim conhecer o SUS a partir deste momento da vida e compreendi a magnitude dessa ferramenta que o Brasil nos brindou”.

Desde maio, a pasta passou a contar com 25 militares em postos de comando e mais de 300 em cargos nos demais escalões. É unanimidade entre os sanitaristas que a falta de uma atuação coordenada em âmbito nacional foi o principal erro no combate à pandemia. 

O SUS já estava em crise, em especial a região norte, uma crise muito violenta, e com a covid, essa crise exteriorizou, mostrando a debilidade que a gente já tinha no sistema, que chegou a colapsar em alguns estados”, pontua Moraes.

“A doença ainda é muito desconhecida. A gente não sabe, por exemplo, o que está debaixo do iceberg, os que foram infectados e estão assintomáticos. Ainda não dá para saber se teremos uma segunda onda ou não. Você não sabe se teremos uma segunda onda ou não. Não dá pra ter bola de cristal.”

Vacina não pode ser ‘bala de prata’

Para o especialista, nesse contexto, a vacina não pode ser entendida como uma “bala de prata”, ou seja, como a única solução para conter o vírus.

Thomas Peter / Reuters
Diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) disse nessa semana, disse que uma vacina contra a covid-19 pode estar pronta até o fim deste ano.

Eu considero que a vacina não é uma bala de prata. Não dá para esperar uma vacina para reabrir as escolas, por exemplo. É preciso pensar em um plano a longo prazo. Nunca se produziu uma vacina tão rápido, mas é preciso levar em conta o tempo de testagem, de produção, e distribuição. Isso não é para agora.”

Pasternak avalia que é possível ter algumas vacinas aprovadas até o final do ano. Mas isso não significa que as pessoas serão vacinadas rapidamente.

“Vacina aprovada não significa vacina aplicada no meu braço no posto de saúde”, explica. “Vai demorar, e a vacina não pode ser a nossa única esperança para controlar a pandemia. Nós temos outras ferramentas que são as medidas preventivas, que funcionam.”

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) disse nessa semana que uma vacina contra a covid-19 pode estar pronta até o fim deste ano, sem dar mais detalhes. Sem 'fazer lição de casa', Brasil se aproxima de 150 mil mortos por Sem 'fazer lição de casa', Brasil se aproxima de 150 mil mortos por

Ele pediu solidariedade e compromisso político de todos os líderes para garantir a distribuição igualitária de vacinas, assim que elas se tornarem disponíveis. “Vamos precisar de vacinas e há esperança de que possamos ter uma vacina até o final deste ano. Há esperança”, disse.

O futuro da pandemia no Brasil 

As milhares de mortes comovem cada vez menos a população em um cenário onde a reabertura das cidades foi decidida enquanto a epidemia ainda estava descontrolada

A transmissão do vírus controlada e um sistema de saúde com capacidade de detectar, testar, isolar e tratar todas as pessoas com coronavírus e os seus contatos mais próximos são dois requisitos para flexibilização do isolamento recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e ignoradas pelos governantes no Brasil.

Apesar de ter sido observado certo arrefecimento da epidemia de modo geral, a crise sanitária ainda segue grave em boa parte do País, especialmente em estados do Norte e Nordeste. Acre, Amazonas, Amapá, Rondônia, Ceará, Pernambuco, Rio Grando do Norte e Rio Grande do Sul  registraram alta de mortes por covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde. 

Bruno Kelly / Reuters
O Brasil registrou na última sexta-feira (9), 682 novos óbitos, o que elevou o total de mortes pela doença no País a 149.639 e ainda mais próximo dos 150 mil, de acordo com levantamento do Conass.

O País apresenta no momento o terceiro maior número de casos novos (188.842), mantendo sua tendência à redução e estabilização em seus registros desde a semana encerrada em 5 de outubro, diz o boletim. A taxa de incidência até o dia 03 de outubro de 2020 foi de 2.335 casos por 100 mil habitantes, enquanto a taxa de mortalidade foi de 69,5 óbitos por 100 mil habitantes.

Devido à forma como é transmitido o novo coronavírus - por meio do contato com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse e catarro - restringir a circulação de pessoas é a única forma de frear a contaminação. Reduzir esse ritmo é determinante em um cenário em que os recursos dos sistema de saúde são limitados, desde leitos de UTI até médicos intensivistas e medicação usada para sedar pacientes que precisam desse tipo de cuidado.

Quando olhamos os dados acumulados nacionais, os gráficos epidemiológicos assumiram a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes acumulados. Por outro lado, os casos e óbitos diários, que indicam o ritmo da epidemia, ainda não estabilizaram totalmente.

Houve uma inversão de comportamento ao longo do tempo, com a interiorização da epidemia. Segundo boletim finalizado na semana de 3 de outubro pelo Ministério da Saúde, 59% dos casos novos foram em municípios do interior e 50% dos óbitos nas regiões metropolitanas.

Já a média diária de óbitos na última semana analisada foi de 654, uma queda de 6% na comparação com a semana encerrada em 26 de setembro, quando foram registrados 696 óbitos por dia. A primeira vez que o Brasil registrou mais de mil mortes por dia foi em 19 de maio. Desde então, isso aconteceu mais de 40 vezes.

Quanto aos casos, a semana encerrada em 31 de julho foi uma das mais graves da pandemia do novo coronavírus no Brasil. A média diária de diagnósticos foi de 44.766, patamar semelhante ao da semana anterior (45.665), recorde até o momento.

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