OPINIÃO
09/04/2016 20:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

De dentro da ocupação: uma ex-aluna no movimento contra a mudança nas escolas de São Paulo

Até quando, não se sabe. Os alunos ocupantes dizem que até o governo voltar atrás e chamar os estudantes pra planejar junto a reestruturação. Eles não consideram que a proposta de sair das escolas pra negociar pode ser chamada de diálogo. Querem fazer parte. E estão fazendo.

Por Maryane Silva, 20 anos, de Diadema, SP

Me formei em 2013 na Escola Estadual de Diadema. Agora, como repórter, fui cobrir a ocupação do meu ex-colégio pelos alunos, que estão acampados por lá desde segunda feira, dia 9 de novembro.

O grupo, que tem cerca de 30 pessoas, é contra a reestruturação da educação promovida pelo governo Geraldo Alckmin e que vai fechar 93 escolas no estado de São Paulo e tornar 754 de turno único, segundo a secretaria.

A escola vai manter o fundamental 1 e 2, e o ensino médio noturno vai acabar. A galera quer manter as aulas à noite. Além disso a ocupação, pra eles, é uma forma de pedir diálogo com a Secretaria de Educação. Em nenhum momento a proposta foi aberta aos alunos, pais e professores e também não teve o famoso DiaE, que iria explicar as mudanças propostas pelo governo, nas escolas.

Rede ocupa

O organização do movimento começou antes da ocupação das escolas. Como a maioria é menor de idade, fizeram um termo de autorização e pediram aos pais que assinassem. O papel deu o primeiro respaldo já que a turma tinha o aval dos pais e responsáveis, que nele atestavam saber e permitir que os filhos ficassem na escola.

Durante a semana, foi comum ver a imprensa retratando muitos pais orgulhosos dos filhos, apoiando ocupações. A diretora, por outro lado, tentou ligar pra casa de alguns dos alunos pra avisar aos pais e pedir que viessem buscá-los. Eles respondiam: eu sei que meu filho está aí.

A galera de Diadema também resolveu que não impediria que as aulas continuassem. Durante o dia, a chave ficava com a direção, que controlava normalmente o fluxo dos alunos, professores e funcionários da escola. À noite, o grupo de alunos ocupantes ficava com a chave pra poder fechar a escola. Pela manhã, o controle voltava à direção.

Foi assim até o secretário da Educação dar uma entrevista coletiva - na terça-feira, dia 17 - e se dizer aberto ao diálogo, mas não a alterar qualquer coisa na reestruturação escolar. Isso logo depois de a justiça derrubar uma liminar que pedia a reintegração de posse - ou seja, a saída dos alunos e volta da escola pro cotidiano normal.

A partir do dia seguinte, a galera resolveu manter a escola fechada e impedir as aulas. Desde então continua assim.

Semanas de ocupação

Eu acompanho o dia a dia da ocupação há mais de dez dias: desde o dia 13, uma sexta-feira bem confusa.

Durante à tarde, fui à EE Ana Rosa, na região oeste de São Paulo, mas não consegui entrar. À noite, ao voltar para casa, em Diadema, fui direto pra minha ex-escola.

Queria ver como a galera estava organizando o movimento por lá. A EE Diadema tinha sido a primeira a ser ocupada, já na segunda-feira, dia 9. E então resistia há uma semana, coisa impensável no começo da manifestação.

Mal eu cheguei e teve vento e chuva forte, acabou a energia e o gerador da escola queimou. No meio da confusão de barracas, alunos, professores, jantar e lista de atividades previstas, consegui entender pouco do que rolava ali.

Voltei no sábado. Às 9 horas já estava na frente do portão junto com um grupo de pais e mães que tinham ido em busca de informação sobre a reestruturação das escolas: era o Dia E, agendado pela secretaria estadual pra esclarecer as mudanças. Só que lá a escola ficou fechada, segundo a secretaria, por conta da falta de energia.

Consegui entrar ao meio-dia, quando a luz voltou e a direção liberou a entrada.

Dia a dia da ocupa

O almoço chegou às 14h30. Era o sindicato dos professores, a Apeoesp, que bancava nas primeiras semanas. Agora, são eles que fazem a própria comida pois abriram a cozinha da escola.

Lá dentro, a molecada lava roupa num tanque ao ar livre, organiza atividades culturais e faz reuniões: pra decidir a programação do dia, pra escolher os representantes que vai às audiências, pra abrir ou não o portão.

O dia a dia é movimentado. Os alunos saem para trabalhar ou fazer cursos e depois voltam. Os pais e mães também estão por ali, vão ver se os filhos estão bem, se precisam de algo, levam roupas e comida. Os advogados avisam os alunos sobre as audiências que pedem reintegração de posse da escola, ajudam na defesa e na argumentação. O conselheiro tutelar sempre passa por lá.

Todo dia tem um embate, uma tensão: um dia é a falta de luz, no outro a chegada e uma intimação, no outro é data de reintegração de posse, dia de audiência pública com o governo do estado. A galera se junta, usa a rede de apoio, pede ajuda e o movimento já passa de duas semanas.

Até quando, não se sabe. Os alunos ocupantes dizem que até o governo voltar atrás e chamar os estudantes pra planejar junto a reestruturação. Eles não consideram que a proposta de sair das escolas pra negociar pode ser chamada de diálogo. Querem fazer parte. E estão fazendo.

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