OPINIÃO
12/05/2015 17:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A cidade do futuro será assim

Muito das discussões sobre nosso futuro urbano provavelmente vai se referir à distribuição do recurso físico urbano mais valioso: as ruas. Democraticamente, todo cidadão tem direitos iguais de uso da rua, tenha ele um carro ou não. Como devemos dividir o espaço das ruas entre pedestres, ciclistas, transporte público e carros?

EMBARQ Brasil/Flickr
Passeio ciclístico por Bogotá - 06 de maio de 2012Grupo 2 (Bogotá - Medellín - Cleveland)Foto: Mariana Gil/ EMBARQ Brasil

BOGOTÁ - As pessoas estão tão acostumadas a situações terríveis que deixam de enxergar o que está errado. Menos de cem anos atrás, as mulheres não podia votar; a situação era amplamente aceita. Hoje, estamos tão acostumados com nossas cidades que não temos consciência das melhorias que podem ser realizadas.

Espero que em 200 anos as pessoas digam: "Como as pessoas conseguiam morar naquelas cidades horríveis em 2015?". Nosso habitat humano de hoje não está um pouco errado. Está muito errado. Com esperança, logo haverá uma mudança de paradigma radical sobre o que deveriam ser as cidades e a vida urbana. Uma cidade, no fim das contas, é só um meio para um modo de vida. Mais que nunca, a vida acontece fora das casas, em vez de dentro delas: uma boa cidade torna a vida mais feliz qualquer que seja o nível de desenvolvimento econômico da sociedade.

O que está errado com nossas cidades hoje? Primeiro, temos medo de ser mortos. Falamos para uma criança de 3 anos: "Um carro!", e a criança pula, assustada. Por bom motivo: dezenas de milhares de crianças são mortas por carros todo ano. Por que achamos que não há nada errado quando as crianças crescem sob o risco de serem mortas?

"Como as pessoas conseguiam morar naquelas cidades horríveis em 2015?"

Temos cidades há mais de 6 mil anos. Até muito recentemente, uma criança podia andar nelas sem medo. Em 1900, ninguém foi morto por um carro nos Estados Unidos... porque os carros não existiam. Apenas 20 anos depois, como escreve Peter Norton, professor da Universidade de Virgínia, em seu livro Fighting Traffic (combatendo o trânsito, em tradução livre), mais de 200 000 pessoas foram mortas por carros.

Só em 1925, carros mataram cerca de 6 000 crianças. As cidades e a vida nas cidades tinham mudado. Deveríamos ter começado a fazer cidades diferentes para acomodar os carros, nas quais as ruas seriam alternadas: uma para carros, outra para pedestres, por exemplo. Mas, em vez disso, só aumentamos o tamanho das ruas, cada vez mais.

É um truísmo dizer que cidades são para as pessoas. O desafio urbano das próximas décadas é realmente transformar isso em realidade: reservando metade de cada rua para pedestres e ciclistas, ou criando vias específicas para quem quer andar a pé ou de bicicleta.

Muito das discussões sobre nosso futuro urbano provavelmente vai se referir à distribuição do recurso físico urbano mais valioso: as ruas. Democraticamente, todo cidadão tem direitos iguais de uso da rua, tenha ele um carro ou não. Como devemos dividir o espaço das ruas entre pedestres, ciclistas, transporte público e carros?

Em alguns anos, provavelmente vai ficar claro que estacionamento não é um direito constitucional. O estacionamento nas ruas pode ser progressivamente eliminado, e o espaço livre pode ser usado para calçadas mais largas e ciclovias. Espero que ciclovias protegidas se tornem mais que um detalhe arquitetônico bonitinho - como calçadas, eles devem ser um direito urbano fundamental para os moradores das cidades. E todas as ruas terão a sua. Do contrário, a implicação é que só aqueles com veículos motorizados têm direito à mobilidade sem correr o risco de morrer.

"É um truísmo dizer que cidades são para as pessoas. O desafio urbano das próximas décadas é realmente transformar isso em realidade."

Se todos os cidadãos são iguais, como proclamam as constituições, um ônibus com 80 passageiros tem direito a 80 vezes mais espaço na rua do que um carro com um único passageiro. E, de uma perspectiva técnica, faixas exclusivas para ônibus são a maneira mais eficiente de usar o escasso espaço das vias. Em pouco tempo, espero, ônibus públicos nunca mais ficarão presos no trânsito - eles circularão em faixas exclusivas.

Estradas urbanas são como rios envenenados, perto das quais os seres humanos não podem ficar parados nem caminhar. Elas também são obstáculos que restringem as pessoas, como cercas num pasto, e reduzem o valor das propriedades. Vamos colocar essas pistas debaixo da terra e criar parques na superfície. Ou então transformá-las em bulevares com semáforos, grandes caçadas, árvores e prédios com belas fachadas.

Espero que as cidades do futuro façam os cidadãos se sentirem mais iguais e incluídos. Princípios democráticos como priorizar o bem público em vez do privado não serão só belas palavras. Por exemplo, praias e margens de rios e lagos não serão privados e exclusivos e terão infra-estrutura para que todos os pedestres possam delas desfrutar.

"Vamos colocar essas pistas debaixo da terra e criar parques na superfície."

Que propriedades perto de parques tenham um valor significativamente mais alto é evidência da falta de parques. Muitas cidades em países em desenvolvimento, particularmente nas áreas mais pobres, sofrem com a escassez de parques. Mesmo que demolições sejam necessárias para criar parques e áreas verdes públicas.

Mais de 80% das cidades dos países em desenvolvimento que existirão em 2065 ainda não foram construídas. O que ainda está por ser construído pode ser diferente e melhor do que as cidades existentes hoje.

Mas não é só no mundo em desenvolvimento que as cidades crescem rápido. Mais de 58 milhões de novas casas precisam ser construídas nos Estados Unidos nos próximos 40 anos, segundo os cálculos mais recentes; é o número de casas hoje existentes na França e no Reino Unido, somadas. Onde essas casas serão erguidas? E como?

Será que elas serão construídas em subúrbios cada vez mais distantes? Serão arranha-céus no centro das cidades, de onde as crianças sairão para encontrar calçadas estreitas e ruas grandes e perigosas? Será possível tornar os subúrbios mais próximos ambientes de alta densidade?

Os benefícios da densidade são conhecidos, mas a maioria das pessoas não quer morar em ambientes como Manhattan ou Hong Kong. Um desafio urbano para as próximas décadas será criar cidades densas que ofereçam muito mais do que as pessoas procuram no subúrbio: parques verdes e espaços seguros e livres de carros onde as crianças possam andar de bicicleta.

Bogotá, a cidade de que fui prefeito entre 1998 e 2001, é uma cidade muito densa, mas construímos mais de 60 quilômetros de caminhos verdes e ciclovias. Por que isso não é mais recorrente? Precisamos de cidades em que uma rua sim, outra não, seja verde, com formidáveis estruturas para pedestres e ciclistas. Essas vias podem ser cortadas por linhas de ônibus ou bondes.

Nas cidades do futuro, andar a pé ou de bicicleta não será só seguro, mas também um prazer. Transporte público confortável, frequente, rápido e de boa qualidade também será ubíquo.

Falar de uma cidade diferente é falar de um jeito de viver diferente - algo difícil. Mas é alcançável. E pode trazer mais felicidade.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.