OPINIÃO
07/09/2015 12:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Minha rotina no transporte público: 'Aguardando a movimentação do trem à frente'

Tem horas que não acredito que paguei R$ 3,50 ser transportada desse jeito. São horas de aperto, tem o surfe dos sem barra e a fatídica gravação: "Estamos aguardando a movimentação do trem à frente".

Sufoco de cada dia. Horário de pico na Luz.

Um vídeo publicado por Tamiris Gomes (@tamirisgs) em

Por Tamiris Gomes, 25 anos, moradora de Poá, na Grande São Paulo (no trajeto até a Luz)

O sufoco e a rotina de quem usa o transporte público sobre trilhos todo dia em São Paulo. A cada embarque e desembarque nas estações, são inúmeras as histórias de uma cidade em movimento.

São 6h30 e me preparo para ser uma das cerca de 715 mil pessoas transportadas por dia pela Linha 11-Coral (Luz - Guaianases - Estudantes) da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), que liga Mogi das Cruzes até o centro de São Paulo, um trajeto de cerca de 50 km.

Com olhos inchados e o rosto ainda marcado pelo lençol, entro na composição na estação Calmon Viana, em Poá, na Grande São Paulo. Sigo até a estação terminal Luz, onde faço a transferência para a Linha 4-Amarela do metrô da capital paulista. São 1h10 de viagem.

O solavanco do trem é o menor dos problemas, quando é preciso encontrar um espaço estratégico para saltar a tempo em Guaianases e tomar outro trem, o Expresso Leste. Sentar no banco é um sonho almejado por todos no vagão lotado.

A essa hora, o chamado "shopping trem" já está com as vendas a todo vapor. Antes restritos ao amendoim, hoje os vendedores ambulantes sobre trilhos comercializam os mais variados tipo de chocolates, balas, fones de ouvido e até produtos que aliviam dores musculares.

Concordando ou não com a prática, muitas vezes eles são a salvação de alguém que saiu de casa correndo sem comer - digo com conhecimento de causa. "Mais alguém, alguém mais?", dizem os vendedores.

Poá, Ferraz de Vasconcelos, Antônio Gianetti e, enfim, Guaianases. São cerca de 20 minutos nesse primeiro trecho de viagem, mas chegar não é garantia de haver trem para embarcar.

Às 7h, as plataformas estão abarrotadas de gente. Espero pelo menos dois trens para conseguir embarcar. O empurra-empurra de todo dia já me levou até um sapato. De lá, são 24 km bem compactados até a Luz, região central de SP.

Levo sempre um livro para me distrair - mas nem sempre há espaço o suficiente para abri-lo. Mesmo em pé, vale buscar equilíbrio e se concentrar nas páginas: o tempo acaba passando rápido e você se estressa menos.

Leio umas 20 páginas por dia (entre a ida e a volta). Numa olhada em volta, percebo que a saga da série Game of Thrones, escrita por George R. R. Martin nos livrões de As Crônicas de Gelo e Fogo, as publicações de John Green e a trilogia de E. L. James é o que mais se vê.

Tem horas que não acredito que paguei R$ 3,50 ser transportada desse jeito. São horas de aperto, tem o surfe dos sem barra e a fatídica gravação: "Estamos aguardando a movimentação do trem à frente", quando o trem empaca e demora mais que os 32 minutos prometidos pela CPTM para chegar até a Luz.

Pela manhã (sem avarias), o percurso dura, em média, 40 minutos. Por conta do maior fluxo de pessoas nas estações, o embarque e desembarque acabam demorando mais.

José Bonifácio, Dom Bosco, Corinthians-Itaquera, Tatuapé, Brás e, finalmente, Luz. Ufa! É quase uma libertação descer no trem. Mas não, ainda não acabou.

Para ir até a Linha Amarela é preciso passar por um enroscado corredor. Os passageiros da linha 7-Rubi (Luz - Francisco Morato) se misturam com os da linha 11-Coral e a coisa degringola. No vídeo que abre a matéria - gravado por volta das 8h da manhã - mostro como os usuários andam como pinguins todos os dias.

No metrô, passo pelas estações República, Paulista e Fradique Coutinho, onde desço. Gasto entre 1h20 e 1h30 para chegar nesta estação, tirando os percursos que faço a pé da minha casa até a estação e da estação até o trabalho, na Vila Madalena.

Foi apenas mais um dia. Amanhã, a vida se repete nesse monte de estações.

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