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25/02/2019 11:20 -03 | Atualizado 25/02/2019 15:33 -03

Tragédia de Brumadinho completa 1 mês com muitas perguntas sem respostas

Rompimento da barragem deixou 179 mortos e 131 desaparecidos.

DOUGLAS MAGNO via Getty Images
A Vale justifica que a barragem estava inativa desde 2016  e tinha todas as declarações de estabilidade aplicáveis. 

A quantidade de perguntas sem respostas mostra que em 1 mês após a tragédia de Brumadinhoainda há muito pela frente. Incertezas em relação ao futuro marcam as vidas da cidade, o meio ambiente e até mesmo o destino da mineração no País. Uma das poucas certezas é que o trabalho de reconstrução segue. Os bombeiros, por exemplo, estimam em mais 4 meses de atividade. Eles tentam localizar 131 desaparecidos no mar de lama que tomou conta da região. Já são 179 mortos.

A barragem da Vale na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), que continha 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, rompeu por volta do meio-dia de 25 de janeiro. A avalanche de lama pegou em cheio o refeitório da empresa, onde muitos funcionários estavam para o almoço, além de comunidades, rios e matas.

Famílias inteiras foram afetadas. Toda dinâmica da cidade mudou. Pesquisas mostram que a cada pessoa atingida diretamente, há pelo menos 3 que também sofrem a partir dela. A seguir o exemplo da tragédia com o rompimento da barragem de Mariana, em 2015, que deixou 19 mortos e era considerado o pior desastre ambiental do Brasil, os impactos ainda podem aparecer em forma de depressão, transtorno de ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático.

Diferentemente do que ocorreu em Mariana, a Vale ofereceu doação de R$ 100 mil a cada família de vítima e disse que continuaria a pagar ao menos por um ano uma renda para moradores da cidade e do entorno no Rio Paraopeba. O pagamento, segundo nota da Vale à Rede Globo, será de um salário mínimo mensal por adulto, meio salário por adolescente e 25% por criança.

A questão da indenização ainda é uma incógnita. Ao HuffPost Brasil, o coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Pablo Dias, destacou que as comunidades atingidas precisam participar de maneira ativa e ter sua voz validada no processo de construção do plano de reparação.

“Em Mariana, as mineradoras tiveram todo o controle do processo de reestruturação, não só financeiro, mas em todas as ações. Era o criminoso dizendo o que as vítimas precisavam”, disse.

A Vale justifica que a barragem estava inativa desde 2016  e tinha todas as declarações de estabilidade aplicáveis. A empresa diz ainda que havia inspeções quinzenais. A última tinha sido feito em 21 de dezembro de 2018.

“A estrutura passou também por inspeções nos dias 8 e 22 de janeiro deste ano, com registro no sistema de monitoramento da Vale. Foram realizados ainda um simulado externo de emergência em 16 de junho de 2018, sob coordenação das Defesas Civis e com o apoio da Vale, e um treinamento interno com os empregados em 23 de outubro de 2018”, disse a empresa.

A companhia, entretanto, ainda não explicou a causa do rompimento. De acordo com o subsecretário de Regularização Ambiental, da secretaria do meio ambiente do Estado, Hidelbrando Neto, o desastre pode ter sido causado por liquefação (mudança de fase no rejeito que ocorre geralmente em decorrência de vibrações na terra), o que já ocorreu em outros grandes desastres no mundo em estruturas com o mesmo método de construção de Brumadinho (MG), com tecnologia de alteamento a montante — sistema mais barato.

Washington Alves / Reuters
Além de Brumadinho, outros 16 municípios mineiros por onde o rio passa foram afetados. 

Meio ambiente

Os rejeitos foram parar no Rio Paraopeba, que abastece a região, e tornou a água imprópria para qualquer tipo de uso. Foi detectada presença de metais acima do nível permitido pela legislação ambiental. 

Nota das secretarias de Saúde, Meio Ambiente e Agricultura alertam para os perigos. “A orientação de não se utilizar a água bruta do rio, sem tratamento, é válida para qualquer finalidade: humana, animal e atividades agrícolas.”

Além de Brumadinho, outros 16 municípios mineiros por onde o rio passa foram afetados. São mais de 250 km de rio contaminado. Na última semana, sinais de rejeitos no rio chegaram à cidade Papagaios, na região central de Minas.

Mineração

A principal atividade econômica de Brumadinho é a extração de minério. A Vale não é só a maior empregadora da cidade, como é responsável também por 20% da arrecadação do município por causa do pagamento da compensação ambiental. No ano passado, foi de R$ 35,6 milhões.

O próprio prefeito da cidade reconhece que não sabe o que fazer sem essa compensação. “Se a gente perder essa arrecadação, não vamos conseguir atender nem os serviços básicos”, disse Neném da Asa, logo após a tragédia.

Ainda não se sabe o que a Vale pretende fazer, se irá demitir os funcionários e o que vai fazer com a mina.

Após o rompimento da barragem, a Agência Nacional de Mineração determinou a desativação em todo o país de barragens construídas pelo método usado em Brumadinho, o de alteamento a montante. Essa mesma técnica de contenção também era usada em Mariana — barragem que rompeu em 2015.

Vale

A decisão da agência veio depois de Vale anunciar o fechamento de todas as barragens que usam essa mesma técnica. A suspensão das atividades nessas minas e na região de Brumadinho causará impacto de 10% na produção anual de minério da empresa. O custo da desativação será de aproximadamente R$ 5 bilhões.

“É um plano drástico e definitivo. Nós temos os laudos de estabilidade e auditorias recentes que comprovam que nossas estruturas são seguras. Mas resolvemos não aceitar apenas esses laudos. Vamos agir de outra maneira”, afirmou o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, 4 dias após a tragédia.

A Vale também suspendeu o pagamento de dividendos e juros sobre o capital próprio, a recompra de ações de sua própria emissão e os pagamentos de remuneração variável a executivos.

Mais riscos

No último mês não faltaram alertas de novos riscos de rompimento de barragens. Um deles ocorreu no dia 8, quando cerca de 500 pessoas tiveram de deixar suas casas na região de Barão de Cocais (MG). A ordem da ANM foi baseada no laudo da empresa Walm, que negou a Declaração de Condição de Estabilidade à Barragem Superior Sul. 

A barragem da Vale está entre as operações de mineração que serão desativadas.