OPINIÃO
07/04/2015 18:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Desenhando novos dias

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Por Tiago Tuiuiu, morador de Figueira Grande, zona sul de São Paulo

Conhecer pessoas é algo habitual no meu trabalho como monitor na "lan house" do Labhacker. Todo dia aparece alguém que quer entender o que há de especial naquele lugar, repleto de vida e que mais parece -e realmente é- uma garagem.

E assim conheci Marcelinho, um homem de 41 anos, negro, de cabelo enrolado e aquela entrada calva típica dos homens de 41 anos. Vinha com seus desenhos embaixo do braço e muita inspiração em suas palavras.

Desde o primeiro instante, mesmo sem saber o que era o Lab, procurou mostrar serviço. Logo nos fez segurar uma folha com seus personagens empilhados, enquanto contava sobre sua experiência ao desenvolver capas para a Marvel quando era jovem. Depois desse dia, ele passou a frequentar o Lab. Ouvir Jamiroquai e folhear alguns livros era seu ritual.

Há alguns dias, encontrei novamente com ele, porém em situação insólita. Estava deitado em frente à porta do Lab, cansado e vencido pelo seu amigo desleal, o álcool, que o persegue e oprime, mas, ao mesmo tempo, o consola em sua condição.

Morador de rua, há 11 anos Marcelinho luta contra o vício. A maconha, a cocaína e o crack não foram seu pior problema. Do álcool é mais difícil ele se separar. "Faço tratamento no CAPS [Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas] e parei com as drogas. Mas o alcoolismo às vezes me pega", Marcelinho, com tristeza, desabafou em nossa última conversa. "Cada dia é uma luta."

Marcelinho nem sempre morou na rua ou usou drogas. Mas sempre desenhou. Aos seis anos, reinventava o Incrível Hulk, com azulejo, no concreto do colégio interno na cidade de Batatais, interior de São Paulo, onde, após ser abandonado por seus pais, morou, ganhou nome e estudo. Quando tinha 11 anos, um casal de idosos o adotou e o trouxe para a capital. Seu contato com as drogas veio 21 anos depois entre "amigos, festas e o rock'n'roll", de que ele diz ainda gostar muito.

Marcelinho dorme e passa as noites em um dos nove centros de acolhida na região do bairro da Armênia em São Paulo. Esses centros oferecem camas, serviços de higiene e alimentação. A cidade conta com 30 centros de acolhida e nove centros de acolhida especial -estes atendem 24 horas por dia, todos os dias da semana e servem a um público específico: mulheres sozinhas, crianças, idosos e pessoas doentes sem residência.

Na cidade de São Paulo, existem 14.478 pessoas em situação de rua. Dentre elas, 6.765 dormem nas ruas e 7.713 repousam nos centros de acolhida da prefeitura.

Marcelinho faz parte desse número. É num desses lugares que ele descansa e sonha com seus projetos: voltar a trabalhar com seus desenhos e entrar na faculdade de design.

Na literatura, Marcelinho busca histórias diferentes da sua, que o ajudem a enxergar maneiras de alcançar seus objetivos. Em sua primeira visita ao Lab, já foi direto à estante de livros, mas só duas semanas depois teve coragem de pedir algum emprestado.

"Eu leio uma média de 12 livros por ano, mas neste ano eu já li seis", diz Marcelinho em uma de nossas conversas, ainda em março.

Entre os livros que já leu, ele comenta se identificar com a biografia de Heitor Villa-Lobos, maestro e compositor brasileiro. "O cara era músico de mão cheia. Você lê o livro e até ouve ele tocar as notas." Villa-Lobos era sensível aos elementos culturais dos lugares que visitava. Tinha a capacidade de absorver essas informações e transpor para suas obras. O que não é muito diferente do que faz Marcelinho, usando o que aprende nos livros para morar na rua e perseguir seus sonhos, num constante exercício de adaptação.

Há uma semana Marcelinho não visitava o Lab. Com sintomas de dengue, ele ficou internado, recebendo tratamento. O Estado de São Paulo, desde o início do ano, já confirmou 86 mil casos de pessoas infectadas pela dengue e 70 mortes pela doença. Felizmente, não era o caso de Marcelinho, que agora se recupera e retoma seus projetos.

Saiba mais

Assim como Marcelinho, 86% dos moradores de rua da cidade de São Paulo são homens, segundo o Censo 2011. A população em situação de rua vive principalmente em bairros comerciais, e a região central concentra a maior parte dos acolhidos (73,8%).

Veja no vídeo abaixo, do programa "Provocações", da TV Cultura, algumas conversas com moradores de rua que contam suas histórias e suas pretensões.