OPINIÃO
30/04/2015 15:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Preconceito F.C.

Eu sou corintiano e sou homossexual. E uma das coisas que mais me envergonham no futebol no Brasil é a discriminação reproduzida pelas torcidas. As arquibancadas estão carregadas de machismo e de discursos racistas e homofóbicos. A homofobia, por exemplo, é encarada pelos torcedores como simples brincadeira, uma discriminação tão arraigada que é quase institucional.

Por Vinícius Cordeiro, 21, morador de Rio Grande da Serra, Grande São Paulo

Eu sou corintiano e sou homossexual. E uma das coisas que mais me envergonham no futebol no Brasil é a discriminação reproduzida pelas torcidas. As arquibancadas estão carregadas de machismo e de discursos racistas e homofóbicos. A homofobia, por exemplo, é encarada pelos torcedores como simples brincadeira, uma discriminação tão arraigada que é quase institucional.

Os são-paulinos sabem muito bem do que falo. Afinal, estão acostumados a serem tachados de "bambis". Por mais que jogasse bem no time, Richarlyson era alvo de piadas. Convenhamos: onde está a graça? Não é brincadeira considerar a homossexualidade uma forma de ofensa.

Em dias de jogo, os estádios parecem transformar-se em arenas de confronto. Munido pela gana da vitória, o torcedor passa a crer que as regras sociais ali dentro são outras, e que tudo é liberado em prol do triunfo. É então que surgem os comentários preconceituosos, encarados como "liberdade de expressão" quando, na verdade, são o mais puro discurso de ódio.

O que mais me intriga é a dualidade do torcedor. Enquanto um episódio racista é focalizado pelas câmeras da mídia, compartilhado nas redes sociais e rende campanhas da CBF contra o preconceito racial, os gritos de "viado" ou "bicha" que ecoam nos estádios parecem desaparecer, escorados no argumento de que isso faz parte da festa.

Em 2014, por exemplo, o presidente do STJD, Caio Rocha, disse que "bicha" não é considerado um ato discriminatório, mas apenas ofensivo, e que deveria ser enquadrado como "desordem". Na ocasião, havia sido difundido um boato sobre a orientação sexual do jogador Elias, do Corinthians.

Certa vez, debati esse assunto no Twitter e recebi a seguinte resposta: "Vou imprimir sua opinião e usar [para] limpar a bunda". Foi o que disse o autor de um perfil corintiano quando o confrontei por chamado  o juiz de "bambi". Outro internauta alertou: "o cara [que] for em estádio pra ficar com esse pensamento, nem é melhor ir, com todo respeito", numa tentativa de naturalizar a intolerância. E completou: "reclamar disso é igual reclamar da violência em concentração de guerra".

Ao seguir esse raciocínio, puniríamos, portanto, os oprimidos e estaríamos, mais uma vez, autorizando que os opressores continuem com seus gritos de guerra. Afinal, quem vai querer brigar contra uma multidão de pessoas que já nasceu e cresceu acreditando que são-paulino é "bambi" e que "viado" é xingamento?

Viver é muito mais que se acomodar em uma zona de conforto pela preguiça de lutar por respeito. Se abaixássemos a cabeça para a maioria preconceituosa, ainda viveríamos em regime de escravidão ou, talvez, com as mulheres ainda em estado de total submissão aos seus maridos. Falta empatia e respeito aos torcedores, e falta coragem da mídia e dos governantes para combater a homofobia assim como combatem o racismo.

Eu, como um corintiano homossexual, resvalo no perigo de ser mais um número nas estatísticas que a intolerância contabiliza. E isso não é "mérito" apenas do Corinthians. O São Paulo também não é a vítima da história, pois seus torcedores retrucam os apelidos de "bambi" com mais ódio e preconceito de classe. O futebol nacional, como um todo, está mergulhado em insultos.

No Brasil, gostar de futebol e ser homossexual é estar imerso em um reduto da "masculinidade" e carregar o fardo de torcer ao lado de pessoas que não aceitam que você faça parte daquele grupo. É ser motivo de chacota e ter que aceitar que isso não passa de uma brincadeira. Quem sabe um dia o respeito ouse aparecer e, enfim, eu possa ter orgulho de ser torcedor.

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