OPINIÃO
04/09/2015 17:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Refém da faculdade: O diário de um bolsista do Prouni

Por Kayam Mendes, 19 anos, morador do Capão Redondo, zona sul de São Paulo

Saí de quatro empregos num só semestre: a seguradora dava VR farto e aprendizado de escritório, mas batia com o horário da faculdade; a escola de inglês tentou me entubar sete turmas, mas atrasou o salário; a cooperativa me cobrava metas que nem os veteranos alcançavam; o restaurante me deixou preso na pia e com jornadas bem além do horário.

Meu nome é Kayam Alves Mendes, tenho 19 anos e moro no Capão Redondo, um dos bairros mais violentos de São Paulo, na zona sul. Desde fevereiro, sou estudante de jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma instituição tradicional que tem 145 anos e fica no bairro de Higienópolis, um dos mais nobres da cidade, na região central.

Atualmente, o Mackenzie tem 32 mil alunos, dos quais 3,3 mil bolsistas integrais e parciais. Eu sou um deles.

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A mensalidade do curso custa hoje R$ 1.913, por isso estou lá graças à bolsa integral que consegui pelo ProUni (Programa Universidade para Todos), que paga os estudos para estudantes de baixa renda com base na nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Quando consegui a bolsa, fiquei muito feliz. O meu curso é reconhecido pelo mercado e eu tinha certeza que o conteúdo seria bom. Até aí, tudo dentro dos conformes.

Eu sabia que iria conviver com pessoas muito diferentes de mim, com muita grana e outras vivências e isso ficou claro já no primeiro dia de aula. Um professor perguntava por que escolhemos jornalismo e uma colega de classe respondeu: "Ah, não sei! Verei se gosto, se não, eu volto pros Estados Unidos e penso mais um pouco".

Aquela foi a primeira das muitas vezes em que ficou clara a distância entre as vidas dos meus colegas e a minha. Recentemente, foram publicadas fotos de pichações contra negros e nordestinos nos banheiros da faculdade. Ouvi uma colega de classe dizendo que não concorda com bolsistas na sala.

Refém da "facul"

O curso de jornalismo, que existe há 15 anos, tem um horário bem particular: das 13h às 17h40. É estranho o suficiente para virar refém da faculdade. Sem conseguir um trabalho bacana que se encaixe nele, estou me endividando e, às vezes, fico bem desanimado.

Depois dos quatro empregos perdidos desde o começo do ano, continuo procurando uma vaga, mas já penso em outras alternativas.

Estou acompanhando uma possível mudança na lei pra pedir uma bolsa permanente do ProUni, de R$ 400. Hoje, só alunos com 6 horas de aula por dia podem pedir, e meu curso tem menos de 5 horas.

Já imaginei largar a faculdade e me dedicar só ao trabalho ou trancar e voltar noutro momento. Talvez seja melhor me transferir para uma faculdade mais fraca, mas que tenha um horário mais compatível com o trabalho.

O mais engraçado é que, na minha rasa experiência em redações, era comum ouvir de editores e colegas de trabalho que a faculdade era um saco. Aquilo soava uma calúnia! Que ridículo! Quem diria que hoje eu repetiria o discurso. Só que por outra razão.

Do curso eu gosto. Aprendi muita coisa nova, conheci pessoas inteligentes, fiz amizades que prometem e algumas paqueras aqui, outras acolá. Não arrisco colocar tudo na balança porque o resultado só vem daqui a quatro anos.

Confesso que não vejo a hora de sair da faculdade. Será que aguento quatro anos?

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