COMPORTAMENTO
18/01/2019 12:53 -02

Por que o #10yearchallenge pode ser uma ameaça à sua privacidade

O "desafio dos 10 anos", viral que tomou conta das redes sociais, é um bom exemplo de como abrimos mão da nossa privacidade espontaneamente.

“Eu em 2009: provavelmente compartilharia minha foto de perfil e participaria de uma corrente no Facebook e Instagram sem nenhum problema.

Eu em 2019: como será que as empresas poderiam usar todos esses dados para treinar algoritmos de reconhecimento facial ao longo do tempo?”

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, os dados pessoais são “uma nova classe de ativos econômicos” e “a moeda do mundo digital”.

Mas como nós, meros seres humanos, lidamos com eles?

O desafio dos 10 anos (#10yearchallenge), viral que tomou conta dos perfis em redes sociais nos últimos dias, pode ser uma boa ilustração de como abrimos mão da nossa privacidade espontaneamente.

A brincadeira do momento consiste em compartilhar, lado a lado, duas fotografias, sendo uma de 2009 e outra recente, de 2019. Para os usuários, é uma boa oportunidade de comparar as mudanças entre os dois períodos.

Mas disponibilizar esse conteúdo de forma autônoma também é um prato cheio para que algoritmos de inteligência artificial possam ser calibrados com base no reconhecimento facial e na análise do envelhecimento.

O Facebook negou ter qualquer envolvimento com o #10YearChallenge. “Este é um meme gerado pelo usuário que se tornou viral”, explicou um porta-voz da empresa.

“O Facebook não iniciou essa moda, e o meme usa fotos que já existem na plataforma. O Facebook não ganha nada com esse viral. Mas lembramos que os usuários do Facebook podem optar por permitir ou não o reconhecimento a qualquer momento.”

Para Kate O’Neill, autora de Tech Humanist, mesmo sem o envolvimento direto da empresa, graças a esse meme, agora há disponível um conjunto organizado de dados cuidadosamente selecionados pelas próprias pessoas, muitas vezes com referência geográfica e conteúdos adicionais. 

NurPhoto via Getty Images
“Nossos dados são o combustível para que as empresas sejam mais inteligentes e lucrativas."

O temor remete ao escândalo da Cambridge Analytica, que usou um jogo supostamente inofensivo para recolher informações de mais de 80 milhões de usuários do Facebook em todo o mundo.  

″É ruim que alguém possa usar suas fotos do Facebook para treinar um algoritmo de reconhecimento facial? Não necessariamente. De certa forma, isso é inevitável. Ainda assim, o que está em jogo aqui é que precisamos pensar sobre as nossas interações com a tecnologia, prestando atenção nos dados que disponibilizamos e como eles podem ser usados em larga escala”, argumenta O’Neill em texto publicado na The Wired.

Para a autora, o maior aprendizado diante desse tipo de viral é que as interações humanas são as principais fontes de dados que tornam a internet um negócio interessante.

“Nossos dados são o combustível para que as empresas sejam mais inteligentes e lucrativas. Devemos exigir que essas empresas tratem os dados com o devido respeito. Mas também precisamos cuidar dos nossos próprios dados”, defende.

Para Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, é preciso um exercício de conscientização para colocar as pessoas no centro desse debate.

“A privacidade tem que ser vista como um valor social. Isso era muito forte antigamente, sempre foi um valor para a gente. Mas em um mundo em que a coleta de dados sobre a vida privada não se limita a quem está bisbilhotando a nossa janela, a gente precisa reaprender como valorizar a nossa vida privada”, reflete.

“Quem tem informações sobre a nossa intimidade tem poder sobre nós. A gente não pode deixar que as pessoas ou empresas tenham um poder sobre nós de graça e sem transparência, assim, de repente.”