OPINIÃO
19/06/2015 17:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Minha nada mole vida

Cinco e meia da manhã estou de pé, todo dia. Saio de casa ainda sem sol no céu. Já me tornei íntimo da lua faz tempo. Corro pro ponto do ônibus e fico esperando o bendito aparecer. Quando ele resolve dar as caras, é só enfrentar o caótico trânsito do Rio. Se o busão não aparece, o que me resta é ou esperar muito e chegar atrasado, ou pegar qualquer um que me leve para um ponto mais movimentado. Uma loucura.

Shutterstock / Andrey Shadrin

Por Lucas França, 17, do Méier, Rio de Janeiro

Cinco e meia da manhã estou de pé, todo dia. Saio de casa ainda sem sol no céu. Já me tornei íntimo da lua faz tempo. Corro pro ponto do ônibus e fico esperando o bendito aparecer. Quando ele resolve dar as caras, é só enfrentar o caótico trânsito do Rio. Se o busão não aparece, o que me resta é ou esperar muito e chegar atrasado, ou pegar qualquer um que me leve para um ponto mais movimentado. Uma loucura.

Da minha casa, no bairro da Piedade, até a escola, no bairro da Tijuca, ambos na zona norte do Rio, levo 50 minutos. Se o trânsito estiver normal. Mas há sempre um lado bom em tudo. De vez em quando, até reponho as poucas horas de sono com a ajuda do balançar do ônibus. Passando pela etapa do busão, chego finalmente na escola e minha maratona diária de dez horas seguidas de aula começa.

Mas, oi, ainda não me apresentei, né? Perdão pela falta de educação, é que carioca chega "chegando". E pulando etapas. Enfim, vou tentar ser mais formal, mas bem pouco.

Sou Lucas França da Silva, tenho 17 anos. Curto praia, cinema e rap, não necessariamente nessa ordem. Se forem os três juntos, melhor ainda.

Atualmente, sou um estudante em horário integral: das 7h às 17h, mas isso não me impede de fazer aquilo de que gosto. Faço o ensino médio no Colégio Estadual José Leite Lopes/NAVE, e minhas aulas são divididas entre a grade regular e a do curso técnico, que no meu caso é o de roteiro para mídias digitais.

No curso técnico, os alunos estudam e realizam todas as etapas de construção de um roteiro, desde a pesquisa de conteúdo, passando pela construção de diálogos, chegando enfim na montagem e pós produção. É a loucura mais gostosa do mundo.

Já fiz roteiros sobre uma família em fuga da escravidão no Brasil, uma mãe solteira "bartender" na Lapa e até sobre jogadores de futebol que morreram e marcaram uma partida no céu.

E eu ainda consigo achar tempo para fazer um pré-vestibular. Segunda e quarta, depois da aula, e sábado, o dia todo. Sim, talvez eu vá morrer de cansaço, mas tudo tem um motivo. Quero trabalhar na minha área e continuar estudando comunicação, por isso vou prestar o Enem e o vestibular na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) para jornalismo, que é muito concorrido.

Acho que a minha ida para a faculdade mudaria a minha realidade e a da minha família. Sou o segundo com chances de concluir o ensino superior numa faculdade pública, depois da minha irmã.

Creio que esteja no caminho certo, já que desde pequeno me identifico com escrita e leitura e sempre fui muito curioso. Só é meio chato ter de estudar matemática, química e física só pra depois poder trabalhar com verbos, frases e comunicação. Isso dói.

Bom, voltemos à rotina. Aula, prova, trabalho, pesquisa, pré-vestibular e, se possível for, seis horas de sono.

É muito trabalho, escrita que não acaba mais, professores chatos e retrógrados. No entanto, ótimas coisas existem nesse meu cotidiano atarefado. Tenho professores que me tratam como igual e entendem meus problemas, amigos que, por conta das dez horas diárias de aula juntos, se tornaram da família e músicas que eu posso ouvir repetidamente para relaxar. São essas coisas que importam e me mantêm de pé.

Outra coisa da qual não posso reclamar é da estrutura da escola, diferente da maioria das escolas públicas por aí. Tem PC pra todo lado, ar-condicionado até no banheiro e salas espaçosas. Os funcionários são gente finíssima, pessoas que, às vezes, passam despercebidas, mas que são essenciais pro andamento da escola e, se me permitem, pro meu próprio também.

Passada a maratona de dez horas de estudo, a volta pra casa é muito divertida. No primeiro ônibus, eu e uns dez amigos voltamos juntos. Ou seja, tem de pagode até roda de rima no fundo do busão. No segundo ônibus, sento no último banco e já adianto a hora de dormir. Quando tem pré-vestibular, só chego em casa lá pras 22h.

Não quero que entendam esse texto como coitadismo ou algo pra gerar pena em quem lê. Relatei meu dia pra mostrar que a vida do estudante, aqui do Rio ou do restante desse Brasil, não é nem um pouco fácil. É pra quem quer correr atrás, lutar pelo seu espaço.

Ser estudante hoje é quase um ato de bravura, de revolução.

Quer continuar lendo matérias como essa? Seja um apoiador firmeza da Énois e ajude a gente com as nossas formações de jornalismo com os jovens. Clique aqui e saiba como apoiar.